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Somando esforços


Com menos de quatro anos de existência, a RTS já contabilizou a adesão de 661 instituições, das quais 207 se associaram em 2008. Conheça a história de organizações que souberam aproveitar esta articulação para levar geração de renda, inclusão social e cidadania para brasileiros e brasileiras em todo o país.

Foto: Rodrigo CSS
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Mais de 200 instituições se associaram à Rede em 2008.

19/02/2009
- Fundada em 2005, a Rede de Tecnologia Social (RTS) viu saltar de 30 para 661 o número de instituições associadas. São organizações não governamentais, centros de pesquisa, cooperativas, empresas, escolas de ensino médio, fundações e institutos, sindicatos, universidades e órgãos de governo nos níveis federal, estadual e municipal unidos pela mesma finalidade: somar esforços para ampliar a difusão e a reaplicação de Tecnologias Sociais. Com vistas a fazer valer esta capilaridade, diversas instituições souberam apostar na articulação em rede para garantir, em seus territórios, o desenvolvimento e a reaplicação de TSs geradoras de trabalho e renda.

“Costumamos dizer que, para nós, existe o antes e o depois da adesão à RTS”, diz o presidente da Fundação Mussambê, Daniel Walker. Entre outras ações, a instituição trabalha atualmente na reaplicação da Tecnologia Social “Aproveitamento Total do Coco Babaçu”. Com maquinário simples e de fácil manuseio, a iniciativa foi concebida para facilitar a vida das cerca de 400 mil quebradeiras de coco espalhadas pelos 18,5 milhões de hectares de babaçuais na faixa de transição para a floresta amazônica. Para isso, o grupo desenvolveu a Máquina Despeliculadora para facilitar a retirada da amêndoa do babaçu e o aproveitamento de dois subprodutos: o mesocarpo (rico em amido, cálcio, fósforo e ferro) e o endocarpo (rico em fibras). Também foram criadas a Máquina Rotativa de Corte de Coco Babaçu e a Prensa Hidráulica para extração do óleo da amêndoa, que são disponibilizadas sem cobrança de patentes.

“A Rede permitiu nossa aproximação com os financiadores e nos ajudou a chegar em lugares que a gente sequer imaginava”, afirma Walker. Ele se refere à expectativa de transformar a Tecnologia Social em política pública no Maranhão, onde o governo estadual deve implementar cerca de 160 agroindústrias de beneficiamento do babaçu, envolvendo, cada uma, 30 famílias no processo. Atualmente, as máquinas beneficiam mais de 200 trabalhadoras no Ceará e no Maranhão. “Com a RTS conseguimos mostrar nossa Tecnologia Social no país todo”, completa.

Aliás, completa Walker, a articulação em rede não apenas contribuiu para ampliar a reaplicação das Tecnologias Sociais já concebidas pela organização. Junto ao Instituto Morro da Cutia de Agroecologia (IMCA), outra instituição associada à RTS, a Fundação trabalha atualmente na concepção de uma nova Tecnologia Social capaz de garantir, localmente, energia para agricultores familiares de todo o país. A idéia é ampliar o alcance do sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) a partir do plantio de espécies como o amendoim e o pinhão manso, que poderão ser convertidas em combustível para abastecer geradores e tratores. Com 2.774 unidades instaladas em todo o país, o Pais tem como pilares uma horta em formato circular, a irrigação por gotejamento e um galinheiro para fornecimento de adubo orgânico.

“A Mussambê faz a prensa, nós sabemos fazer o combustível e a RTS já reaplica o Pais. O universo de relações que faz parte da Rede é muito grande e ajuda a gente a se encontrar”, afirma Paulo Lenhardt, do IMCA. Atualmente, a organização, sediada em Montenegro (RS), também trabalha para garantir a conversão do óleo de cozinha utilizado em restaurantes, lares e escolas em biocombustível, preservando os recursos hídricos e disseminando alternativas de geração de energia apropriáveis e reaplicáveis pelas comunidades rurais.

O grupo coleta cerca de três toneladas de óleo por mês, oferecendo à população uma estrutura que garante o acondicionamento adequado do resíduo recolhido até que possa ser limpo. Uma vez na estação de tratamento, o óleo é filtrado e decantado, tornando-se apropriado para a utilização como biocombustível. Para cada 10 litros de óleo recolhido, é possível produzir cerca de seis litros de combustível. “A Rede ajudou a dar visibilidade à tecnologia. Vários municípios já estão chamando a gente para fazer a coleta do óleo”, completa.

Para a diretora da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), Aldalice Otterloo, esse tipo de parceira evidencia que as instituições associadas à RTS, mesmo tão diferentes, já começam a notar que a integração de esforços pode auxiliar na reaplicação e no desenvolvimento de novas Tecnologias Sociais. “A Rede conseguiu mostrar que é possível reunir diferentes atores que historicamente não dialogavam entre si. Assim podemos potencializar as ações de enfrentamento das desigualdades sociais”, defende.


