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Tecnologia Social dentro de casa


Sim, é possível. Nos grandes centros urbanos, um cardápio vasto de Tecnologias Sociais já desponta para melhorar, com sustentabilidade, a qualidade de vida de quem mora em casas ou apartamentos. Compostagem do lixo doméstico, hortas verticais, aquecedores solares de baixo custo e captação da água da chuva estão entre as alternativas simples e baratas que podem ser aplicadas desde já.

Foto: Planeta Sustentável
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Horta vertical é uma das opções para cultivar em casa sem precisar de muito espaço
21/11/2008 - De casa até a esplanada dos ministérios, onde trabalha como gestor do Ministério da Previdência, o administrador Leandro Jacintho não costuma levar mais do que 20 minutos. Morador de uma área de condomínios de Brasília, Jacinto fez da casa onde vive um laboratório vivo de Tecnologias Sociais. Com sistemas de captação de água da chuva e compostagem do próprio lixo, banheiro seco, paredes levantadas com o solo do próprio terreno e horta em mandala no quintal, a residência de 200 m2 foi erguida com preço equivalente a uma casa convencional, com a diferença de que o modelo permite a Jacintho economia permanente nas contas de luz, água e alimentação.

“São todas técnicas simples e replicáveis. Não perdemos nada em conforto”, explica Leandro. Definido o ponto ideal da residência, ele usou a terra da própria propriedade para levantar as paredes. A casa também foi projetada voltada para a “linha de vento”, de modo a garantir o máximo conforto térmico sem precisar de ar condicionado ou ventilador. O desenho arquitetônico também privilegia a luz solar, dispensando lâmpadas acesas durante o dia. Para o acabamento, foram usados ainda restos de obras e materiais reutilizados.

A localização da casa, levando em conta a topografia, foi vital para a criação de um sistema de captação de água de chuva que escorre dos telhados e de um canal para captar um milhão de litros de água durante a estação chuvosa. A água é armazenada em tanques e a filtragem também é resultado de um processo natural. A água da chuva passa por uma caixa de brita que retira a areia e a matéria orgânica. Depois vai para um reservatório, onde depois um filtro natural formado de brita, carvão vegetal em pó e plantas aquáticas torna a água própria para o consumo. Hoje, a capacidade de armazenamento é de mais de 100 mil litros. “A água é fonte de vida e não podemos desperdiçá-la. Aqui a chuva garante nossa água por pelo menos seis meses”, explica.

Leandro conta ainda com uma horta em mandala de 40 m2, de onde provém parte da alimentação da família (folhas, raízes e grãos). Para não deixar nada se perder, a água já utilizada por Leandro em casa vai toda para a irrigação. “Fazemos um ciclo de bananeiras, que aceita bem essa água”, explica.

Levando em conta a importância central da água como fonte de vida, Leandro também construiu em sua casa um banheiro seco. O banheiro seco consiste em um sanitário no qual o vaso não possui descarga de água. As fezes são cobertas com serragem, formando um material que pode ser compostado e utilizado na forma de adubo. O banheiro tem dois níveis. No térreo fica o chuveiro. No andar superior do banheiro seco ficam dois vasos sanitários, que terminam em câmaras de biodigestão. Cada uma é utilizada por um ano e meio, quando é fechada para se utilizar a outra. As fezes são então transformadas em adubo, utilizado por Leandro na horta da chácara.

O banheiro é aparentemente igual ao de qualquer sanitário convencional, com uma diferença: a parte oca do interior do vaso é construída de maneira que não se tenha contato visual com o dejeto. As câmaras de compostagem ficam abaixo do vaso sanitário. A ventilação, garantida por uma chaminé, faz com que não haja mal cheiro.

O sanitário seco é uma tecnologia já utilizada em diversos países, que transforma o que é visto como problema - os dejetos humanos - em adubo orgânico, recurso

Foto: Asa Branca
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Casa que Leandro Jachinto ergueu em Brasília: modelo de sustentabilidade
valioso para agricultura. É "seco" porque não utiliza água. E é "ecológico" por gerar adubo e não produzir esgoto, evitando a contaminação, no final do processo, da própria água. “É uma quebra de paradigma. O pessoal do ministério às vezes faz piada, mas o mais importante é o que o banheiro seco significa”, defende Leandro.

Apartamento

Quem vive em apartamento também pode fazer sua parte. Quem garante é a estudante de biologia Monica Mesquita, de 25 anos, que aproveitou a falta de espaço para apostar na criatividade. O apartamento onde vive, em uma das quadras da Asa Norte de Brasília, tem dois quartos.

O primeiro passo, explica, foi resolver na própria casa a destinação de lixo orgânico. A idéia de descartar os resíduos da maneira convencional, colocando-o na rua para que fosse recolhido pelo caminhão e descartado em lixões ou aterros, não agradava em nada a estudante. Hoje cascas de fruta, restos de alimentos, borra de café e saquinhos de chá já têm como destino a Minhocasa, um sistema de compostagem doméstica em que minhocas convertem resíduos orgânicos em fertilizante natural. Trata-se de um sistema fechado, composto por três caixas plásticas empilhadas. No compartimento do meio, uma colônia de minhocas se alimenta de sobras de alimentos, folhas secas e papel, convertendo-os em dois tipos de adubo: húmus e um biofertilizante líquido.

Se na lixeira convencional o lixo cheira mal, no minhocário isto não ocorre, explica Monica. É que não há fermentação: a relação entre nitrogênio (lixo molhado) e carbono (matéria orgânica seca) é balanceada na proporção de um para dois, respectivamente. Ainda assim, o sistema gera um líquido com pH neutro, que é usado como adubo na rega. “É um sistema simples que qualquer pessoa pode usar”, defende Monica.

Aliás, parte do adubo da minhocasa vai direto para a horta vertical que Monica ergueu com a colega de apartamento. Diante da falta de espaço, a micro-horta levantada junto à parede com bambu e garrafas pet já permite a plantação de pimenta, manjericão, hortelã, alecrim e outras sementes.

Quando falta alguma coisa, Monica pode ainda tentar a sorte na espiral de ervas levantada pelo condomínio do prédio em que mora. Localizada na rua, a espiral de ervas permite diversos microclimas, em um pequeno espaço, para o cultivo de plantas com necessidades diversas. No alto da espiral geralmente há um ambiente mais seco e ensolarado, próprio para alecrim, lavanda e babosa. No percurso curvo até a base, pode-se ter cantos sombreados e mais úmidos, para plantas mais exigentes como tomate, malva, cebolinha e salsa. Na base, que pode terminar ao nível do solo, pode-se plantar espécies apreciadoras de umidade, como manjericão e tomilho.

As espirais podem ser de qualquer tamanho e são perfeitas para espaços pequenos, diz Monica. O mais importante é que todas as ervas, desde o topo até a base, estejam ao alcance das mãos. O material necessário à construção das espirais é barato e fácil de encontrar. Sua estrutura pode ser feita com pedras, tijolos, bambu ou pequenas toras de madeira. Para o "recheio", pode se usar terra de jardim, areia, humus de minhoca e um pouco de adubo orgânico.

Se nem na espiral houver como achar o que precisa, Monica tem ainda à disposição um jardim comunitário orgânico com plantas medicinais e hortaliças frescas, disponível a todos os moradores da vizinhança. O sistema, implementado em cidades de diversos países com vistas ao manejo comunitário de alimentos orgânicos, foi montado por iniciativa dos próprios moradores da quadra.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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