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Diversa mandiocaCartilha do Sebrae, disponível para download gratuito, ensina a transformar 'resíduos' da mandioca em fertilizantes naturais, defensivos contra insetos e pragas e insumos básicos para a produção de vinagre, tijolos e sabão. O desafio é melhorar a vida de quem vive de fazer farinha, uma arte centenária que atravessa gerações no Nordeste.
A informação chegou por meio de acompanhamento técnico do Sebrae e de uma cartilha voltada para o aproveitamento dos dois sub-produtos, até então vistos como resíduos pelos produtores. Elaborado pelo Sebrae, o livreto também caiu nas mãos das 65 famílias associadas à cooperativa, que chega a processar até oito toneladas de raiz de mandioca por dia no ápice da produção, que dura cerca de seis meses por ano. O material apresenta, com detalhes, o modo de preparo das receitas, os insumos complementares necessários e outras recomendações. Como adubo, por exemplo, seu Zequinha descobriu que a manipueira – que é tóxica – pode levar mais riquezas em nutrientes e microorganismos ao solo se bem manejada, servindo também para controlar vermes que prejudicam o desenvolvimento das plantas. “No lugar dos dois sumidouros em que a gente jogava a manipueira, estamos construindo um reservatório de 20 mil litros. Daí, depois dela decantar, é só encher o carro pipa com a medida de água e jogar direto na plantação”, conta. Para isso, ensina, basta que a manipueira seja diluída em água e aplicada pelo menos 24 horas depois de produzida. Aliás, da manipueira os associados da cooperativa também estão fazendo tijolos. Utilizados nas propriedades das famílias cooperadas, nem há necessidade de levar o material ao forno. Após misturar o produto com barro e moldar as peças, basta deixar dois dias ao sol para secar. “O tijolo fica firmado mesmo”, garante seu Zequinha. Por tratar-se de um ácido, o consumo da manipueira em pequena quantidade pode causar um desconforto semelhante ao da embriaguez. Quando ingerida em grande quantidade por humanos ou animais domesticados, pode causar a morte por envenenamento. Considerando a quantidade de raízes, os resíduos gerados na produção de farinha podem ser considerados elevados: são cerca de 18% de cascas; 30% de manipueira e 24% de crueira (aglomerados). Isso significa dizer que, para cada três quilos de mandioca processada, um litro de manipueira é produzido.“Todas as variedades de mandioca têm ácido cianídrico, que hoje é jogado diretamente no meio ambiente. Nosso objetivo é eliminar esta prática e ao mesmo tempo beneficiar o produtor”, explica a coordenadora nacional da carteira de projetos da mandiocultura do Sebrae, Carmen Lima. Rotina nordestina De acordo com especialistas consultados pelo Portal da RTS, tem havido uma crescente profissionalização do setor de farinha de mandioca. As empresas vêm se tornando maiores, melhor organizadas e equipadas com máquinas que ampliam e aprimoram o processo produtivo. No entanto, a informalidade ainda é a grande marca da atividade farinheira, o que contribui, inclusive, para a dificuldade considerável para se obter números confiáveis sobre produção e consumo. “Realmente não há estimativa segura sobre o número de casas de farinha”, confirma Carmen. Devido ao acentuado consumo de farinha no Nordeste, certo é que a região acaba
Segundo o gestor do Projeto de Mandiocultura do Araripe (PI), Felipe Vieira, as casa de farinha no Estado envolvem, em média, cerca de oito pessoas, que processam de 1,5 tonelada a 2 toneladas de raiz de mandioca por dia – o que significa também de 500 a 700 litros de manipueira. Cada tonelada de mandioca, por sua vez, gera cerca de 300 kg de farinha. O que se sabe é que o Brasil produz mais de 25 millhões de toneladas de mandioca por ano, o que cacifa o país como o segundo produtor mundial, atrás da Nigéria. Segundo estimativas do Sebrae, as atividades ligadas ao cultivo da mandioca e seu processamento em farinha e fécula geram aproximadamente um milhão de empregos diretos. A receita bruta anual da atividade ficou em R$ 4,1 bilhões no ano de 2005, o que representa cerca de 4,3% da produção agrícola brasileira. Observando os dados de produção de mandioca no país, verificou-se, ainda segundo o Sebrae, um crescimento médio de 4,2% entre 2000 e 2005. Este movimento representa uma recuperação gradativa das perdas sofridas na segunda metade da década de 90, quando o setor sofreu um grande abalo no volume produzido. As oscilações para baixo, que remontam ao início dos anos 70, deveram-se à substituição da farinha de mandioca por massas na alimentação do brasileiro. Uma delas é o macarrão, cuja base é a farinha de trigo. Aproveitamento da rama A parte aérea (superior) da rama da mandioca também pode ser utilizada tanto na alimentação humana quanto na animal. Suas folhas são ricas em vários nutrientes, principalmente em proteínas, chegando a possuir até 28% de proteína bruta. Para aproveitar o que era jogado fora, basta administrar o sub-produto sob as formas fresca, de feno ou de silagem. “Como a quantidade da rama geralmente é muito grande, ela vira uma excelente opção de ração animal. Acontece que a maioria geralmente é queimada”, explica o técnico agrícola do Sebrae no Piauí, Antônio Paixão. A oportunidade, diz, é mais do que vantajosa. É que um kg de ração sai, no mercado local, por cerca de R$ 0,20. Já um kg de ração de rama não passa de R$ 0,10, considerando os custos para o processamento do material. Para a forma de feno, cada mil quilos do terço superior da rama da mandioca, por exemplo, produzem de 200 a 300 quilos de feno. Uma vez administrado, o material seco pode ser armazenado dentro de sacos de aninhagem, fibra de ráfia ou nylon do tipo tela. Para alimentar ruminantes como bois, ovelhas, bodes e cabras, basta utilizar o feno à vontade, substituindo total ou parcialmente a ração. Já sob a forma fresca, a orientação é cortar o terço superior da rama em vários pedaços e deixá-los murchar por 24 horas, logo após a colheita. Para alimentar ruminantes como bois, ovelhas, bodes e cabras, deve-se misturar a forma fresca em igual quantidade com outra ração ou capim. Por fim, o processo de ensilagem consiste em triturar o terço superior da rama da mandioca e colocar o material picado no fundo de um silo, compactando-o com “pesos de socar”. O processo, que demanda uma trincheira com aproximadamente o volume de três caixas d’água de mil litros, faz a silagem da rama estar pronta para o consumo animal em não mais do que 40 dias. O gestor local do Projeto de Mandiocultura do Sebrae no Ceará, Boanerges Lopes, é categórico. “Com base na alimentação com rama, identificamos uma engorda de 300 gramas por dia no caso dos caprinos e de 1 quilo a 1,5 quilo por dia para os bois. É um ótimo negócio”, avisa.
Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS |
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