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Tecnologias Sociais para o Haiti


Nação mais afetada pela recente escalada mundial dos preços dos alimentos, o Haiti aposta agora em soluções brasileiras para combater estruturalmente o problema da fome no país. Ações serão reaplicadas a partir do Centro de Tecnologias Sociais para a Segurança Alimentar e Nutricional (CTECSAN), que será erguido em Porto Príncipe com recursos do governo brasileiro.

Foto: telegraph.co.uk
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Crianças haitianos se alimentam em escola pública: esperança é de ter no prato mais comida cultivada no proprio país

O Haiti, que importa 53% da comida de que precisa para alimentar seus 8 milhões de habitantes, foi o primeiro país do planeta a sentir na pele os efeitos mais perversos da escalada mundial dos preços dos alimentos. Enfrentando violentos protestos de rua, a multiplicação da emigração clandestina para os Estados Unidos e a elevação de algas à categoria de alimento básico, o país mais pobre do continente americano aposta agora em Tecnologias Sociais brasileiras para mitigar a crise e atacar estruturalmente o problema. As soluções, que devem ser pactuadas junto com técnicos haitianos, serão coordenadas pelo Centro de Tecnologias Sociais para a Segurança Alimentar e Nutricional (CTECSAN), que será erguido em Porto Príncipe com recursos do governo brasileiro.

Segundo analistas, a raiz da crise alimentar do Haiti está na combinação de uma agricultura de corte e queima que degradou várias terras do país, junto à decisão de importar alimentos a partir dos anos 80, quando os preços eram mais atraentes. Na prática, ao baixar as tarifas de importação após negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, o país foi invadido por comida barata vinda principalmente dos Estados Unidos em troca de novos empréstimos.

Como cada produtor rural haitiano tem em média meio hectare, soluções simples e eficientes baseadas na agricultura familiar são a atual aposta dos idealizadores do Centro para retomar a produção de alimentos no país. “O Haiti já foi auto-suficiente em arroz e hoje importa mais da metade da comida que consome. O tema da segurança alimentar, neste contexto, remete a uma questão mais ampla de soberania”, lembra o conselheiro do Itamaraty Milton Rondó Filho, coordenador da articulação junto ao CG Fome do Ministério das Relações Exteriores.

A decisão de construir o CTECSAN, aliás, começou a tomar forma do outro lado do Atlântico, quando representantes do Brasil, Estados Unidos, Canadá, França, Espanha, Argentina e Chile se reuniram, em junho, para a chamada “reunião dos amigos do Haiti”, realizada em Roma (Itália) na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO). À época, o Parlamento havia acabado de destituir o primeiro-ministro haitiano Jacques Eduard Alexis, na esperança de que isso aplacasse os protestos e saques provocados pelo aumento dos preços dos alimentos. Também participaram do encontro o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e a presidente do Programa Mundial de Alimentos, Josette Sheeran.

Na volta, o governo brasileiro enviou, no fim de julho, uma missão ao Haiti para ajudar na elaboração e implementação de um programa de cooperação técnica nas áreas de agricultura e segurança alimentar. Em cerca de uma semana, técnicos brasileiros conheceram a Cite de Soleil, região mais pobre da capital Porto Príncipe, e Kenss-Coff, área produtora de verduras e legumes. Coordenada pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores (MRE), a missão também foi um desdobramento da viagem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ao Haiti em maio deste ano. Na ocasião, ele firmou acordos com o presidente René Préval para a cooperação técnica no período de 2008 a 2010.

“A realidade do Haiti requer solidariedade dos países desenvolvidos e em

Foto: FWIW
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Biscoito feito a base de algas já foi incorporado à dieta haitiana diante da crise mundial de alimentos
desenvolvimento. Neste momento estamos atendendo a uma demanda permanente de agricultura e segurança alimentar”, afirma o diretor da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), José Cesar de Medeiros.

Segundo o analista da Coordenação Geral de Pesquisa e Desenvolvimento em Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Flávio Cruvinel, a idéia inicial é fechar ainda este ano convênio com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)  com vistas ao envio de extensionistas capazes de mapear as potencialidades das Tecnologias Sociais brasileiras por lá. Um dos principais cuidados, avisa, será atender as necessidades dos próprios haitianos. “Possivelmente implementaremos modelos para efeito demonstrativo, de modo que eles mesmos possam demandar o que acharem melhor. Certo é que as TSs terão que ser adaptadas ao contexto local”, explica.

Possíveis parcerias

Ainda não estão decididas as Tecnologias Sociais que serão reaplicadas no Haiti, mas algumas opções já despontam nas conversas com os técnicos haitianos. Uma delas é o sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais). Realizado com base em convênio entre Sebrae, Fundação Banco do Brasil e Ministério da Integração Nacional, o Pais conta atualmente com mais de mil unidades instaladas em centenas de comunidades, assentamentos e povoados em 12 estados brasileiros.

A tecnologia promove um sistema de produção orgânica de hortaliças, frutas e pequenos animais, tendo como pressupostos a racionalização de recursos e o manejo ecológico da terra. A proposta, idealizada pelo agrônomo senegalês Aly N’Diaye, é fazer com que os produtores dependam o mínimo possível de qualquer componente estranho à sua propriedade. Toda a produção acontece sem o uso de agrotóxicos, propiciando alimentos saudáveis e livres de quaisquer interferências químicas. Já a irrigação é feita por meio de um sistema de gotejamento, o que evita o desperdício de água e possibilita a implantação do modelo inclusive em regiões com poucas reservas hídricas, como é o caso do Haiti.

“A degradação das matas causou erosão e a seca dos rios do país. A falta d´água é um problema que teremos que enfrentar”, diz Cruvinel. De olho nele, técnicos brasileiros apostam também em levar ao Haiti as tecnologias de captação de água de chuva desenvolvidas pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) no nordeste. Além das cisternas de placa, que garantem água para beber, a idéia é captar água da chuva também para a produção de alimentos. Neste esforço, destaque para as cisternas calçadão, barragens subterrâneas e tanques de pedra, além de bombas d'água popular (Bap). 

Isso sem falar nas barraginhas. Desenvolvida pela Embrapa Milho e Sorgo, de Sete Lagoas (MG), a TS consiste na construção de pequenas barragens contentoras de enxurradas com vistas à recuperação de áreas degradadas pelo escorrimento das águas de chuvas. Além disso, o sistema força a recarga das reservas subterrâneas e armazena água de boa qualidade no solo, por meio da infiltração ocorrida durante o ciclo chuvoso. Isso ameniza os efeitos das secas e veranicos em lavouras e permite também o plantio de pomares, hortas e canaviais nas partes baixas das barraginhas, bem como a construção de cacimbas e cisternas para o fornecimento de água para consumo humano e animal.

“Outro desafio será vencer a dificuldade de locomoção para escoar a produção e a falta de institucionalidade para a implementação de programas e ações de segurança alimentar”, complementa Cruvinel. Para a construção do CTECSAN, o MCT já assegurou recursos da ordem de U$ 200 mil. A idéia é que o espaço disponha de salas de aula, auditório e cozinha industrial, além de alojamento para os extensionistas brasileiros. “Os detalhes a respeito da construção do Centro devem ser defindos nos próximos meses”, avisa.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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