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Somando esforçosCom menos de quatro anos de existência, a RTS já contabilizou a adesão de 661 instituições, das quais 207 se associaram em 2008. Conheça a história de organizações que souberam aproveitar esta articulação para levar geração de renda, inclusão social e cidadania para brasileiros e brasileiras em todo o país.
“Costumamos dizer que, para nós, existe o antes e o depois da adesão à RTS”, diz o presidente da Fundação Mussambê, Daniel Walker. Entre outras ações, a instituição trabalha atualmente na reaplicação da Tecnologia Social “Aproveitamento Total do Coco Babaçu”. Com maquinário simples e de fácil manuseio, a iniciativa foi concebida para facilitar a vida das cerca de 400 mil quebradeiras de coco espalhadas pelos 18,5 milhões de hectares de babaçuais na faixa de transição para a floresta amazônica. Para isso, o grupo desenvolveu a Máquina Despeliculadora para facilitar a retirada da amêndoa do babaçu e o aproveitamento de dois subprodutos: o mesocarpo (rico em amido, cálcio, fósforo e ferro) e o endocarpo (rico em fibras). Também foram criadas a Máquina Rotativa de Corte de Coco Babaçu e a Prensa Hidráulica para extração do óleo da amêndoa, que são disponibilizadas sem cobrança de patentes. “A Rede permitiu nossa aproximação com os financiadores e nos ajudou a chegar em lugares que a gente sequer imaginava”, afirma Walker. Ele se refere à expectativa de transformar a Tecnologia Social em política pública no Maranhão, onde o governo estadual deve implementar cerca de 160 agroindústrias de beneficiamento do babaçu, envolvendo, cada uma, 30 famílias no processo. Atualmente, as máquinas beneficiam mais de 200 trabalhadoras no Ceará e no Maranhão. “Com a RTS conseguimos mostrar nossa Tecnologia Social no país todo”, completa. Aliás, completa Walker, a articulação em rede não apenas contribuiu para ampliar a reaplicação das Tecnologias Sociais já concebidas pela organização. Junto ao Instituto Morro da Cutia de Agroecologia (IMCA), outra instituição associada à RTS, a Fundação trabalha atualmente na concepção de uma nova Tecnologia Social capaz de garantir, localmente, energia para agricultores familiares de todo o país. A idéia é ampliar o alcance do sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) a partir do plantio de espécies como o amendoim e o pinhão manso, que poderão ser convertidas em combustível para abastecer geradores e tratores. Com 2.774 unidades instaladas em todo o país, o Pais tem como pilares uma horta em formato circular, a irrigação por gotejamento e um galinheiro para fornecimento de adubo orgânico. “A Mussambê faz a prensa, nós sabemos fazer o combustível e a RTS já reaplica o Pais. O universo de relações que faz parte da Rede é muito grande e ajuda a gente a se encontrar”, afirma Paulo Lenhardt, do IMCA. Atualmente, a organização, sediada em Montenegro (RS), também trabalha para garantir a conversão do óleo de cozinha utilizado em restaurantes, lares e escolas em biocombustível, preservando os recursos hídricos e disseminando alternativas de geração de energia apropriáveis e reaplicáveis pelas comunidades rurais. O grupo coleta cerca de três toneladas de óleo por mês, oferecendo à população uma estrutura que garante o acondicionamento adequado do resíduo recolhido até que possa ser limpo. Uma vez na estação de tratamento, o óleo é filtrado e decantado, tornando-se apropriado para a utilização como biocombustível. Para cada 10 litros de óleo recolhido, é possível produzir cerca de seis litros de combustível. “A Rede ajudou a dar visibilidade à tecnologia. Vários municípios já estão chamando a gente para fazer a coleta do óleo”, completa. Para a diretora da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), Aldalice Otterloo, esse tipo de parceira evidencia que as instituições associadas à RTS, mesmo tão diferentes, já começam a notar que a integração de esforços pode auxiliar na reaplicação e no desenvolvimento de novas Tecnologias Sociais. “A Rede conseguiu mostrar que é possível reunir diferentes atores que historicamente não dialogavam entre si. Assim podemos potencializar as ações de enfrentamento das desigualdades sociais”, defende.
