Portal RTS - Rede de Tecnologia Social



Informativo Eletrônico

E-mail*
Nome

                                             Twitter    YouTube    Aumentar o tamanho da fonte Voltar ao tamanho padrão de fonte Diminuir o tamanho da fonte
Ações do documento

O novo 'ouro branco' do sertão


A aposta de 320 famílias cearenses é o cultivo de algodão orgânico em sistemas consorciados com culturas alimentares como milho, feijão, gergelim e guandu. Além de garantir diversidade alimentar e reduzir os riscos de perdas totais em casos de seca ou surtos de pragas, o algodão é vendido pelo dobro do preço do produto convencional por meio do comércio justo.

Foto: Esplar
O-novo-ouro-branco-do-sertao-1.jpg
Produção socialmente justa, ambientalmente correta e economicamente viável

19/12/2008
- Segundo a Organic Trade Association (OTA) , o algodão ocupa pouco mais de 2,4% de toda a área agriculturável do planeta, mas é responsável por cerca de 24% de vendas do mercado global de inseticidas e 11% das vendas globais de pesticidas. Uma alternativa para esse cenário é o algodão orgânico - já cultivado em mais de 18 países. No Brasil, o protagonismo no setor não vem de grandes produtores do eixo Rio-São Paulo, mas de agricultores familiares do Semi-Árido cearense. Lá também não tem monocultura, marca da cotonicultura brasileira. O algodão é cultivado em sistemas consorciados com culturas alimentares como milho, feijão, gergelim e guandu, além de espécies arbóreas como nim e leucena. 

A prática, que se alastrou do município de Tauá para o Sertão Central e o Norte do Ceará pelas mãos do Centro de Pesquisa Esplar, reúne hoje 320 agricultores e agricultoras. Toda a produção é beneficiada pela Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural de Tauá (Adec), que comercializa a fibra ecológica, desde 2004, pelo sistema de comércio justo para a empresa Veja Fair Trade, da França, e para a Justa Trama, no Rio Grande do Sul. Resultado? No Ceará, uma usina  compra a arroba (15kg) do algodão tradicional por cerca de R$ 12. Com o comércio justo, os produtores orgânicos têm a venda garantida e recebem R$ 24,90 pela mesma quantidade de algodão agroecológico. “Se tivesse outra empresa agora querendo comprar nosso algodão, a gente nem teria como vender”, comemora o técnico da Adec, Rogaciano Oliveira.

A recomendação do plantio consorciado, avisam os técnicos do Esplar, resultou da constatação de que a diversidade de plantas proporciona melhor aproveitamento do potencial de cada área, em função de exigências diferenciadas de luz, umidade e nutrientes por parte de cada planta, além de reduzir os riscos de perdas totais em casos de seca ou surtos de pragas.

Por isso, o sistema sempre compreende o plantio do algodão com culturas como milho, feijão de corda e gergelim, além de leguminosas como a leucena e o guandu. Recomenda-se também o plantio em nível, entre outras práticas de conservação do solo, como enleiramento dos restos vegetais em nível, valetas de retenção e muretas de pedra. Isso sem falar na adubação com esterco de gado, conforme a disponibilidade de cada agricultor. O algodoeiro então é plantado em faixas de 5 ou 6 linhas, alternadas com as fileiras das demais culturas. “O algodão nunca ocupa mais do que metade da área plantada. A média nossa é de 200 kg a 220 kg de algodão por hectare”, diz Rogaciano.

Já o manejo de pragas tem por base a catação dos botões florais afetados pelo temido bicudo, praga que dizimou as vastas plantações de algodão cearense ao longo da década de 80 e que ainda hoje assusta os cotonicultores do Estado. Para enfrentá-lo sem a necessidade de agrotóxicos, também são feitas pulverizações

Foto: Deser
O-novo-ouro-branco-do-sertao-2.jpg
Monocultura do algodão, hegemônica na região até a década de 80, não existe mais.
com extrato de folhas de nim. Após a colheita, o gado é colocado para pastar nas lavouras e se faz a poda das plantas de leucena, para uso como cobertura morta na época das chuvas.

O agricultor João Felix, de 43 anos, desenvolve o sistema, desde 2004, em sua propriedade de dois hectares. Para ele a produção de algodão nem é o mais importante. “Gostamos do tratamento da terra como um todo. Alimentamos a família da gente sem medo”, diz o agricultor, que vive com a esposa e os quatro filhos. Na última safra, Felix cultivou o algodão em 40% da sua propriedade e colheu 115 kg de algodão orgânico. Uma das maiores felicidades, diz, é não ter mais de vender quase todo o milho que plantava, o que dá mais segurança para a alimentação da família. Isso sem falar nas novidades que aprendeu. “São essas coisinhas que a gente aprende por aqui, como usar urina de vaca, alho e cinzas para melhorar a produção. Na agroecologia a gente tem que inventar tudo. Virou a minha vida”, diz.

O plantio do algodão, assim que caem as primeiras chuvas, também é fundamental para o sucesso em áreas infestadas pelo bicudo, lembra Felix. Daí a necessidade dos agricultores disporem de sementes antes do início da estação chuvosa. “O bicudo chega quando esfria, entre maio e junho. Quem planta em janeiro (época de primeira chuva) sempre produz melhor que quem planta depois” complementa Rogaciano.

Crise e oportunidade

A produção hoje, diz Felix, em nada lembra o tempo em que trabalhava nas monoculturas de algodão que se alastravam por todo o Ceará, antes da crise do bicudo devastar o império do chamado “ouro branco do sertão”, como era apelidado o algodão cearense na década de 70.

Na virada para a década de 80, a produção ocupava entre 1,36 milhão e 1,43 milhão de hectares no Estado, segundo série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O segundo lugar era da Paraíba, com 700 mil hectares de cultivo do algodão, sendo que o Ceará só perdia para São Paulo e Paraná.

Das 45 usinas de benefíiciamento de algodão que atuavam no Ceará em 1983, restaram apenas duas, sendo a maior em Jaguaruana. Como eram acopladas com fábricas de óleo, geravam 300 mil empregos. Hoje, se houver 10 mil empregados na atividade é muito, dizem especialistas. A demanda era de cerca de 180 mil toneladas de pluma. O Estado, segundo a Conab, produziu apenas 2,1 mil toneladas na safra 2004/2005. “Trabalhava em fazenda. Eram três meses só colhendo algodão com outras 90 pessoas. Eram rios de branco”, lembra Felix.

A presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Choró (STTRC), Eliane Ramos, prefere acreditar na crise como uma oportunidade. “Não sei se foi tão ruim assim. Naquela época conquistar uma terra era muito difícil e o trabalhador ficava na mão dos latifundiários”, lembra. Tanto é, argumenta, que a fazenda “Ouro Branco” foi convertida em assentamento logo após a crise. “O importante é que estamos cultivando um produto sadio com justiça social”, diz.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

Legal

Enviado por Usuário Anônimo em 09/01/2009 16:47
É muito bom saber que nossa cultura do algodão, apesar da nova roupagem, está voltando a render frutos no nosso Ce...
É por isso que vejo que o ce é tão especial... É um pouco de cada cearense...
Que venha o ouro branco orgânico... Isso se for para o bem do povo cearense... ORGANICOOOOOOO

Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática