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Uma terra e duas águas


Até 2010, o Comitê Coordenador da RTS se comprometeu em atender 15 mil famílias com as tecnologias de captação de água de chuva, voltadas para a produção, do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Liderada pela ASA, a fase piloto do Programa prevê a construção de 1.497 unidades de tecnologias a partir de uma estrutura executiva ampla, participativa e descentralizada.

Foto: ASA
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Famílias participam de todo o processo de instalação das tecnologias, construídas em regime de mutirão

19/12/2008
- Lançado pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) em abril de 2007, na comunidade de Lajedo de Timbaúba, em Soledade, no Cariri paraibano, o P1+2 tem como objetivo garantir o aproveitamento e o manejo sustentável da água da chuva para a produção de alimentos e criação de pequenos animais. Para chegar lá, o Programa prevê a construção de tecnologias já desenvolvidas e experimentadas pelos/as agricultores/as do Semi-Árido para o armazenamento dessa água, bem como a realização de visitas de intercâmbios e a sistematização de experiências.

Finalizada a fase demonstrativa, apoiada pela Fundação Banco do Brasil e pela Petrobras, o programa entrou em uma nova etapa, conhecida como projeto piloto. Ele terá investimentos de R$ 15,5 milhões oriundos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Os recursos serão aplicados na construção de 1.497 tecnologias, sendo 1.146 cisternas calçadão, 143 barragens subterrâneas e 208 tanques de pedra, beneficiando 3.369 famílias. Também serão inseridas ao escopo do projeto 500 bombas d'água popular (Bap), cuja construção deve beneficiar 6 mil famílias.

Para a execução do projeto piloto, a ASA conta atualmente com 13 Unidades Gestoras Territoriais (UGTs), que se debruçam sobre 60 microrregiões do Semi-Árido. Selecionadas em chamadas públicas, cada uma dispõe de sete pessoas, sendo um coordenador, um gerente e um auxiliar administrativo, além de três animadores de rede e um comunicador popular. Já são duas no Piauí, uma no Ceará, três em Pernambuco, uma em Alagoas, uma em Sergipe, três na Bahia e duas em Minas Gerais. Este mês, a ASA abriu seleção pública para habilitar mais 13 UGTs.

Na prática, as UGTs recebem os recursos e diretrizes da Unidade Gestora Central (UGC) e ficam responsáveis pela execução de base. Isso significa promover as capacitações e os intercâmbios, bem como mobilizar as comissões municipais. Bases do programa, cada comissão municipal é formada por, pelo menos, cinco organizações locais associadas à ASA. Embora a UGT selecione as regiões prioritárias para a implementação do P1+2 em seu respectivo território, são as comissões municipais que decidem pelas famílias que receberão as tecnologias em cada município. “Não é a gente que decide o local exato de cada tecnologia. São os próprios agricultores e instituições daquelas comunidades, que participam do início até o final da implementação”, explica Barbosa.

Aliás, as comissões municipais “ativadas” pelo P1+2 já estão formadas pelo menos desde a implementação do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Como a ASA já chegou a 1.073 municípios do Semi-Árido, as possibilidades de mobilização comunitária para o P1+2 são gigantescas. “Com isso não precisamos duplicar as ações, mas ativar pontos de organização que já existem”, explica Barbosa.

A Cáritas Brasileira, que faz parte da ASA, participa diretamente do processo – as Regionais de Minas Gerais, Ceará, Piauí, Nordeste 3, além da Cáritas Estância de Sergipe e a Cáritas da Diocesana de Pesqueira (PE), já são UGTs do programa. “É um processo importante, porque assim a gente consegue efetivamente mobilizar e formar as organizações na base, o que dá mais capilaridade ao próprio P1+2”, explica Neilde Lima, representante da Cáritas e coordenadora de uma das três UGTs de Pernambuco. Atualmente, sua UGT trabalha diretamente com dez comissões municipais.

Multiplicação

De olho na descentralização, uma das estratégias centrais para a multiplicação do P1+2, segundo Barbosa, é o envolvimento dos próprios agricultores na difusão das tecnologias. “A formação de agricultores experimentadores tem o intuito de demonstrar que o produtor pode ser um pesquisador e um difusor de seus conhecimentos”, afirma.

Na fase demonstrativa do P1+2, foram realizados 144 intercâmbios entre agricultores. Para o projeto piloto, estão previstos 26 intercâmbios interestaduais e 52 intermunicipais. “Agricultores produzem conhecimento e são portadores de experiência. Por isso temos trabalhado na formação de uma rede de agricultores experimentadores para que eles possam trabalhar como multiplicadores”, completa.