Do sertão para o mundo Em parceria com instituições nacionais e internacionais, o Instituto Eco-Engenho concebeu e vem implementando o Programa H2SOL - Água Solar, que trabalha na instalação de microssistemas produtivos de irrigação para produtos de alto valor agregado, com uso de energia renovável e
tecnologias adequadas em comunidades remotas do Semi-árido do Nordeste do Brasil. O local escolhido para inaugurr o programa não podia ser mais emblemático: a comunidade de Baixas, uma das mais pobres do município de São José da Tapera, a 210 quilômetros de Maceió, que se notabilizou, na última década, por apresentar o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. “A RTS contribuiu muito para dar visibilidade ao nosso trabalho. Foi por isso que chegamos à Rede Ashoka e conseguimos publicar nossa experiência na revista Newsweek e na revista de bordo da Air France”, comemora o presidente do Instituto Eco-Engenho, José Roberto Fonseca, em alusão às reuniões promovidas pela RTS de que participou e à exibição da tecnologia em mostras e feiras. Uma delas foi a Expo Brasil Desenvolvimento local, maior encontro internacional sobre o tema e que reuniu representantes de 12 países no último mês de novembro, em Cuiabá (MT). Baseada na hidroponia, sistema de cultivo sem contato com o solo, que usa canaletas por onde a água circula continuamente com pequena perda pela evaporação, a produção de pimentas, avisa Fonseca, já beneficia diretamente 11 das cerca de 40 famílias de Baixas. As demais ganham dinheiro ajudando na colheita e no beneficiamento do produto. A renda familiar, baseada exclusivamente na venda de vassouras a R$ 0,25 a unidade, beirava os R$ 90 mensais antes da implantação do sistema. Hoje, cada família não ganha menos do que R$ 600 por mês. “Trabalhar em rede sempre é importante, até porque passamos a conhecer tecnologias que podem ser complementares ao nosso modelo”, completa Fonseca. Camarão de água doce Quem também celebra a participação na Rede é a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), sediada em Gurupá (PA). Iniciado em 1997 com 30 famílias da Ilha das Cinzas, o manejo comunitário do camarão de água doce, vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, se baseia em um procedimento desenvolvido pelos comunitários: os camarões são pescados por meio de armadilhas conhecidas como matapis. Trata-se de uma gaiola cilíndrica feitas de talas de juruti (palmeira local), que tem entre 40 centímetros e 2 metros de comprimento. Em suas extremidades há uma espécie de funil, que permite que o crustáceo entre, mas não saia. Tradicionalmente, os pescadores da região usavam o matapi para pegar tantos camarões quanto fosse possível. A partir de 1997, no entanto, a experiência incorporou um espaço de um centímetro entre as talas que formam a parede do matapi — assim, os camarões grandes continuam sendo capturados, mas os pequenos ficam livres para se desenvolver. A criação de viveiros flutuantes para estocagem in natura possibilitou ainda beneficiar e comercializar o camarão em grandes quantidades e de forma cooperada, por meio da capacitação das famílias sobre o novo sistema do manejo. Depois das mudanças, não faltou mais camarão e os exemplares capturados passaram a ser maiores e mais pesados. Isso permitiu que a quantidade de camarão capturado diminuísse, mas sem perda de rentabilidade — em 1997, cada quilo de camarão capturado era composto por cerca de 400 animais; em 2008, de 250. Em 1997, o camarão capturado tinha em média 4,5 centímetros e em 2008 esse tamanho passou de 9 centímetros. Com este crescimento, o preço obtido pelo quilo do camarão passou de R$ 0,80 para até R$ 5. Com o objetivo de ampliar o debate sobre a pesca de camarão na região do estuário amazônico e elaborar propostas de políticas públicas para a atividade, a Ataic promoveu, com o apoio da RTS, uma série de encontros regionais com vistas a levar a tecnologia a outras comunidades de pescadores do Rio Amazonas. “Reunimos pescadores de 20 municípios com a idéia de debater como agregar valor à atividade cuidando da sustentabilidade”, diz o presidente da Ataic, Walmir Malheiros. Os eventos foram promovidos com o patrocínio da Petrobras e da Fundação Banco do Brasil, instituições mantenedoras da RTS. Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS |
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