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Revolução social na reciclagem


Grande Rio será base, a partir de 2009, de uma ampla rede de cooperativas de catadores de material reciclável. Objetivo é unir catadores para vencer os atravessadores, diminuir os custos operacionais e multiplicar o preço de venda dos resíduos. Projeto segue modelo de metodologia de incubação de redes de cooperativas de catadores de materiais recicláveis, construída no âmbito da RTS com vistas à reaplicação na periferia de grandes centros urbanos.

Foto: Blogduca
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Objetivo da rede é unir os catadores do Rio para vencer os atravessadores e aumentar o valor de venda dos resíduos

21/11/2008 -
O catador típico de material reciclável no Rio tem uma vida dura, segundo diagnóstico recém-elaborado sob encomenda da Fundação Banco do Brasil. Ele tem entre 22 e 41 anos, estudou até a quinta série do ensino fundamental e ganha cerca de R$ 400 por mês. É solteiro, tem dois filhos e gostaria de mudar de profissão. Não raro integra empreendimentos não legalizados e é refém da ação dos atravessadores, que chegam a alugar os carrinhos de coleta aos catadores ao mesmo tempo em que compram o material coletado a preços irrisórios, gerando ganhos de até 600%. E como as cooperativas de que participam não conseguem sozinhas atender diretamente a demanda da indústria recicladora, que precisa de grande escala e regularidade no fornecimento do material, a solução quase sempre é se resignar, já que não há outra opção de trabalho à vista que não a catação feita nas ruas e lixões.

De olho nesta perversidade, um grupo capitaneado pela Fundação Banco do Brasil e Petrobras finaliza um plano para tentar estabelecer no Rio, a partir de 2009, uma relação comercial direta das cooperativas de catadores com a indústria recicladora, eliminando a figura dos atravessadores a partir da estruturação de sistemas integrados de comercialização em rede. A fórmula será a aposta de pelo menos 33 das 70 cooperativas de catadores mapeadas no Rio de Janeiro, que trabalharão juntas após a construção de quatro grandes centrais de cooperativas erguidas com recursos da Petrobras, da Fundação Banco do Brasil e do próprio Banco do Brasil. As Centrais ficarão na Dutra, na região das Docas, na Ilha do Governador e na região que abrange Itaboraí, São Gonçalo e Niterói. A expectativa é que a operação possa elevar entre 60% e 200% a rentabilidade de cada catador.

“Não adianta fazer pequenos projetos para equipar cooperativas isoladamente. Assim a gente pulveriza os recursos e não gera a transformação que os catadores precisam”, explica o diretor-executivo da Fundação Banco do Brasil, Jorge Streit. Segundo ele, a implementação da rede servirá de laboratório para a metodologia de incubação de redes de cooperativas construída este ano, no âmbito da RTS, com a participação de cooperativas de catadores e organizações de apoio com reconhecida experiência no tema em todo o país. “Será uma boa prova”, avisa. 

No Rio, a idéia é que as Centrais sejam articuladas por um sistema de inteligência que garanta, em tempo real, informações sobre disponibilidade de material, com bolsa de preços e um observatório permanente de mercado a fim de reduzir a vulnerabilidade das cooperativas aos atravessadores. Para participar, as cooperativas terão que comprovar histórico de atuação coletiva e solidária. “As redes precisarão seguir um código de valores, até para eliminar o risco de que elas mesmas reproduzam o papel dos atravessadores”, completa o coordenador de Tecnologias Sociais da Petrobras, Lenart Nascimento.

A idéia é que as cooperativas possam se aproximar do exemplo da cooperativa Recooperar, sediada em São Gonçalo,  que além do trabalho em rede aposta em outra estratégia que será adotada pelas Centrais do Rio: os acordos com grandes geradores de lixo. A decisão de associar a coleta de porta em porta a acordos de doação com condomínios, grandes empresas, shoppings e entes de governo é simples, explicam os cooperados sediados em São Gonçalo. Com ela é possível ganhar escala, reduzir custos de logística e negociar diretamente com a indústria recicladora de São Paulo. “Cerca de 95% das 50 toneladas que a cooperativa coleta por mês já vem de grandes doadores”, diz o presidente da ONG Guardiões do Mar, Pedro Belga.  

Como conseguiram eliminar a dependência dos atravessadores com o ganho de escala, os 103 cooperados viram o preço dos resíduos disparar. O quilo do papelão, vendido por 18 centavos aos atravessadores, não é comercializado hoje por menos de 43 centavos. O papel branco também viu seu preço triplicar, saltando de 18 para 49 centavos. A renda média de cada catador não ficou atrás. Se antes cada um deles ganhava em média R$ 150, hoje eles mantêm os ganhos em torno de R$ 400, já descontado o INSS. “As empresas ganham duas vezes. Além de não terem mais custos com a destinação do lixo, que recolhemos gratuitamente, elas ainda podem se valer da doação em suas ações de responsabilidade social”, explica Belga.

