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Abelhas para polinizar o CerradoCerca de 70% das plantas produzem frutos com sementes férteis graças às abelhas. Para garantir a preservação das espécies nativas com geração de renda, o Projeto Abelhas Nativas (PAN) promove a produção familiar e comunitária do natmel, cujo valor chega a ser seis vezes maior que o do mel tradicional.
A escolha não foi à toa. O Maranhão é um dos Estados com maior quantidade de abelhas sem ferrão produtoras de natmel (jandaÃra, tiúba e uruçu), sobretudo em remanescentes de Cerrado. “A estratégia fundamental é dar sustentabilidade à conservação da biodiversidade gerando renda. Nossa esperança é de a atividade começar complementar e avançar para ser a atividade principal das famÃlias”, explica João Otávio, coordenador-geral do PAN e presidente da Amavida. O otimismo é baseado no valor de venda do natmel, estimado em R$ 40,45 o litro. O mel convencional, produzido por abelhas com ferrão, não sai por mais de R$ 6 o litro. Apesar disso, não é preciso avançar a qualquer custo, avisa João Otávio. Atualmente a experiência abrange 18 comunidades de nove municÃpios do Maranhão, das quais apenas oito alcançaram produção com volume de mercado. Nas demais comunidades, onde o PAN se encontra em fase de implantação, a aposta está no fortalecimento das colônias para que elas possam atravessar o perÃodo de inverno e o de seca, bem como na capacitação das famÃlias para assegurar a sustentabilidade do processo e a qualidade do natmel que será produzido. Toda a produção, lembra, é realizada seguindo os princÃpios do comércio justo. Ou seja, economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta. “Para entrar no projeto, as famÃlias têm de passar por um curso de formação. É gratuito e os produtores ainda recebem diárias”, acrescenta a mobilizadora Fátima Carvalho. A comunidade que produz há mais tempo, diz, é a de Preazinho. Situada em Belagua, municÃpio com 7 mil habitantes e IDH abaixo de 0,5, a comunidade produziu 40 kg de natmel no ano passado sem deixar de lado os cultivos que já praticava. O produto, explica Fátima, é recolhido pelo Fórum de Articulação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Integradas ao Projeto Abelhas Nativas (FATTRIP), onde passa por um processo de maturação que dura de três a seis meses. Trata-se da primeira unidade processadora de produtos da sociobiodiversidade das abelhas nativas, na qual os produtores são convidados para conhecer de perto todas as etapas da produção. Uma das apostas, aliás, está no desenvolvimento de novas tecnologias. Uma das novidades é a Unidade Móvel de Extração de Natmel, equipada com uma tenda desmontável coberta com tela protetora para prevenir poeira e ataques da exótica abelha africanizada e permitir que a equipe possa trabalhar com segurança. Outra ferramenta, já incorporada ao trabalho, é o extrator manual, que faz as vezes de uma seringa que permite a retirada do Natmel sem risco de contato com o produto. “Tudo tem como objetivo garantir a qualidade”, diz João Otávio.
Um dos agricultores mais engajados é Antônio Wilson, de 37 anos. A comunidade em que vive produz o natmel desde 2002 no municÃpio de Barreirinhas, porta de entrada para os Lençóis Maranhenses. A última tirada, que envolveu 12 famÃlias, rendeu 25 kg. “Embora a produção de mel ainda seja pequena, despertou a gente para a preocupação ambiental. Foi o PAN que obrigou a gente a observar a natureza”, diz. Não é à toa, brinca, que o meliponário está localizado numa área de preservação do próprio municÃpio de Barreirinhas. “Aqui todas as decisões são tomadas em conjunto”, explica. Uma delas foi a criação da já batizada trilha das abelhas, a partir da qual os comunitários esperam mobilizar os turistas que passam pela cidade para conhecer o processo de produção do natmel. “Só não pode ser a qualquer custo”, diz Wilson. Slow Food No ano passado, Wilson representou o PAN no encontro gastronômico internacional Terra Madre, em Turim (Itália). O evento foi organizado pela Slow Food, uma associação sem fins lucrativos fundada como resposta aos efeitos padronizantes do fast food, ao desaparecimento das tradições culinárias regionais e ao crescente desinteresse das pessoas na qualidade da sua alimentação e na procedência dos alimentos. O princÃpio básico do movimento, que defende o lema do alimento “bom, limpo e justo”, é o direito ao prazer da alimentação a partir de produtos artesanais de qualidade cultivados de forma respeitosa ao meio ambiente e à s pessoas que os produzem. O que está em jogo, segundo seus integrantes, é uma nova ética alimentar que incorpore as conexões entre o prato e o planeta a partir da defesa da biodiversidade agrÃcola e da aproximação dos produtores e dos consumidores de alimentos, sem deixar de lado o prazer da gastronomia. “A lógica do fast food tem levado à redução da biodiversidade agrÃcola para atender a demanda industrial, cuja diversidade é muito pequena. Por isso não usamos o termo consumidor. Falamos em co-produtor porque sabemos que quem compra os alimentos também influencia no que é produzido”, diz Roberta Sá, coordenadora dos projetos do Slow Food no Brasil. Segundo a especialista, isto significa entender que não basta para um alimento ser orgânico. Se ele seguir a lógica da monocultura extensiva e não beneficiar os pequenos produtores de alimento, sobretudo aqueles próximos ao local onde a comida é consumida, então o alimento pode até ser bom e limpo, mas não será justo. “Quando compramos um alimento também escolhemos um modelo agrÃcola. Por que não estimular a economia local comprando alimentos orgânicos diretamente de pequenos agricultores? É importante começar a questionar a procedência dos alimentos”, alerta Roberta.
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