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Mini-oásis para o Semi-ÁridoDesenvolvidas pela Embrapa Milho e Sorgo, as chamadas barraginhas têm auxiliado milhares de famílias do Semi-Árido a salvar a água que vem das chuvas. Sistema barato e de fácil aplicação força a recarga das reservas subterrâneas, armazena água de boa qualidade no solo e ameniza os efeitos das secas e veranicos.
"Não se trata apenas de 'cavar buracos'. Nós levamos o conhecimento, treinamos técnicos, unificamos procedimentos, mas cada região tem seus barrageiros”, explica o idealizador da TS, o agrônomo Luciano Cordoval. O sistema, na prática, força a recarga das reservas subterrâneas e armazena água de boa qualidade no solo, por meio da infiltração ocorrida durante o ciclo chuvoso. O processo também ameniza os efeitos das secas e veranicos, em lavouras localizadas em partes úmidas de baixadas, e permite o plantio de pomares e hortas nas partes baixas das barraginhas, bem como a construção de cacimbas e cisternas para o fornecimento de água para consumo humano e animal. A técnica consiste na construção de mini-barramentos na frente de cada enxurrada, em forma de meia-lua. Para cavar um poço que varia de 16 a 20 metros de diâmetro por 1,5 a 2 metros de profundidade, são necessárias de uma a duas horas de uso de máquina escavadeira, a um custo médio de R$ 80 a R$ 100 a hora/ máquina. Segundo Cordoval, cada barraginha pode transferir para o solo, em um ano, o equivalente a 150 caminhões-pipas. Quando os poços enchem, a água infiltra no lençol freático e acaba por aflorar nas baixadas dos terrenos, que ficam propícios para o plantio de hortas e culturas de subsistência como feijão, arroz, milho, soja e sorgo. Já para a parte média dos terrenos, é possível cultivar árvores frutíferas como goiabeiras, cítricos e uva. Em locais mais altos, é possível plantar ainda espécies que têm raízes mais profundas, como abacateiros e mangueiras. Impacto Social Para Cordoval, um dos resultados sociais mais visíveis da TS está na criação de mini-oásis em regiões como o Vale do Jequitinhonha, a área mais crítica do Semi-Árido mineiro. "Quando se faz de três a cinco barraginhas no mesmo eixo da enxurrada, brota um 'mini-oásis' com olhos d'água. Dá para plantar hortas e até criar peixe. Ao escavar entre cinco e oito, então, cria-se um mini-pântano, e uma seqüência deles revitaliza o córrego mais próximo", afirma. Este sequenciamento, explica, é que permitirá a criação dos mini-oásis. O fenômeno pode ser observado no município de Minas Novas, onde cerca de 3 mil barraginhas já foram escavadas. O município, que passou a implementar os mini-barramentos em 2001, tornou-se um dos primeiros do Semi-Árido a receber a TS em escala. Na ocasião, lembra Cordoval, a prefeitura de Minas Novas chegou a realizar uma pesquisa com seus habitantes. Apesar de 50% deles não disporem e energia elétrica em casa à época, a principal demanda comunitária apontada pelo estudo foi o acesso à água. “Foi a primeira grande virada de página do projeto Barraginhas”, lembra. Um dos primeiros agricultores a implementar a tecnologia no município foi o atual presidente do Sinidicato dos Trabalhadores Rurais de Minas Novas, José Valter, que implantou sua primeira barrraginha ainda em 1996, após uma visita de campo. As barraginhas, diz, chegaram na hora exata. Pai de oito filhos, Valter, de
Em Minas Novas, as barraginhas começaram a ser erguidas pela prefeitura, em escala, a partir de 2001. A máquina, emprestada, fez 150 unidades em três meses. Quando o município teve de devolvê-la, passou a economizar para comprar sua própria escavadeira. Resultado? Ao fim de quatro anos, mais de 2.200 barraginhas haviam sido erguidas, em 37 comunidades, por cinco máquinas incorporadas ao mutirão. “Ali eliminamos a necessidade do caminhão-pipa, que percorria a região pelo menos seis meses por ano”, diz Cordoval. Em 2008, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Minas Novas garantiu a construção de outras 274 barraginhas graças a recursos da Petrobrás. Fases Para a multiplicação das barraginhas, a Embrapa percorre um ciclo amarrado em quatro fases fundamentais. Na primeira delas, os multiplicadores percorrem áreas de reaplicação potencial da tecnologia para mobilizar agricultores a visitar a sede do projeto, em Sete Lagoas (MG). Lá, o interessado conhece a vitrine demonstrativa da Embrapa e as informações básicas sobre o projeto, encerrando a segunda fase. Na terceira etapa, técnicos da Embrapa vão diretamente até as comunidades que reafirmam o interesse em aplicar a tecnologia. Além de ensinar a diagnosticar o melhor local para implantar a barraginha, são construídas duas unidades em conjunto com os agricultores. Só depois tem início a fase 4, a partir da qual os agricultores passam a levantar sozinhos suas próprias barraginhas. “Cortamos o cordão umbilical logo após o treinamento. Aí eles vão aprender fazendo, o que é o mais importante porque o projeto sai com a cara deles”, explica Cordoval. Se houver necessidade, acrescenta, os técnicos da Embrapa retornam à comunidade para realizar os ajustes necessários. Integração de Tecnologias Sociais Realizado com base em convênio entre Sebrae, Fundação Banco do Brasil e Ministério da Integração Nacional, o sistema Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) conta atualmente com mais de mil unidades instaladas em centenas de comunidades, assentamentos e povoados em 12 estados brasileiros. Entre elas estão os municípios de Porteirinhas, Pai Pedro e Gameleira, no Semi-Árido mineiro, que receberam 90 unidades da Tecnologia Social após terem implantado as barraginhas. O Pais promove um sistema de produção orgânica de hortaliças, frutas e pequenos animais, tendo como pressupostos a racionalização de recursos e o manejo ecológico da terra. Toda a produção acontece sem o uso de agrotóxicos. A instalação de uma unidade do Pais, contudo, envolve algumas especificidades. É preciso, primeiro, que o terreno tenha extensão mínima de cinco mil metros quadrados e que a área seja o mais plana possível, para possibilitar a montagem da horta circular. Também é necessário que haja uma fonte de água próxima. Para isso, o kit do projeto conta com uma caixa de cinco mil litros e uma mangueira que faz a irrigação por gotejamento. Para resolver o problema da água, a solução por lá foi associar as unidades do Pais às barraginhas. A união permitiu aos agricultores dispensar o uso da mangueira e da caixa d'água, reduzindo os custos de implementação do Pais, ao mesmo tempo em que ajudou a garantir água para a irrigação de outras culturas agŕicolas e para a dessedentação animal. “É um casamento com comunhão de bens”, diz a Irmã Porcina Amonica de Barros, membro da Cáritas e da Associação Casa de Ervas Barranco da Esperança e Vida (ACBEV), responsável pela implementação das unidades do Pais na região em parceria com a Fundação Banco do Brasil.“Cientista não fica só no laboratório não. A gente também sabe inventar”, brinca. Segundo ela, a ACBEV trabalhou para a construção de 150 barraginhas na região em parceria com a Petrobras, embora a demanda chegue hoje a 1.200 unidades. Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS |
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