Para isso, a decisão da ONG foi apostar na profissionalização. “As empresas que

Foto: Petrobras
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Catadores do Projeto Catabahia já se articulam em rede
doam material reciclável recebem um relatório semestral com nossa prestação de contas e todas as ações que fizemos no período”, diz Belga. A revolução foi tamanha que ele, Belga, já está sendo ameaçado de morte pela rede de pequenos atravessadores que viram seu mercado de exploração sobre os catadores desabar. “Como temos escala, a nossa idéia é trabalhar a sazonalidade. Se o papel está em baixa, por exemplo, vendemos o vidro. Se o contrário acontece, respeitamos o melhor momento de mercado para cada produto. Com isso, estes atravessadores viram seu mercado ameaçado”, diz.

Com a construção da Central de Itaboraí, a expectativa é de que pelo menos outras oito cooperativas passem a trabalhar juntas por lá, o que deve intensificar a mobilização de empresas para a doação de material.

Exemplo concreto

A experiência de articulação em rede não é novidade entre as cooperativas de catadores no país. Uma das mais bem sucedidas é a Rede CataBahia, que envolve cerca de mil catadores em 10 municípios do Estado. A fórmula, que sequer exigiu a criação de entrepostos únicos para estocar o material coletado, foi a aposta de oito cooperativas baianas para vencer os atravessadores.

“A Rede é, sobretudo, uma central de inteligência que analisa o setor reciclador e articula o total comercializado para garantir escala e regularidade na entrega do material”, explica Antônio Bunchaft, diretor do Centro de Estudos Socioambientais Pangea. Entre julho de 2003 e dezembro de 2007, o grupo coletou 15 mil toneladas de recicláveis, volume que já subiu para mil toneladas mensais. Um dos motivos para a escalada foi a adesão de novos catadores. “Começamos com cerca de 300 catadores e hoje são cerca de mil. Além disso, há outros dois mil catadores que já manifestaram interesse em aderir”, diz Bunchaft.

Catadora de materiais recicláveis desde os 10 anos de idade, Sonia dos Santos, 48, comemora os resultados do trabalho em rede. A Cooperativa dos Agentes Ecológicos de Canabrava (Caec), onde trabalha, fica em uma das regiões mais carentes de Salvador, área do antigo lixão de Canabrava. Hoje, além do trabalho cooperativado, os 178 associados contam com sede equipada e um salário mensal na faixa de R$ 480. A entidade ocupa 11 mil m², sendo 3 mil m² de área construída, e está em vias de instalar a nova esteira de seleção de material. Isso sem falar na Estação Digital da Caec, que já conta com 10 computadores, um servidor e acesso à Internet.

“Comecei no lixão com 10 anos, catando ferro às vezes de dia e de noite. Não posso nem dizer que tinha renda porque o que ganhava não dava nem para entrar no mercado”, lembra. O principal problema, segundo ela, eram os atravessadores. “A gente catava e vendia todo o material sem separar nada. Quem ganhava eram eles”, diz. Com o trabalho em rede, Sonia viu o preço do quilo de ferro saltar de R$ 0,07 para R$ 1, enquanto o quilo do plástico fino pulou de R$ 0,02 para R$ 0,27. O papelão também teve seu valor acrescido em cerca de 60%, ao passo que o preço pelo quilo de garrafas PET quadruplicou. “Hoje tenho data para receber e trabalho com profissionalismo”, diz.

Consolidação

A existência da articulação em rede, por si só, não resolve estruturalmente o problema dos catadores, avisam os representantes do Complexo de Reciclagem da Bahia, que reúne nove cooperativas do Estado – quatro já legalizadas e cinco em processo de legalização. “Estamos desnivelados ainda. Podíamos ter juntado só as cooperativas estruturadas, mas optamos pela linha mais fina que é a da participação de todos, inclusive de cooperativas que nem sede tem”, diz o presidente da Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), Joilson Silva.

Ao todo, são 179 famílias com renda que varia de R$ 50 a R$ 400 mensais. O desequilíbrio, avisa, é decorrência da desigualdade de estrutura entre as cooperativas da rede. Para resolvê-la, o grupo cobra políticas municipais dedicadas ao fortalecimento das cooperativas e pede visibilidade para as redes de reciclagem ainda em formação. “Precisamos descentralizar o processo para beneficiar outras redes.

Apesar das dificuldades em padronizar a produção, o grupo já realiza a comercialização conjunta de alguns materiais, como o papelão e o papel branco. A venda coletiva começou no Carnaval de Salvador, prática que existe desde 2004. “No Carnaval, cortamos cerca de 30% do mercado que ia parar na mão dos atravessadores”, diz Joilson.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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