Instituições que fazem parte da RTS


Classificação Quantidade
Associações, ONGs ou Oscips  391
Centros de pesquisas 10
Consulado 1
Cooperativas 25
Empresas 47
Escolas de Ensino Médio 2
Fundações ou Institutos 72
Órgãos de Governo Estadual 13
Órgãos de Governo Federal 17
Prefeituras e órgãos de Governo Municipal 36
Sindicatos 5
Universidades e faculdades 42

Do sertão para o mundo

Em parceria com instituições nacionais e internacionais, o Instituto Eco-Engenho concebeu e vem implementando o Programa H2SOL - Água Solar, que trabalha na instalação de microssistemas produtivos de irrigação para produtos de alto valor agregado, com uso de energia renovável e

Foto: Fundação Mussambê
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Aproveitamento Total do Coco Babaçu: com o apoio da Rede, TS está a um passo de virar política pública.
a

tecnologias adequadas em comunidades remotas do Semi-árido do Nordeste do Brasil. O local escolhido para inaugurr o programa não podia ser mais emblemático: a comunidade de Baixas, uma das mais pobres do município de São José da Tapera, a 210 quilômetros de Maceió, que se notabilizou, na última década, por apresentar o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

“A RTS contribuiu muito para dar visibilidade ao nosso trabalho. Foi por isso que chegamos à Rede Ashoka e conseguimos publicar nossa experiência na revista Newsweek e na revista de bordo da Air France”, comemora o presidente do Instituto Eco-Engenho, José Roberto Fonseca, em alusão às reuniões promovidas pela RTS de que participou e à exibição da tecnologia em mostras e feiras. Uma delas foi a Expo Brasil Desenvolvimento local, maior encontro internacional sobre o tema e que reuniu representantes de 12 países no último mês de novembro, em Cuiabá (MT).

Baseada na hidroponia, sistema de cultivo sem contato com o solo, que usa canaletas por onde a água circula continuamente com pequena perda pela evaporação, a produção de pimentas, avisa Fonseca, já beneficia diretamente 11 das cerca de 40 famílias de Baixas. As demais ganham dinheiro ajudando na colheita e no beneficiamento do produto. A renda familiar, baseada exclusivamente na venda de vassouras a R$ 0,25 a unidade, beirava os R$ 90 mensais antes da implantação do sistema. Hoje, cada família não ganha menos do que R$ 600 por mês. “Trabalhar em rede sempre é importante, até porque passamos a conhecer tecnologias que podem ser complementares ao nosso modelo”, completa Fonseca.

Camarão de água doce

Quem também celebra a participação na Rede é a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), sediada em Gurupá (PA). Iniciado em 1997 com 30 famílias da Ilha das Cinzas, o manejo comunitário do camarão de água doce, vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, se baseia em um procedimento desenvolvido pelos comunitários: os camarões são pescados por meio de armadilhas conhecidas como matapis. Trata-se de uma gaiola cilíndrica feitas de talas de juruti (palmeira local), que tem entre 40 centímetros e 2 metros de comprimento. Em suas extremidades há uma espécie de funil, que permite que o crustáceo entre, mas não saia.

Tradicionalmente, os pescadores da região usavam o matapi para pegar tantos camarões quanto fosse possível. A partir de 1997, no entanto, a experiência incorporou um espaço de um centímetro entre as talas que formam a parede do matapi — assim, os camarões grandes continuam sendo capturados, mas os pequenos ficam livres para se desenvolver. A criação de viveiros flutuantes para estocagem in natura possibilitou ainda beneficiar e comercializar o camarão em grandes quantidades e de forma cooperada, por meio da capacitação das famílias sobre o novo sistema do manejo. 

Depois das mudanças, não faltou mais camarão e os exemplares capturados passaram a ser maiores e mais pesados. Isso permitiu que a quantidade de camarão capturado diminuísse, mas sem perda de rentabilidade — em 1997, cada quilo de camarão capturado era composto por cerca de 400 animais; em 2008, de 250. Em 1997, o camarão capturado tinha em média 4,5 centímetros e em 2008 esse tamanho passou de 9 centímetros. Com este crescimento, o preço obtido pelo quilo do camarão passou de R$ 0,80 para até R$ 5.

Com o objetivo de ampliar o debate sobre a pesca de camarão na região do estuário amazônico e elaborar propostas de políticas públicas para a atividade, a Ataic  promoveu, com o apoio da RTS, uma série de encontros regionais com vistas a levar a tecnologia a outras comunidades de pescadores do Rio Amazonas. “Reunimos pescadores de 20 municípios com a idéia de debater como agregar valor à atividade cuidando da sustentabilidade”, diz o presidente da Ataic, Walmir Malheiros. Os eventos foram promovidos com o patrocínio da Petrobras e da Fundação Banco do Brasil, instituições mantenedoras da RTS.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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Enviado por Usuário Anônimo em 20/02/2009 14:17
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