Portal RTS - Rede de Tecnologia Social

Informativo Eletrônico

Receba as principais notícias da RTS no seu e-mail. Cadastre-se.






Ações do documento

Aly N'Diaye, agrônomo idealizador do PAIS

Foto: Kenia Ribeiro
rts_ecolatina.jpg
Aly N’Diaye

13/02/2008 - O engenheiro agrônomo Aly N’Diaye, idealizador do PAIS, explica nesta entrevista de onde surgiu a inspiração para criar a tecnologia, e fala da satisfação em verificar os resultados nos diferentes lugares onde o sistema foi implantado. Senegalês radicado no Brasil, Aly é entusiasta da agroecologia como meio de transformação social para os agricultores familiares brasileiros.

SEBRAE AGRONEGÓCIOS - Como surgiu a idéia de desenvolver essa tecnologia?

Aly N'Diaye - A idéia surgiu a partir de dificuldades práticas. Quando terminei meu curso na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, eu fui morar com um grupo de pequenos produtores orgânicos no interior do estado. Eram cerca de trinta famílias, que já estavam envolvidas com agricultura orgânica. Na ocasião, eu deixei de fazer mestrado, doutorado, e fui morar com eles para conhecer o outro lado da moeda. Com o convívio, percebi as diiculdades que eles tinham, por exemplo, para maximizar o aproveitamento de tudo o que uma propriedade orgânica pode oferecer. Esse era um problema muito sério, porque a horta era de um lado, o galinheiro do outro, e o gado ficava em outro lugar, distante. Era tudo separado. Então pensei que deveria haver uma forma de aproximar tudo isso, e assim começamos a pesquisar vários projetos. Queria pensar um desenho que permitisse a máxima reciclagem de nutrientes dentro do sistema como um todo.

SA - Então um dos pontos de partida do processo era a questão da reciclagem?

N'Diaye - Exatamente. Uma coisa que ajudou bastante também foi o fato de eu ter sido bolsista de iniciação científica, cumprindo essa bolsa na Embrapa Agrobiologia, que fica colada à Universidade Federal Rural. Eu fazia viabilidade econômica de hortaliças e manejo orgânico. Havia uma fazendinha na qual todo o sistema é reciclado. Isso também eu quis trazer para a comunidade de pequenos produtores onde eu morei. Porque, quando você recicla, você automaticamente reduz custos. E quando se diminui o custo da produção, passa-se a ter mais competitividade. Aliando isso ao manejo agroecológico, você já começa a ser competitivo em termos econômicos e em termos ecológicos também, porque não é preciso desmatar, ou aplicar venenos, ou trazer insumos de fora da propriedade para ter uma produção razoável.

SA - Por isso a opção de trabalhar com a agroecologia?

N'Diaye - Olha, todos os pequenos produtores que adotam o manejo convencional ficam altamente dependentes de produtos químicos para poder funcionar. E esses produtos químicos são caros, destroem tudo, e ao mesmo tempo o solo começa a enfraquecer. E à medida que o solo enfraquece, a produtividade vai caindo. Os custos de produção para você ter aquele mesmo desempenho inicial que tinha, antes de o solo se desgastar, vão ser muito maiores. Então o produtor entra num círculo vicioso e acaba chegando a um ponto em que não consegue mais sustentar esses custos, às vezes sendo  obrigado a deixar sua propriedade, vendê-la para ir a outro lugar. No caso da soja, por exemplo, os grandes produtores multinacionais vão derrubando florestas e mais florestas, e depois mudam de lugar para ter a mesma produtividade inicial. Mas o pequeno produtor, fixo no campo, não tem essas mesmas condições.

SA - Há também uma grande valorização da produção orgânica no mercado.

N'Diaye - Sim, hoje os produtos orgânicos têm uma demanda que está crescendo de modo violento. É uma atividade econômica que está em pleno aquecimento. E a agricultura familiar brasileira precisa estar inserida dentro de uma coisa que está crescendo, tanto ecologicamente quanto economicamente, não é verdade?

SA - E a técnica de irrigação por gotejamento, de onde veio essa proposta?

