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União que recicla


Descubra como oito cooperativas de catadores de material reciclável da Bahia se uniram para vencer os atravessadores, diminuir os custos operacionais e multiplicar o preço de venda dos resíduos. Grupo já mobiliza mil trabalhadores/as

Foto: Petrobrás
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Catadores da Rede CataBahia viram renda disparar após trabalho conjunto

Estabelecer uma relação comercial direta das cooperativas de catadores com a indústria recicladora, eliminando a figura dos intermediários a partir da estruturação de sistemas integrados de logística, padronização, capacitação e comercialização em rede. A fórmula, que sequer exige a criação de entrepostos únicos para estocar o material coletado, foi a aposta de oito cooperativas da Bahia para vencer os atravessadores, diminuir os custos operacionais e multiplicar o preço de venda dos resíduos. O grupo envolve cerca de mil catadores em 10 municípios do Estado, aumentando para mais de dois salários mínimos a renda média gerada para cada trabalhador/a.

A iniciativa, batizada de Rede Catabahia, conta com patrocínio da Petrobras e parcerias da Fundação Banco do Brasil, Fundação Avina e Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). “A Rede é, sobretudo, uma central de inteligência que analisa o setor reciclador e articula o total comercializado para garantir escala e regularidade na entrega do material”, explica Antônio Bunchaft, diretor do Centro de Estudos Socioambientais Pangea. Antes da Rede, lembra, havia intermediários que alugavam os carrinhos de coleta aos catadores ao mesmo tempo em que compravam o material coletado a preços irrisórios, gerando ganhos de até 600%.

Entre julho de 2003 e dezembro de 2007, o grupo coletou 15 mil toneladas de recicláveis, volume que já subiu para mil toneladas mensais. Um dos motivos para a escalada foi a adesão de novos catadores. “Começamos com cerca de 300 catadores e hoje são cerca de mil. Além disso, há outros dois mil catadores que já manifestaram interesse em aderir”, diz Bunchaft. Outra estratégia para o aumento de escala foi deixar de fazer a catação apenas nas ruas e investir também nos grandes geradores de lixo. Hoje, shoppings, lojas e supermercados já fecharam acordos com a Rede para disponibilizar todos os seus resíduos. “É mais fácil catar uma tonelada de material reciclável batendo de porta em porta ou coletar este total de uma fonte só? Nos municípios da região metropolitana de Salvador, mais da metade dos resíduos já vêm destes geradores”, diz Bunchaft.

Catadora de materiais recicláveis desde os 10 anos de idade, Sonia dos Santos, 48, comemora os resultados do trabalho em rede. A Cooperativa dos Agentes Ecológicos de Canabrava (Caec), onde trabalha, fica em uma das regiões mais carentes de Salvador, área do antigo lixão de Canabrava. Hoje, além do trabalho cooperativado, os 178 associados contam com sede equipada e um salário mensal na faixa de R$ 480. A entidade ocupa 11 mil m², sendo 3 mil m² de área construída, e está em vias de instalar a nova esteira de seleção de material. Isso sem falar na Estação Digital da Caec, que já conta com 10 computadores, um servidor e acesso à Internet.

Foto: Wilson Besnosik-Agência A TARDE
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Badameiros no extinto lixão de Canabrava: da linha da pobreza à cidadania

“Comecei no lixão com 10 anos, catando ferro às vezes de dia e de noite. Não posso nem dizer que tinha renda porque o que ganhava não dava nem para entrar no mercado”, lembra. O principal problema, segundo ela, eram os atravessadores. “A gente catava e vendia todo o material sem separar nada. Quem ganhavam eram eles”, diz. Com o trabalho em rede, Sonia viu o preço do quilo de ferro saltar de R$ 0,07 para R$ 1, enquanto o quilo do plástico fino pulou de R$ 0,02 para R$ 0,27. O papelão também teve seu valor acrescido em cerca de 60%, ao passo que o preço pelo quilo de garrafas PET quadruplicou. “Hoje tenho data para receber e trabalho com profissionalismo”, diz.

Metodologia

A metodologia de construção do Projeto Rede CataBahia abarca seis etapas. A primeira consiste no diagnóstico da composição gravimétrica,quando são aferidos os valores de contribuição de resíduos per capita (kg/habitante/funcionário x dia) e os percentuais da composição dos resíduos domiciliares (matéria orgânica, materiais recicláveis e rejeitos), de modo a orientar o planejamento na hora da coleta.

A segunda etapa envolve a assistência social integrada, quando os catadores são cadastrados no Bolsa Família, alfabetizados em articulação ao Programa Mova Brasil da Petrobras e têm seus documentos regularizados. Só então é realizada a capacitação, que traz módulos profissionalizantes com princípios de gestão de cooperativas e de comercialização do material coletado. Por fim, são realizadas a incubação, quando começam a ser estruturados os sistemas de logística de captação de resíduos, padronização da triagem e comercialização em Rede, e as ações de comunicação e mobilizaçãosocial, com a formação de multiplicadores e ações de educação ambiental.

Diante dos resultados, a Rede CataBahia foi selecionada pelo concurso nacional do Ministério das Cidades – Seleção Pública de Experiências Exitosas em Educação Ambiental para o Saneamento; venceu o prêmio Excelência na Gestão dos Resíduos Sólidos conferido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária (Abes) e foi finalista do prêmio FINEP de Inovação Tecnológica – Região Nordeste e para o Prêmio Empreendedor Social Ashoka-McKinsey.

Reaplicação em escala

De olho no modelo praticado pela Rede CataBahia e outras organizações em todo o Brasil, o Comitê Coordenador da RTS (CC/RTS) avaliou, este mês, proposta de metodologia de incubação de redes de cooperativas de catadores de materiais recicláveis passível de reaplicação em escala na periferia de grandes centros urbanos. O objetivo é modelar uma tecnologia social capaz de estabelecer uma relação comercial direta das cooperativas com a indústria recicladora, eliminando a figura dos intermediários a partir da estruturação de sistemas integrados de logística, padronização, capacitação e comercialização em rede, entre outros.

A partir da análise das diferentes metodologias desenvolvidas e utilizadas pelas organizações integrantes da RTS no trabalho com empreendimentos solidários do setor da reciclagem, um Grupo de Trabalho (GT) constituído no âmbito da Rede procurou identificar os pontos considerados mais relevantes para o processo de formação de redes de comercialização. A expectativa é possibilitar a diminuição dos custos operacionais e melhorias nos preços de venda dos resíduos. O documento será agora submetido a cooperativas de catadores e organizações de apoio com reconhecida experiência no tema, em oficina de trabalho no dia 04 de julho, tendo em vista o detalhamento e a validação da metodologia.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS 

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