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Sustentabilidade no estuário do rio Amazonas


Na região em que os moradores levam em média três horas para se deslocar de barco entre uma comunidade e outra, mobilização já resultou no manejo comunitário do camarão de água doce, no aproveitamento sustentável de açaizais nativos e na inauguração de uma estação digital

Foto: FBB
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A Amazônia possui 23 espécies de camarões de água doce, sendo três as mais exploradas comercialmente. Contudo, a poluição, a pesca predatória e a destruição das áreas de reprodução (manguezais) vêm diminuindo a quantidade e o tamanho dos camarões da região, comprometendo a rentabilidade dos pescadores e o equilíbrio do próprio ecossistema. De olho na reversão desta tendência, o projeto de manejo comunitário do camarão de água doce, capitaneado pela Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), em Gurupá (PA), deu início a uma cadeia de sustentabilidade que partiu do respeito ao ciclo reprodutivo da espécie para a diversificação produtiva dos pescadores, que hoje têm internet e apostam no manejo de açaizais nativos para complementar a renda pesqueira.

Iniciado em 1997 com 30 famílias da Ilha das Cinzas, o manejo comunitário do camarão de água doce, vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, se baseia em um procedimento desenvolvido pelos comunitários: os camarões são pescados por meio de armadilhas conhecidas como matapis. O matapi é uma ferramenta tradicional da região para capturar camarões de água doce, feita artesanalmente pelas mulheres da comunidade. Trata-se de uma gaiola cilíndrica feitas de talas de juruti (palmeira local), que tem entre 40 centímetros e 2 metros de comprimento. Em suas extremidades há uma espécie de funil, que permite que o crustáceo entre, mas não saia.  

Tradicionalmente, os pescadores da região usavam o matapi para pegar tantos camarões quanto fosse possível. A partir de 1997, no entanto, a experiência incorporou um espaço de um centímetro entre as talas que formam a parede do matapi — assim, os camarões grandes continuam sendo capturados, mas os pequenos ficam livres para se desenvolver. A criação de viveiros flutuantes para estocagem in natura possibilitou ainda beneficiar e comercializar o camarão em grandes quantidades e de forma cooperada, por meio da capacitação das famílias sobre o novo sistema do manejo. “A base de tudo é a mobilizar as famílias e ser bem didático para passar o conhecimento”, explica o pescador e presidente da Ataic, Walmir Malheiros.

Depois das mudanças, não faltou mais camarão e os exemplares capturados passaram a ser maiores e mais pesados. Isso permitiu que a quantidade de camarão capturado diminuísse, mas sem perda de rentabilidade — em 1997, cada quilo de camarão capturado era composto por cerca de 400 animais; em 2008, de 250. Em 1997, o camarão capturado tinha em média 4,5 centímetros e em 2008 esse tamanho passou de 9 centímetros. Com este crescimento, o preço obtido pelo quilo do camarão passou de R$ 0,80 para até R$ 5. Atualmente, a atividade é desenvolvida por cerca de 40 famílias da Ilha das Cinzas e beneficia indiretamente mais 150 pescadores da região de Gurupá.

“Não adianta só pegar uma experiência de longe. Aqui a tecnologia foi desenvolvida por nós e fica bem mais fácil passa-la adiante, o que ajuda na difusão da prática”, diz a secretária da Ataic, Josi Malheiros. Um dos principais benefícios, garante Walmir, está também na melhoria da qualidade de vida das famílias da Ilha das Cinzas. “Hoje conseguimos pescar com 70 matapis o que antes só conseguíamos com 150. É pelo menos 20% a menos de trabalho, que acaba sendo mais tempo para ficar com a família”, diz.  

A produção de camarão é acentuada entre os meses de maio a novembro. A partir de dezembro, começa o período de reprodução, que se intensifica entre os meses de janeiro a março. “Nesse período, os pescadores e as pescadoras suspendem a prática pesqueira, dedicando-se a outras atividades econômicas”, diz Josi. Uma delas é outra aposta da Ataic para incrementar a renda na região: o manejo de açaizais nativos, que se dá numa área de cerca de 4 mil hectares da região. A Ilha das Cinzas, explica, foi transformada num projeto de assentamento extrativista pelo Instituto Nacional de Colonização (Incra). No local, vivem 48 famílias, que extraem a polpa e o palmito do açaizeiro.

Foto: RTS
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A técnica baseia-se na eliminação das plantas de espécies arbustivas e arbóreas de baixo valor comercial, cujos espaços livres são ocupados por plantas de açaizeiros oriundas de sementes que germinam espontaneamente, de mudas preparadas ou transplantadas das proximidades e por outras espécies produzidas especialmente para esse fim. O emprego da prática não requer o uso de insumos, como corretivos e fertilizantes, nem a utilização de recursos energéticos modernos. “Com o manejo do camarão, sobre mais tempo também para o açaí”, explica Walmir.

Estação digital

Prova de que a mobilização tem gerado resultados foi a inauguração, em maio deste ano, da Mini-Estação Digital Ataic Ilha das Cinzas. O espaço, cujo funcionamento é garantido por energia solar, está equipado com um servidor, cinco computadores e uma impressora multifuncional. Implantada com investimentos da Fundação Banco do Brasil a partir de demanda da própria Ataic, a unidade é a esperança dos moradores da ilha e dos que habitam a região de pôr fim ao isolamento.

Além dos nativos da ilha, a mini-estação digital está voltada para toda a cidade de Gurupá, e tem como públicos-alvo trabalhadores agroextrativistas, pescadores, associados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e alunos da Escola Casa Familiar Rural, além de membros de associações comunitárias.

Tendências de mercado

A criação de camarão-d'água-doce é um dos setores da aqüicultura que mais cresce no mundo. Segundo os dados da FAO (2002), de 1990 a 2000, o volume de M. rosenbergii produzido passou de 21 mil para 118.500 toneladas, movimentando mais de US$ 1 bilhão.

No Brasil, a produção de camarão em cativeiro tem boas perspectivas para este ano diante da elevação dos preços do produto no mercado internacional e a consolidação das vendas internas, afirmou este mês o ministro da Secretaria Especial da Aqüicultura e Pesca, Altemir Gregolin, durante abertura da V Feira Nacional do Camarão (Fenacam), em Natal (RN). Segundo ele, os preços do camarão no mercado externo tiveram um aumento de 30% em média. O mercado interno, disse o ministro, está consolidado, com aumento de mais de 50% das vendas em relação ao ano passado.

Outras Informações:
Contato:
Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da
Ilha das Cinzas (Ataic)

Fone: (96) 9903-6454

Endereço eletrônico: josimalheiros@ig.com.br
Vídeos:

Vídeo sobre o manejo comunitário de camarão de água doce
realizado por ocasião do Prêmio Fundação Banco do
Brasil de Tecnologia Social. Duração: 3min55s.

http://www.youtube.com/watch?v=WlpOA0mlqlo

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS 

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