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Manejo de Açaizais NativosTecnologia Social de Manejo de Açaizais Nativos para Produção de Frutos, desenvolvida pela Embrapa Amazônia Oriental, já beneficia cerca de 10 mil famílias extrativistas em 50 mil hectares de florestas de várzea na Amazônia. Com a técnica, a produtividade do açaizeiro dobra de 4,2 toneladas por hectare para até 10 t/ha de frutos, assegurando o aumento da renda com a preservação dos remanescentes da palmeira.
02/10/2008 - No final da década de 60, a exploração extrativista quase levou a indústria do palmito ao colapso; principalmente pela redução da juçara, palmeira natural das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Foi nesta época que o açaizeiro passou a ter maior importância econômica em função da produção de seu palmito, transferindo a ameaça da degradação para a extração desordenada das palmeiras típicas das várzeas e margens dos rios amazônicos. De olho na valorização do açaí nos mercados brasileiro e internacional, a Embrapa Amazônia Oriental fez uma aposta: desenvolver sistemas de manejo e exploração sustentável de populações naturais de açaizeiros de modo a garantir a salvaguarda da floresta e a melhoria na renda das comunidades extrativistas ribeirinhas. “O cultivo de açaizeiros em áreas de várzea, em associação com outras espécies frutíferas e florestais adaptadas a essas condições, deve ser incentivado e visto como uma das opções para tornar as áreas ribeirinhas mais produtivas e mais protegidas ecologicamente”, diz o pesquisador da Embrapa Oscar Nogueira. A oportunidade, explica, está na valorização internacional do fruto, cujo preço, nos últimos dez anos, saltou de 50 centavos para R$ 12 a lata de 14 quilos. Para isso, a tecnologia de Manejo de Açaizais Nativos para Produção de Frutos, desenvolvida pela Embrapa, consiste em aumentar a população de açaizeiros que ocorrem naturalmente na floresta de várzea. Com a técnica, a produtividade do açaizeiro dobra de 4,2 toneladas/ha para até 10 t/ha de frutos. Enquanto os sistemas não-manejados propiciam renda líquida de R$ 400/hectare, é possível, a partir do 4º ano, obter até R$ 1.000/hectare nas áreas onde é desenvolvido manejo. Segundo Oscar, a técnica ajuda na proteção dos remanescentes florestais da região. Isso porque a concentração de açaizeiros no estuário amazônico, com a área estimada em um milhão de hectares, torna a espécie um componente da floresta nativa, formando maciços de açaizais naturais. Em decorrência da facilidade de extração de seus frutos, a espécie permite à indústria instalada na região o abastecimento seguro, com custo baixo da matéria-prima e do transporte. Ao mesmo tempo, possibilita o aproveitamento permanente das áreas de várzea e igapó, evitando o abandono dessas áreas e a sua transformação em capoeira para cultivos tradicionais, prática bastante comum na agricultura itinerante regional. “O açaí já é hoje uma das principais atividades econômicas do Pará e o componente principal da renda das famílias extrativistas. É certamente a resposta mais rápida de inclusão social na região”, defende Oscar. Segundo estimativas da Embrapa, 10 mil famílias já foram beneficiadas com o novo sistema de manejo, presente em cerca de 50 mil hectares nos estados do Pará, Amazonas e Amapá. Do total de um milhão de hectares de açaizais nativos na região, a Embrapa calcula que metade tem potencial para a exploração comercial sustentável. A técnica, explica, baseia-se na eliminação das plantas de espécies arbustivas e arbóreas de baixo valor comercial, cujos espaços livres são ocupados por plantas de açaizeiros oriundas de sementes que germinam espontaneamente, de mudas preparadas ou transplantadas das proximidades. O emprego da prática não requer o uso de insumos, como corretivos e fertilizantes, nem a utilização de maquinário. “Se a comunidade acompanhar a implantação do sistema, em dois anos ela já assimila todas as atividades do processo”, diz Oscar. Quem garante é o extrativista Manoel Trindade, que trocou a extração do palmito pela exploração manejada do fruto da palmeira no lote em que trabalha na zona rural de Igarapé-Miri, município localizado a cerca de 150 quilômetros de Belém. Igarapé-Miri e o município vizinho de Abaetetuba, lembra Trindade, chegaram a abrigar 70 engenhos de açúcar, dos quais apenas um conseguiu se manter. “Muita gente que trabalhava nos engenhos hoje está no açaí”, diz. Com 58 anos, Manoel ainda escala as palmeiras, arranca o cacho e debulha o fruto dentro das rasas, cestas feitas com fibra de jacitara ou jupati com capacidade para 14 quilos de frutinhas. O açaí é então levado para pontos próximos aos rios e igarapés, onde são recolhidos no porto para serem vendidos para a indústria ou em feiras nas cidades da região. “Antes ninguém preparava os açaizais. Quando chegava o inverno não tinha açaí de jeito nenhum. Depois do manejo, não falhou mais”, conta. A extração, explica Manoel, se dá sempre pela manhã, de modo a reservar a tarde para a pesca e o cultivo de cupuaçu, banana, cacau e outras espécies para a alimentação da família. “Hoje dá pra viver só do açaí. Hoje tenho até um motorzinho no porto por causa dele”, explica. Passo a Passo Limpeza da área A roçagem é o primeiro trabalho feito na área e consiste da eliminação das plantas de menor porte e de cipós, bem como da retirada de galhos, e visa facilitar o deslocamento de pessoas que implementarão as demais práticas. Raleamento da vegetação Nessa etapa são identificadas e eliminadas as árvores sem valor de mercado, mantendo aquelas produtoras de madeira, frutos, sementes, fibras, látex, óleos e fitoterápicos.
As árvores mais finas e as palmeiras podem ser eliminadas por meio de corte e as mais grossas por anelamento. As árvores preservadas devem estar bem distribuídas, permitindo a penetração da luz do sol na área, facilitando o crescimento e o aumento da produção de frutos do açaizeiro e das outras espécies. Desbaste das touceiras Nos açaizais não-manejados, as touceiras geralmente apresentam número excessivo de estipes. A prática de desbaste visa eliminar o excesso de estipes, deixando de três a quatro em cada touceira, sendo eliminados aqueles muito altos, finos, defeituosos ou que apresentem pouca produção de frutos. Essa prática é realizada na entressafra, com aproveitamento dos palmitos. Após o desbaste, são plantadas as mudas de açaizeiro nas áreas mais espaçadas, para que seja constituída a população aproximada de 400 touceiras por hectare. Obtenção de mudas As mudas de açaizeiro, para plantios nas áreas com baixa concentração dessa espécie, podem ser obtidas a partir de plantas jovens oriundas da germinação natural de sementes ou produzidas especificamente para esse fim. As mudas das outras espécies, que serão cultivadas em associação com o açaizeiro, também podem ser produzidas nas proximidades da área em manejo ou adquiridas junto a produtores credenciados. Manutenção do açaizal Anualmente é efetuada a eliminação das plantas de valor comercial desconhecido, para que o açaizal seja mantido limpo e mais produtivo. São eliminadas as brotações novas, deixando somente as que substituirão os açaizeiros grandes indesejáveis, com vistas a manter a população recomendada. Para que os estipes do açaizeiro apresentem rápido crescimento em diâmetro, é indispensável a realização da limpeza das touceiras, que consiste da retirada das bainhas presas no estipe após a morte da folha. Essa prática é mais necessária nas plantas jovens, pois nas adultas as bainhas se desprendem, naturalmente, junto com as folhas.
Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS. |
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