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Expedição em favor da vidaConheça o trabalho dos Expedicionários da Saúde, médicos voluntários dedicados a levar medicina especializada e atendimento cirúrgico para quem estes serviços quase nunca chegam: os povos indígenas da Amazônia. Já foram mais de 5 mil atendimentos e 1.311 cirurgias em onze expedições, sendo oito na região do Alto Rio Negro e três no Médio Rio Amazonas
02/10/2008 - A região do Noroeste Amazônico, que abrange a bacia do Alto Rio Negro na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, é habitada há pelo menos dois mil anos por 22 etnias que falam idiomas pertencentes a três famílias lingüísticas: Aruak, Maku e Tukano. São cerca de 40 mil indígenas, mais da metade distribuída por 750 sítios e comunidades isoladas ao longo dos rios que contornam os municípios amazonenses de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro. Diante dos obstáculos assegurados por longas distâncias e rios encachoeirados que dificultam o acesso dos barcos, quem precisa de uma cirurgia por lá não costuma ter mais do que duas opções: ou se resignar ou enfrentar – quando possível – dias de barco e até meses de espera por um atendimento que muitas vezes não ocorre. Quem decide pela travessia, explica o cirurgião ortopedista Ricardo Oliveira, geralmente desce quatro ou cinco dias de barco até São Gabriel da Cachoeira, segundo município com a maior extensão territorial do país e que abriga 10.6 milhões de hectares de terras indígenas. De lá são mais dez dias de viagem pelo rio até Manaus, onde a saída é se hospedar na Casa do Índio e se virar para custear a alimentação e as despesas - dele e de alguém da família que o acompanha -, durante os quatro ou cinco meses em que geralmente dura a espera pelo atendimento cirúrgico. Inconformados com a rotina, ele e um grupo de médicos voluntários do interior paulista fundaram, em 2003, a Associação Expedicionários da Saúde, uma organização sem fins lucrativos dedicada a levar medicina especializada e atendimento cirúrgico a comunidades indígenas da Amazônia. A idéia é assegurar um serviço complementar aos programas existentes de atendimento à saúde indígena e evitar, por meio de expedições, a necessidade de deslocamento do doente e sua família até os centros urbanos. Desde então já foram mais de 5 mil atendimentos e 1.311 cirurgias em onze expedições, sendo oito na região do Alto Rio Negro e três no Médio Rio Amazonas, no Pará. Cada uma destas viagens resolve até 90% das necessidades cirúrgicas locais, garantem os expedicionários. “A gente vai com certa arrogância achando que vai mudar a vida deles, sem perceber que eles também vão mudar a nossa vida”, conta o médico Fábio Atui, que já participou voluntariamente de seis expedições à região. Cada expedição dura em torno de uma semana, com uma rotina de trabalho que alcança até 14 horas por dia. Antes de começar as operações, há ainda um longo trajeto até as aldeias. Geralmente os médicos desembarcam em Manaus já na madrugada, levantam às 5h para tomar um vôo da FAB até São Gabriel da Cachoeira e de lá percorrem até 10 horas pelo rio. “É a medicina pura, que todo médico já sonhou em fazer pelo menos uma vez na vida. Você faz porque quer e o paciente recebe porque precisa”, diz Atui, defendendo o caráter voluntário da experiência. “Eu também ganhei muito mais do que dei. O privilégio de partilhar dessas civilizações por pouco que seja faz a gente se reencontrar com nossa própria humanidade”, diz Ricardo. Isso não significa, contudo, que o grupo não tenha plena consciência de sua função nestas comunidades, avisa. “Tentamos interferir o mínimo possível. Estamos lá para prestar o serviço e ir embora, até porque sabemos que uma das finalidades do nosso trabalho é ajudar a preservar estas culturas evitando que as pessoas tenham que sair de suas casas. Nossa função não é comprar artesanato”, diz. Centro cirúrgico Ao todo, a bagagem até as aldeias inclui toneladas de materiais, entre repelentes, remédios, bisturis e outros objetos que, depois de montados, se transformam em um centro cirúrgico móvel, com ar-condicionado, gerador, macas, microscópios e todos os instrumentos necessários para assegurar a segurança das cirurgias. Cada expedição dura cerca de uma semana e envolve oftalmologistas, clínicos gerais, ortopedistas, pediatras e