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Permacultura amazônica


Veja como soluções práticas baseadas nas técnicas da permacultura podem ajudar a resolver alguns dos principais problemas enfrentados hoje na região amazônica. Reunidas na unidade demonstrativa do Instituto de Permacultura da Amazônia (IPA), Tecnologias Sociais despontam nas áreas de energia alternativa, meliponicultura, bioconstrucão, nutrição animal, agro-floresta e horticultura.

 Foto: flickr
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 Sede do IPA em Manaus (AM)

02/10/2008 - A unidade demonstrativa do Instituto de Permacultura da Amazônia (IPA), fundada em 1997, representa um berço de Tecnologias Sociais para a região amazônica. Localizado na Escola Agrotécnica Federal de Manaus (EAFM), numa área de nove hectares, o espaço serve como núcleo permanente de difusão de conhecimentos em áreas como energia alternativa, meliponicultura, bioconstrucão, nutrição animal, agrofloresta e horticultura. O objetivo é orientar e capacitar pequenos agricultores familiares a estabelecer sistemas produtivos integrados e permanentes que possam suprir as necessidades das populações locais sem degradar o meio ambiente, levando em conta as características e peculiaridades próprias da região amazônica.

“A permacultura aproveita todos os recursos disponíveis e faz uso da maior quantidade de funções possíveis de se aproveitar de cada elemento presente na composição natural do espaço sem desperdiçar energia. Mesmo os excedentes e dejetos são utilizados para beneficiar outras partes do sistema”, explica o técnico agrícola e diretor adjunto do IPA, João Soares de Araújo. Segundo ele, tudo caminha para uma única finalidade: criar sistemas produtivos permanentes que sejam ambientalmente saudáveis, economicamente viáveis e ecologicamente corretos.

Para chegar lá, todo o planejamento das atividades produtivas do IPA é baseado no princípio de separação por zonas, que coloca os elementos que necessitam de maior atenção humana mais próximos da casa. A Zona 0 é a casa, o centro do sistema. A Zona 1 compreende a área mais próxima, onde estão colocados os elementos que necessitam de cuidado diário: a horta, as ervas culinárias, alguns animais de pequeno porte e árvores frutíferas de uso freqüente. A Zona 2, um pouco mais distante da casa, envolve elementos que também necessitam de manejo freqüente, como frutíferas de médio porte e tanques pequenos de aqüicultura, por exemplo.

A Zona 3, já mais distante, inclui culturas que ocupam mais espaço e não necessitam de manejo diário. A Zona 4 já é visitada raramente, e inclui a produção de madeiras e a produção de espécies silvestres comerciais. A Zona 5 é a última, mas vital para o sistema. É onde não há interferência, permitindo que exista o desenvolvimento natural da floresta. Sem ela, explicam os permacultores, não há a referência para a compreensão dos processos de equilíbrio natural que a permacultura busca aplicar nas outras zonas.

A prática, dizem os permacultores, é especialmente relevante diante da lógica produtiva que tem alimentado a devastação na Amazônia. É que lá ainda predomina o processo de produção de “corte e queima”, onde o colono geralmente queima a floresta para a produção de pequenas monoculturas, que se tornam improdutivas em pouco mais de dois anos. Uma vez esgotada a produção, o pequeno produtor acaba por abandonar a terra em busca de uma nova área para o corte e queima, tornando-se nômade e destruindo o ambiente por onde passa sem que isso signifique, sequer, a geração de uma renda mínima satisfatória para ele e a família.

“O imediatismo da prática agrícola não tem servido para desenvolver a capacidade de suporte necessária para promover o desenvolvimento, sobretudo numa área em que os solos são úmidos, jovens e com pouca espessura para a agricultura convencional”, explica o diretor geral da EAFM, José Maurício Feitosa. 

Para provar que outro modelo é possível, a Unidade Demonstrativa do IPA já tem à disposição plantações organizadas de modo a aproveitar, da melhor maneira possível, toda a água e luz disponíveis. Os cultivos são arranjados num padrão circular em forma de mandala, com acesso facilitado por todos os lados. Os pomares são cobertos de leguminosas, imitando o ambiente das florestas, e os galinheiros são rotativos para que as galinhas sejam deslocadas para outro ponto após terem estercado a terra, que será usada para outro fim enquanto as galinhas preparam e adubam uma nova área.

Os integrantes do IPA aproveitam ainda toda a flora local, associando árvores, ervas, arbustos e plantas rasteiras que se alimentam e se protegem mutuamente, gerando sombra numa região em que o sol costuma ser implacável para os cultivos agrícolas. A água da chuva também é aproveitada pela instalação de captadores, que é armazenada e utilizada para diversos fins, desde a descarga do vaso sanitário até a água para beber e tomar banho. “Um ou dois hectares manejados desta maneira já são suficientes para assegurar a subsistência da família. É mais do que consegue um modelo tradicional de 50 hectares, onde muitas vezes os agricultores passam até fome”, diz o diretor administrativo da EAFM, Jorge Nunes Pereira.

Aposta

Entras as apostas do IPA estão sistemas de produção típicos aos desafios impostos pela região amazônica. Um deles é o sistema Voisin, que procura manter um equilíbrio do tripé solo-capim-animais, sem beneficiar um em detrimento de outro. É um sistema de produção, explicam os permacultores, que pode, a um só tempo, aumentar a produção, diminuir custos, proteger o ambiente natural e compensar economicamente o produtor.

