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Falando a mesma língua


Para a multiplicação de tecnologias agrícolas, nada de contratar apenas técnicos de governo, consultores terceirizados ou pesquisadores universitários. A aposta de diversas organizações já é nos batizados “agricultores experimentadores”, destacados para realizar com seus pares a multiplicação de experiências, conhecimentos e saberes na área rural.

Foto: MDA
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Agricultores experimentadores associam conhecimento científico ao saber popular para gerar tecnologia

O agricultor Manoel Gavião, batizado Manoel Severino dos Santos, nem se lembra mais quantas viagens foram a comunidades agrícolas da Paraíba e de outros estados do semi-árido. Em cada uma delas, sua missão era a mesma: trocar experiências com a responsabilidade de devolver aos colegas da região tudo o que aprendeu. “Antigamente, o político levava alguma atividade sem que o agricultor tivesse educação nenhuma para aquilo. Era dinheiro perdido. Quando a gente fala a mesma língua, tudo fica mais fácil, até porque na hora sempre tem que fazer alguma adaptação”, argumenta.

Das andanças, Manoel já levou à sua propriedade, no município de Picuí (PB), alternativas como o açude, a cisterna, a barragem subterrânea, a cerca viva e o chamado canteiro econômico, no qual reaproveita para o cultivo a água utilizada na própria casa. Além do aprendizado na recuperação de áreas degradadas e no plantio de árvores nativas, também há por lá a mandala, de seis metros de diâmetro, que permite o uso da água de um tanque de criação de peixes para a irrigação de nove canteiros destinados à plantação de frutas, verduras, legumes e forrageiras. “Eu tinha uma propriedade seca. Hoje tenho água para até um ano e meio. O que eu posso, levo aos outros com prazer”, diz o agricultor experimentador.

O que há de novidade nas andanças de Gavião e tantos outros agricultores experimentadores, dizem especialistas ouvidos pelo Portal da RTS, é que eles não só incorporam e adaptam melhor o conhecimento científico na hora da reaplicação, como também apostam em seus saberes para propor novas tecnologias e práticas agrícolas a partir de suas próprias realidades locais. “De 10 mil anos atrás, quando nasceu a agricultura, até 1960, o conhecimento era gerado assim: pelo agricultor, que se baseava no modelo da própria natureza”, alerta a assessora técnica da ONG  Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (ASPTA), Paula Almeida.

A mudança, explica, é mesmo datada. Atiçado pela chamada Revolução Verde, que propagou a agricultura intensiva baseada no uso de insumos químicos e grandes monoculturas a partir da década de 60, o planeta passou então a testemunhar a substituição da agricultura familiar, orientada para a auto-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria orientada para a monocultura de produtos de exportação. Assim, passou a ser cada vez maior o número de pessoas a serem alimentadas por um número cada vez menor de produtores e fornecedores de sementes, o que gera descompasso entre a evolução dos sistemas agrícolas e quem efetivamente vive no campo. “A Revolução Verde tirou o conhecimento do camponês para universidades e grandes empresas. Aí é que se criou a cadeira de extensão rural, que muitas vezes são pacotes e receitas deslocados do saber popular”, diz Paula.

Quem assina embaixo é o agricultor-experimentador José Aparecido dos Santos, o Cidinho, dono de um sítio de 11 hectares a 45 km de Ouricuri (PE). A peregrinação de mais de 15 anos por diversos estados em busca de novos conhecimentos, explica, não permitiu apenas que ele adaptasse em sua propriedade tecnologias como a curva de nível, a cisterna de placa e o sistema de irrigação por gotejamento para aproveitar a “água contada” na barreira trincheira que ergueu com as próprias mãos. Tampouco as viagens serviram só para que reinventasse uma prática antiga da região: o uso da cobertura morta (restos de cultivo) para evitar a erosão e a transpiração da água numa das regiões em que menos chove no Brasil. “A fitoterapia também era uma coisa forte para a gente, da nossa cultura, e que foi sendo esquecida na região. Hoje usamos de novo a aroeira, o angico, a amburana e o juazeiro”, celebra.

Foto: Asa Brasil
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Agricultores experimentadores do semi-árido já estão integrados à reaplicação das tecnologias do P1+2

O caminho, explica Cidinho, foi retomar os princípios da agroecologia. “A agroecologia é milenar e essa ‘rapidez’ fez tudo cair no esquecimento. Agora acreditamos também na nossa tecnologia”, diz. Hoje ele planta feijão, milho e sorgo, além de frutas como caju, manga, pinha e goiaba. A água também está garantida, assim como outra prática que aprendeu a apostar na hora de produzir: o trabalho cooperado, tendo em vista a racionalização dos recursos escassos da região. “Hoje trabalho com 13 famílias em uma horta comunitária que faz o bem de todo mundo, explica.

Política pública

É difícil precisar o número de agricultores experimentadores espalhados pelo Brasil, dizem especialistas, mas é certo que a experiência começa a ser usada em maior escala. “Hoje essas metodologias fazem parte de um debate público, mas ainda há dificuldades para levar a prática às políticas públicas”, diz Paula. Sinal da expansão do contingente deste tipo de agricultor, explica, está nas ações da própria ASPTA. Lá já estão mobilizadas mais de cinco mil famílias em torno de redes de agricultores no agreste da Paraíba, no centro-sul do Paraná e na região metropolitana do Rio de Janeiro. “Já há agricultores experimentadores em todo o Brasil”, comemora.

Prova de que o aproveitamento em escala dos agricultores na reaplicação de novas tecnologias pode dar certo está na multiplicação de tecnologias de captação de água de chuva no semi-árido. Lançado pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) no dia 17 de abril de 2007, na comunidade Lajedo de Timbaúba, em Soledade, no Cariri paraibano, o Programa uma Terra e Duas Águas (P1+2) tem como objetivo garantir o aproveitamento e o manejo sustentável da água da chuva para a produção de alimentos pela construção de tecnologias já desenvolvidas e experimentadas pelos/as agricultores/as do Semi-Árido.

“Essas tecnologias são resultado do conhecimento e da experiência acumulada dos agricultores e agricultoras familiares. Por isso, o P1+2 visa reconhecer e valorizar os saberes tradicionais, incentivando processos participativos e de construção coletiva do conhecimento”, explica o coordenador do programa, Antônio Barbosa. Na fase demonstrativa do P1+2, já foram realizados 144 intercâmbios entre agricultores. Para o projeto piloto, estão previstos 26 intercâmbios interestaduais e 52 intermunicipais. “Agricultores produzem conhecimento e são portadores de experiência. Por isso temos trabalhado na formação de uma rede de agricultores experimentadores para que eles possam trabalhar como multiplicadores”, completa.

Finalizada a fase demonstrativa, apoiada pela Fundação Banco do Brasil e pela Petrobras, o programa piloto terá investimentos de R$ 15,5 milhões oriundos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), ligada ao Ministério da Integração Nacional (MI).  Os recursos serão aplicados na construção de 1.497 tecnologias, sendo 1.146 cisternas calçadão, 143 barragens subterrâneas e 208 tanques de pedra, beneficiando 3.369 famílias. Também serão inseridas ao escopo do projeto 500 bombas d'água popular (Bap), cuja construção deve beneficiar 6 mil famílias.

Um dos elementos centrais desta estratégia, segundo Barbosa, será certamente o envolvimento dos próprios agricultores na difusão das tecnologias. “A formação de agricultores experimentadores tem o intuito de demonstrar que o produtor pode ser um pesquisador e um difusor de seus conhecimentos”, afirma.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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