ginecologistas – todos voluntários -, além de anestesistas, enfermeiros e o pessoal de logística. “Inicialmente atuávamos em pequenos hospitais da região, mas logo percebemos que seríamos mais eficazes se conseguíssemos montar um centro cirúrgico móvel. Naquela época eram 60 cirurgias por expedição e hoje já são 200”, explica Ricardo. As principais cirurgias realizadas são as oftalmológicas e cirurgias gerais, embora também sejam feitas cirurgias ortopédicas e ginecológicas. A incidência de hérnias é altíssima, bem como os casos de catarata que decorrem da alta incidência de luz solar, própria de regiões equatoriais. “Os índios trabalham fazendo força e a hérnia é uma doença clássica de trabalhador braçal cuja solução é eminentemente cirúrgica. E posso afirmar que a cirurgia que fazemos lá é igual a que eu faço aqui no hospital Sírio Libanês (São Paulo)”, garante Atui. O que é peculiar na região, explica, é a alta incidência de hérnia também entre as mulheres. Para entender o porquê basta ver o caso da agricultura. É que cabe aos homens desmatar e fazer a queimada da área de floresta ou de capoeiras velhas para a constituição das roças, mas a partir de então o trabalho torna-se feminino, desde a escolha das variedades de mandioca ou das outras espécies cultivadas até o preparo dos alimentos, como aponta levantamento do Instituto Socioambiental (ISA) realizado com os indígenas da região.
Depois de preparar a primeira refeição, as mulheres das comunidades indígenas do Alto Rio Negro vão à roça colher, fazer o replantio e limpar o terreno; às vezes vão às capoeiras das roças antigas, à procura de frutas que continuam produzindo depois que as roças são abandonadas. Em casa se desdobram ainda entre ralar a mandioca, carregar água do rio para lavar a massa, buscar lenha para o fogo, preparar comida e cuidar e dar atenção para as crianças menores. Prova da valentia destas mulheres, diz Atui, está no parto que os expedicionários tiveram que realizar em uma destas expedições. Não houve tempo de esperar a ginecologista do grupo, que estava a oito horas de barco e deu por rádio as orientações para a cesariana, imprescindível diante dos sinais de sofrimento fetal. Na mesma noite, ainda convalescente, a mãe matou uma cobra que se esgueirava para perto do filho recém-nascido. “Disseram que foi por causa do cheiro de sangue. O fato é que aqui no nosso trabalho não tem isso de salvador da pátria. Basta ver a rotina destas pessoas para saber que eles estão muito bem sem a gente”, diz Atui. Atendimento indígena O modelo de atendimento à saúde indígena no Brasil é baseado em 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei) espalhados pelo país, com responsabilidades por uma base territorial e populacional específica. As equipes médicas, entretanto, não têm vínculo permanente com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), responsável pelo gerenciamento do sistema. Alvo de uma série de críticas de má-gestão no atendimento aos índios, feitas pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) em junho deste ano, a direção da Funasa reconheceu deficiências no sistema, mas realçou a redução da mortalidade infantil nas comunidades indígenas como resultados positivos da atual política. Segundo a Funasa, 13 mil profissionais atuam hoje na atenção à saúde da população indígena, contratados por entidades conveniadas do terceiro setor. Apesar de a instituição ter apontado a intenção de substituir todos estes profissionais até 2012 por funcionários ligados diretamente ao órgão estatal, por meio da realização de concurso público, o governo enviou ao Congresso projeto de lei que tira da Funasa a responsabilidade de cuidar da saúde dos índios. A proposta, assinada pelos ministros José Gomes Temporão (Saúde) e Paulo Bernardo (Planejamento), foi protocolada na Câmara no dia 29 de agosto. Ela prevê a criação de uma nova secretaria, ligada ao Ministério da Saúde e voltada à prevenção de doenças, que trabalharia com a saúde indígena. No texto do projeto, Temporão e Bernardo explicam que o trabalho exercido pela Funasa é "calcado essencialmente em convênios com Estados, Municípios e ONGs, atribuições essas que geram na sua execução grande volume de convênios para análise e acompanhamento".
Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS. |
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