Um deles é o agricultor Manoel Gavião, batizado Manoel Severino dos Santos, que nem se lembra mais quantas viagens foram a comunidades agrícolas da Paraíba e de outros estados do Semi-Árido. Em cada uma delas, sua missão era a mesma: trocar experiências com a responsabilidade de devolver aos colegas da região

Foto: ASA
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Barreiro Trincheira em Serra do Inácio, Ouricuri (PE)
tudo o que aprendeu. “Antigamente, o político levava alguma atividade sem que o agricultor tivesse educação nenhuma para aquilo. Era dinheiro perdido. Quando a gente fala a mesma língua, tudo fica mais fácil, até porque na hora sempre tem que fazer alguma adaptação”, argumenta.

Das andanças, Manoel já levou à sua propriedade, no município de Picuí (PB), alternativas como o açude, a cisterna, a barragem subterrânea, a cerca viva e o chamado canteiro econômico, no qual reaproveita para o cultivo a água utilizada na própria casa. Além do aprendizado na recuperação de áreas degradadas e no plantio de árvores nativas, também há por lá a mandala, de seis metros de diâmetro, que permite o uso da água de um tanque de criação de peixes para a irrigação de nove canteiros destinados à plantação de frutas, verduras, legumes e forrageiras. “Eu tinha uma propriedade seca. Hoje tenho água para até um ano e meio. O que eu posso, levo aos outros com prazer”, diz o agricultor experimentador.

O que há de novidade nas andanças de Gavião e tantos outros agricultores experimentadores, dizem especialistas ouvidos pelo Portal da RTS, é que eles não só incorporam e adaptam melhor o conhecimento científico na hora da reaplicação, como também apostam em seus saberes para propor novas tecnologias e práticas agrícolas a partir de suas próprias realidades locais. “De 10 mil anos atrás, quando nasceu a agricultura, até 1960, o conhecimento era gerado assim: pelo agricultor, que se baseava no modelo da própria natureza”, alerta a assessora técnica da ONG  Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (ASPTA), Paula Almeida.

Quem assina embaixo é o agricultor-experimentador José Aparecido dos Santos, o Cidinho, dono de um sítio de 11 hectares a 45 km de Ouricuri (PE). A peregrinação de mais de 15 anos por diversos estados em busca de novos conhecimentos, explica, não permitiu apenas que ele adaptasse em sua propriedade tecnologias como a curva de nível, a cisterna de placa e o sistema de irrigação por gotejamento para aproveitar a “água contada” na barreira trincheira que ergueu com as próprias mãos. Tampouco as viagens serviram somente para que reinventasse uma prática antiga da região: o uso da cobertura morta (restos de cultivo) para evitar a erosão e a transpiração da água numa das regiões em que menos chove no Brasil. “A fitoterapia também era uma coisa forte para a gente, da nossa cultura, e que foi sendo esquecida na região. Hoje usamos de novo a aroeira, o angico, a amburana e o juazeiro”, celebra.

Conheça as tecnologias implementadas pelo P1+2 durante a fase demonstrativa

Cisterna adaptada para a roça:

É formada por uma área de captação (para captar água das chuvas que escorre dos desníveis do terreno ou de áreas pavimentadas como um calçadão), por um reservatório de água (que deve ser bem maior que a cisterna para o uso humano) e um sistema de irrigação (que pode ser operacionalizado manualmente ou por sistemas de bombeamento e gotejamento). Com a água de uma cisterna de 50 mil litros (outra que não a de consumo doméstico) é possível irrigar um quintal produtivo de verduras, regar mudas ou ter água para galinhas e abelhas.

Barragem subterrânea:

Conserva a água de chuva infiltrada no subsolo nas áreas de baixios, fundos de vales e áreas de escoamento das águas de chuva, mediante uma barragem em profundidade cavada até a camada impermeável do solo. Ela tem um grande impacto sobre a estabilidade do sistema produtivo, aumentando a resistência em períodos de seca, quando a área da barragem parece uma ilha verde no meio da caatinga seca. Ela garante a autonomia no que se refere à alimentação, permite a criação de um número maior de animais e diminui a dependência de insumos externos.

Tanque de pedra:

Eles possibilitam o armazenamento de grandes volumes de água captada nos lajedos, aproveitando a inclinação natural neles existentes. Em alguns locais, é necessário construir paredes ou muretas facilitando a contenção ou o direcionamento da água para os tanques e conseqüentemente maior acumulo de água. É uma das inovações técnicas que tem como base a valorização do conhecimento dos agricultores familiares nas estratégias de uso e gestão da água. O tanque de pedra armazena água para os gastos domésticos, para alimentação animal e irrigação de um "quintal produtivo" de verduras.

Barreiro trincheira:

São tanques profundos e estreitos, cavados em subsolo cristalino com um ou mais compartimentos e de mais de três metros de profundidade, com fundo e parede de pedra (piçarra), que não deixa a água se infiltrar. Pequenas valetas são construídas para direcionar a água de enxurradas para esses compartimentos. É aconselhado fazer pequenas barreiras de pedras dentro do desvio da água para reter a areia. Por ser estreito e fundo sua superfície de evaporação é menor. O barreiro trincheira armazena água para os animais e para irrigação de um "quintal produtivo" de verduras.

 

Outras Informações

Sitio: http://www.asabrasil.org.br

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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