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Favelas para o Cerrado


Vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social em 2007, o projeto "Agroextrativismo Sustentável da Favela" já reúne mais de 400 famílias agroextrativistas. Iniciada com 52 pessoas, a experiência ajuda a vencer os atravessadores por meio da comercialização em rede e do engajamento comunitário do fruto nativo.

Foto: Fundação BB
Favelas-para-o-Cerrado.jpg
Com o projeto, valor da favela aumentou 700%.

29/01/2009
- Conhecida pelas populações tradicionais do Cerrado como favela bem antes da multiplicação dos morros cariocas, a fava d’anta se tornou a fiadora para a complementação da renda de mais de 400 famílias agroextrativistas de Goiás, Bahia e Minas Gerais. O mote é o projeto "Agroextrativismo Sustentável da Favela”, vencedor do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social em 2007.

Concebida pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Cerrado (Cedac), a atividade começou, em 2000, com um grupo-piloto de 52 pessoas no município de São Domingos (GO). A estratégia, que viria a se alastrar para mais de 400 famílias organizadas em núcleos comunitários, ainda é a mesma: eliminar a figura dos atravessadores por meio da capacitação comunitária, do manejo sustentável e da comercialização em rede. Para isso, os participantes se integram à Rede de Comercialização Solidária de Agricultores Familiares e Extrativistas do Cerrado, que faz a venda da leguminosa diretamente à indústria. De seus frutos, colhidos entre maio e junho, são extraídas substâncias como a rutina, usada no tratamento do glaucoma, e a quercetina, açúcar utilizado em complementos alimentares.

Associada ao projeto desde 2000, a agricultora Cláudia de Jesus Nonato, de 36 anos, contabiliza os ganhos com a catação da favela no município de São João da Aliança (GO). No assentamento em que vive com outras 175 famílias, das quais 30 participam do projeto, ela se vale da catação, entre maio e julho, para complementar a renda de que dispõe com a produção de arroz, abóbora e milho. No ano passado, Cláudia colheu sozinha dois mil quilos da planta. “Depois que eu entrei na Rede consegui comprar meu carro. Até conta no banco eu tenho agora”, comemora.

A rotina não é fácil, diz. Ela acorda às 4h30, prepara a marmita para o dia e caminha pelo menos uma hora até chegar aos campos onde a planta prospera. São juntados, com a ajuda de um gancho, de 12 a 14 sacos por dia quando a “safra” é boa. Os filhos mais velhos também trabalham na catação. “O que eles ganham é deles. Um já comprou um DVD, um som e uma TV só com o dinheiro da favela. O outro está juntando para comprar uma moto”, conta.

Segundo a coordenadora técnica do Cedac, Alessandra Karla da Silva, fechar essa conta só é possível pelo ganho de escala. Atualmente, a Rede vende o fruto para a unidade industrial farmacêutica Merck Maranhão, que realiza o processamento e vende o produto para o exterior. O agricultor recebe o valor bruto de R$ 1,28 por quilo do fruto seco, o que equivale a um rendimento líquido de R$ 0,70 – sete vezes mais do que o valor aferido pelos agricultores antes do início do projeto. Somente na safra de 2008, oito toneladas foram enviadas para a indústria. “Toda a produção é comercializada conjuntamente e o preço é sempre o mesmo, independentemente de quanto cada família juntou”, revela Alessandra.

A média geral, explica, é de 300kg a 600kg de favela por família ao ano, mas a sazonalidade faz com que haja anos em que a produção em determinados locais sequer aconteça. “Por isso a estratégia em rede é tão importante. Ela permite que a gente possa vender o ano todo, já que a favela pode não dar em um lugar, mas dar em outro”, diz.

Para isso, explica, é preciso atentar para a sustentabilidade. O extrativista Osmar Alves de Souza, de 41 anos, fala sobre a importância de eliminar o machado e o facão da extração. “Aí a gente corta bem no pezinho dela sem desmatar”, ensina. Osmar também precisa percorrer uma longa distância – mais de 7 km – até encontrar os pés da leguminosa na Reserva Extrativista Recanto das Araras, em Goiás. Originário do grupo de 56 pessoas que deu início ao projeto, ele diz ter aprendido a conviver com a sazonalidade da planta, que alterna picos de produção e anos de escassez. “Às vezes ela nem dá”, explica. Quando resolve caminhar mais adiante para buscar a planta em áreas de reserva legal de grandes fazendas de soja, diz, a receptividade nem sempre é boa. “Tem gente que cria problema ainda, mesmo sem nem encostar na favela”, reclama.

Transporte

Com o valor recebido pelo Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social – RS 50 mil - o projeto criou um fundo rotativo destinado à compra de carroças e animais para transporte dos frutos. A idéia é aumentar a autonomia do agroextrativista para organizar a produção e a capacidade de coleta dos frutos. A maior dificuldade enfrentada pelo grupo, explica Osmar, é justamente a falta de condições de transporte, que tem de ser feita a pé ou de bicicleta.

O fundo atenderá, no primeiro ano de funcionamento, 30 famílias dos municípios de São Domingos e São João d'Aliança, em Goiás, e Lassance, Ibiaí, Jequitaí e Paracatu, em Minas Gerais. Os agroextrativistas terão cinco anos para pagar o financiamento por meio da produção da própria favela. “Aí vai ficar bom demais”, conta Cláudia, que será uma das primeiras beneficiadas.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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