Foto: Ipa
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Sistema agroflorestal situado no IPA permite a diversificação da produção

O sistema se caracteriza por uma intensa rotação dos piquetes, obedecendo às exigências do animal e da planta. O número de piquetes é variável e os animais – vacas, porcos ou ovelhas - devem estar separados por categorias, que ocupam sucessivamente cada piquete, por tempo limitado, até que toda a forragem seja consumida sem prejuízo da rebrota. Com o sistema, os animais engordam mais sem que as pastagens sejam degradadas. Como se não bastasse, o método chega a ser de cinco a dez vezes mais barato que o sistema convencional de manejo das pastagens.

Outra aposta está na produção local de ração e na compostagem de todo o material orgânico. Para suprir as necessidades nutricionais das aves, por exemplo, a avicultura convencional utiliza basicamente rações balanceadas à base de milho e soja, o que torna a atividade quase inviável se levados em conta os custos agregados pelas distâncias amazônicas, já que esses ingredientes são produzidos, em sua grande maioria, nas regiões sudeste e centro-este do país. “Podemos oferecer outras alternativas com material do próprio lugar e que muitas vezes são vistos como lixo e não recurso”, explica João.

Na alimentação das aves, por exemplo, a farinha de mandioca pode ser utilizada como fonte de energia e as folhas e caule como fonte de minerais e vitaminas. Já a farinha do resíduo da castanha-do-Brasil pode substituir integralmente o farelo de soja. Isso sem falar nas farinhas de pupunha e peixe, além do Quicuio da Amazônia e a puerária, que podem alimentar as aves se corretamente manejadas.

Outra oportunidade gira em torno da produção de leguminosas que melhoram o solo e de hortaliças melhor adaptadas às condições climáticas locais. É que as temperaturas elevadas, explicam os permacultores, encurtam o ciclo da planta e aceleram a maturação. Deste modo, as hortaliças mais adaptadas à região acabam sendo alface, chicória, cebolinha, coentro, salsa, rúcula, couve, repolho, maxixe, pepino, pimentão, quiabo, tomate, berinjela, melancia, abóbora e chuchu, enquanto as menos adaptadas são beterraba, cenoura, acelga, rabanete, nabo, melão, alho, alho-poró, almeirão, aspargo, espinafre, brócolis e couve flor.

Saneamento

Para enfrentar o problema do saneamento, o IPA se dedica também à multiplicação do banheiro seco e dos tanques de ferrocimento. A técnica do ferrocimento, explica Feitosa, permite a construção rápida de reservatórios de pequeno porte a um custo final 80% menor do que reservatórios de ferro, sendo que estes, se não galvanizados, oxidam em menos de cinco anos. Para o armazenamento de água potável, a cisterna deve ser vedada à luz solar e protegida com tela para insetos.

Já o banheiro seco consiste em um sanitário no qual o vaso não possui descarga de água. As fezes são cobertas com serragem, formando um material que pode ser compostado e utilizado na forma de adubo. O banheiro tem dois níveis. No andar superior do banheiro seco ficam dois vasos sanitários, que terminam em câmaras de biodigestão. Cada uma é utilizada por um ano e meio, quando é fechada para se utilizar a outra. As fezes são então transformadas em adubo, utilizado na horta.

O banheiro é aparentemente igual ao de qualquer sanitário convencional, com uma diferença: a parte oca do interior do vaso é construída de maneira que não se tenha contato visual com o dejeto. As câmaras de compostagem ficam abaixo do vaso sanitário. A ventilação, garantida por uma chaminé, faz com que não haja mal cheiro. O sanitário seco, explica João, é uma tecnologia já utilizada em diversos países, que transforma o que é visto como problema - os dejetos humanos - em adubo orgânico, recurso valioso para agricultura. É "seco" porque não utiliza água. E é "ecológico" por gerar adubo e não produzir esgoto, evitando a contaminação, no final do processo, da própria água.

Metodologia de trabalho

O IPA dispõe de alojamentos com capacidade para até 40 estudantes, restaurante interno, sala de aula, sala para técnicos e instrutores. A capacitação consiste em cursos (full design courses) feitos durante todo o ano, principalmente para o homem e a mulher do campo. Os cursos cobrem os aspectos teóricos e práticos de permacultura, sendo que as atividades de campo são exercidas diretamente na unidade demonstrativa ou nas comunidades.

Os primeiros dias são de adaptação e introdução à permacultura. Durante as atividades, os participantes também são levados a conhecer outros sistemas fora da unidade para observar o trabalho realizado por quem já aderiu ao sistema e pode mostrar resultados. Em cada dia são abordados no máximo três temas, sendo estes discutidos e aplicados. Antes do término das atividades, os alunos são convidados a montar um design (desenho) de um sítio de permacultura, em pequena escala, para avaliar o quanto cada um absorveu sobre a reorganização dos sistemas produtivos.

 

O que é Permacultura?

Criada na Austrália no final da década de 70, a permacultura foi elaborada pelo cientista Bill Mollison em parceria com David Holgren como resultado da criação e desenvolvimento de pequenos sistemas produtivos organicamente integrados. A permacultura associa práticas ancestrais às descobertas da ciência moderna a partir da elaboração, implantação e manutenção de ecossistemas produtivos que mantenham a diversidade e a estabilidade dos ecossistemas naturais. O projeto permacultural resulta na integração harmoniosa entre as pessoas e a paisagem, provendo alimentação, energia e habitação, entre outras necessidades, de forma sustentável.


Outras Informações

Sítio: www.ipapermacultura.org

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS.

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