N'Diaye - Além da experiência prática que vivenciei, busquei inspiração também em outros projetos, que têm mais ou menos o mesmo desenho. Os desenhos dos canteiros redondos lembram um pouco o Projeto Mandala. Esse é um ponto que temos em comum. Mas nós sofisticamos bastante esse tipo de modelo. Criamos, por exemplo, o quintal agroecológico. Temos também o galinheiro central. E temos, principalmente, o sistema de irrigação por gotejamento. Faz uma diferença muito grande. Setenta por cento da água doce do mundo é usada na agricultura na forma de aspersão, jogando a água
de qualquer lugar. Não há uma preocupação com economia de água. Mas se estamos falando de agroecologia, é preciso falar também em economia de água. Isso tudo tem de estar aliado.

SA - Que características precisam ser observadas pelo pequeno agricultor para implantar uma unidade do PAIS em sua propriedade?

N'Diaye - Olha, essa é uma questão sobre a qual sempre conversamos. Quando eu chego numa pequena propriedade e falo “Vamos fazer agricultura orgânica”, isso é uma coisa. Agora, instalar um sistema em quatro dias, que deixa tudo plantado, respeitando o desenho da propriedade, aí é outra coisa. O produtor começa, depois de quatro dias, a fazer agroecologia. Em primeiro lugar a propriedade precisa ter água. Além disso, se eu chegar numa propriedade onde é tudo morro, não tem espaço, não tem como montar. Outro ponto que consideramos bastante: nós estamos dizendo que, dentro de um módulo de cinco mil metros quadrados, nós montamos o projeto, fazendo com que toda essa área produza, vire fonte de alimento para a família daquele produtor. Então não é somente a horta. Por isso, é óbvio que eu nunca vou falar para o produtor pegar os canteiros montados com gotejamento, tudo feito, e plantar aipim. Porque aipim, milho, feijão, essas coisas os produtores já sabem que é para serem plantadas na época das chuvas. As culturas nobres é que são colocadas no canteiro onde o sistema de irrigação está montado. No sistema de irrigação tem uma saída na mangueira, que pode ser usada para salvar as frutas em caso de seca, que são plantadas em volta de toda a área da horta.

SA - Quando o Sr. percorre as unidades do PAIS instaladas em localidades diversas, que tipos de depoimentos ouve dos produtores?

N'Diaye - Eu aprendi a viver como produtor; convivo com essas pessoas há muito tempo, por isso as conheço bem. Em visitas a unidades instaladas em diferentes lugares do interior do Brasil, eu olho nos olhos dos produtores e sei que eles não estão mentindo quando dizem que a vida deles melhorou, que as doenças resultantes de uma má alimentação foram curadas; que a partir da implantação do sistema eles não precisam mais voltar à cidade onde trabalhavam diariamente, deixando a família, para ganhar um salário mínimo; que hoje estão ganhando mais dinheiro, fazendo o seu próprio PAIS. É isso o que eu ouço dos produtores.

SA - Qual sua avaliação dessa parceria envolvendo Sebrae, Fundação Banco do Brasil e Ministério da Integração Nacional para implantar centenas de unidades do PAIS em pequenas propriedades rurais brasileiras?

N'Diaye - É um mérito muito grande a visão que essas instituições tiveram, porque normalmente muitos pensam que o desenvolvimento está nos milhares de hectares de soja que são plantados para exportação. Mas quando é valorizado um pequeno projeto, e quando você pensa num grande projeto somando vários desses pequenos, aí você está falando de trabalho, está falando de desenvolvimento sustentável, está falando de dignidade. Então é isso o que o Sebrae, a Fundação e o Ministério perceberam rapidamente. Já são mais de mil unidades – e estão pensando em instalar outras tantas. E eu acho que vão trabalhar cada vez mais no sentido de pulverizar esses projetos, que podem ser pequenos, mas têm grande valor para as famílias beneficiadas, disseminando-os em nível nacional. Sem medo.

SA - Os resultados obtidos com o PAIS, na sua opinião, comprovam a viabilidade prática da agroecologia?

N'Diaye - Nossa idéia com o PAIS é fazer com que sejam montados pólos de produção agroecológica. Porque o discurso é muito grande. Fala-se muito em fazer agroecologia. Repetidamente. O PAIS dá o instrumento para o pequeno produtor começar uma atividade. É uma tecnologia que reduz a distância entre o discurso e a aplicabilidade da agroecologia. Através de um instrumento simples, barato e que respeita todas as normas da produção agroecológica.

Fonte: Revista Sebrae Agronegócios - nº 7 - Dezembro de 2007

Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática