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Dez razões para a crise mundial de alimentosA crise mundial de alimentos, conseqüência da alta internacional dos preços, já é uma realidade reconhecida por todos os governos e organismos internacionais. Em média, os aumentos sobre os alimentos básicos já superaram os 57% este ano, índice que terá de ser coberto pelos países mais pobres do planeta quando importarem os alimentos necessários para abastecer suas populações. Algo que o ex-secretário-geral da ONU, Koffi Annan, já chamou de “o pior golpe contra a dignidade humana em toda a história da humanidade: o agravamento da pobreza e da fome, precisamente em uma época em que a humanidade produz muito mais alimentos do que necessita”. Há várias décadas, o Haiti ostenta o triste recorde de ser o país mais pobre de todo o continente americano. Está também entre os 10 mais pobres do mundo. Sua expectativa de vida é de 51 anos e 60% das crianças com menos de cinco anos sofrem de anemia. Com a disparada dos preços dos alimentos, muitos haitianos não têm como pagar sequer por um prato diário de arroz, o que resulta em medidas desesperadas para tentar aplacar a fome. Uma das mais difundidas, avisam as organizações internacionais, já é um tradicional remédio haitiano contra a falta de comida: biscoitos feitos com o lodo seco amarelo do planalto central do país, temperados com gordura vegetal e sal. De olho nesta teia, o Portal da RTS apresenta diversos fatores que têm contribuído para a escalada dos preços, assim como dilemas que devem entrar futuramente nessa pauta a partir do aquecimento global, do avanço da desertificação e da escassez de água no planeta. Certo é que a crise mundial de alimentos está longe de ser explicada por um motivo só, razão pela qual a batalha em favor de um novo modelo exige soluções à altura do desafio que temos pela frente. Modelo agrícola – Atiçado pela chamada Revolução Verde, que propagou a agricultura intensiva baseada no uso de insumos químicos e grandes monoculturas a partir da década de 60, o planeta passou a testemunhar a substituição da agricultura familiar, orientada para a auto-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agroindústria orientada para a monocultura de produtos de exportação. Assim, é cada vez maior o número de pessoas a serem alimentadas por um número cada vez menor de produtores e fornecedores de semente, o que facilita as oscilações nos preços. Esse processo também afeta a segurança alimentar entre os mais pobres. Embora possa parecer que a urbanização transferiu o problema da fome para as grandes cidades, a ONU estima que três de cada quatro pessoas que vivem com menos de um dólar por dia ainda estão no campo. Encarecimento da energia e dos derivados do petróleo – O barril de petróleo fechou este mês acima dos US$ 125, mais um recorde. Este aumento influencia diretamente na alta dos preços dos alimentos, já que o petróleo é utilizado como combustível no maquinário agrícola, no transporte e na produção de fertilizantes. Para se ter uma idéia, apenas o potássio e o fósforo, derivados de petróleo usados como insumos básicos pela agroindústria, subiram em média 70% no último ano arrastados pelo aumento do petróleo no mercado internacional. Subsídios agrícolas - Os subsídios dos países ricos à agricultura contribuem para a elevação dos preços e a escassez de alimentos no mundo. A assistência que a União Européia dá aos agricultores de países membros como França, Inglaterra e Alemanha, entre outros, barateia seus custos, mas inibe a produção nos países em desenvolvimento. Apenas no contexto da chamada Política Agrícola Comum, a União Européia injeta US$ 50 bilhões por ano para seus agricultores. Nos EUA e outros países industrializados, os subsídios chegam a US$ 1 bilhão por dia. Biocombustíveis - Os biocombustíveis, apresentados como estratégia para reduzir as emissões globais, foram um dos primeiros acusados pelo aumento do preço dos alimentos. As alegações é que terras previamente utilizadas para a agricultura estariam sendo destinadas à produção dos combustíveis alternativos. Após uma primeira generalização, creditou-se ao combustível baseado no milho alguma responsabilidade pela escalada dos preços e diminuiu a carga de críticas à cana-de-açúcar. De todo modo, o debate sobre o impacto dos biocombustíveis sobre o preço dos alimentos deve continuar, sobretudo se considerada a escala necessária para abastecer todo um mercado global. No Brasil, apenas 1% das terras aráveis é utilizado para a cana destinada ao etanol, área que deve ser multiplicada caso emplaque o uso global de biocombustíveis. Transformação dos alimentos em commodities - O capital financeiro passou a ser investido nos mercados internacionais de produtos agrícolas depois da crise do investimento no setor imobiliário e da desvalorização do dólar americano. Em articulação com grandes empresas que controlam o mercado de sementes e a distribuição mundial de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir. Na prática, a lógica é tão simples quanto perversa: quanto mais altos os preços dos alimentos, maior o retorno dos investimentos financeiros. Aquecimento da demanda – Nos últimos anos, as taxas de crescimento econômico conquistadas por países em desenvolvimento, especialmente China e Índia, ampliaram o mercado consumidor de alimentos. Além disso, a chamada classe C deixou de comer apenas alimentos como milho e trigo para comer carne e laticínios. De acordo com a FAO, apenas nos países em desenvolvimento o consumo de carne dobrou nos últimos 40 anos. Acontece que quando comemos cereais, comemos a planta. Quando comemos carne, consumimos as duas coisas: a carne e a planta que serve de alimento ao gado. O problema é que são necessários sete quilos de cereal para obter um quilo de carne bovina. Outra preocupação refere-se ao crescimento populacional. Nos próximos 50 anos, a população mundial deve chegar a 9 bilhões de pessoas, o que significará ainda maior demanda por comida. Desertificação e aquecimento global - A degradação da terra e a desertificação são sérios problemas globais, afetando 33% da superfície terrestre e 2,6 bilhões de pessoas. Apenas na América Latina, mais de 516 milhões de hectares são afetados pela desertificação, resultando na perda anual de 24 bilhões de toneladas da camada arável do solo. Globalmente, a área afetada pela seca aumentou mais de 50% durante o século XX, problema que tende a se agravar com o aquecimento global e o uso de técnicas de manejo que não respeitam o solo. As regiões mais secas do planeta, por exemplo, tendem a ficar mais vulneráveis a chuvas torrenciais e concentradas em curto espaço de tempo, ao passo que haverá maior freqüência de dias secos e de ondas de calor decorrentes do aumento na freqüência de veranicos, o que aumenta os riscos de perdas de safra. Unificação do cardápio – Nas últimas décadas, boa parte da população global deixou de consumir alimentos produzidos localmente para comer produtos industrializados. Um dos efeitos desta mudança é a redução da biodiversidade agrícola, já que a maior parte do planeta passou a comer derivados de commodities como a soja, o milho, o trigo e o arroz. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO) estima que 75% da variedade de plantas usadas na agricultura foram deixadas de lado ao longo do último século. O resultado desta redução, segundo a entidade, é que apenas 12 variedades de alimento e 14 espécies animais garantem a maior parte do abastecimento mundial. Isto faz com que qualquer oscilação nos preços destes produtos chegue rapidamente ao bolso de consumidores em todo o planeta. Crescimento do uso de água – Segundo alertas de especialistas, o planeta precisa contabilizar também a água incorporada no processo agropecuário. Cada quilo de carne, por exemplo, exige em média 40 mil litros de água para ser produzido, avisa a Unesco. Neste cálculo entram não só a água consumida diretamente pelo animal, mas também a água utilizada na produção da alimentação do gado, no tratamento e no abate. O problema é que o consumo de alimentos que necessitam de muita água para sua produção é alto no mundo. Diante da tendência mundial de cobrança pelo uso da água, combinada com o aumento de situações de escassez, a expectativa é que isso possa levar a um forte rebatimento nos preços dos alimentos no futuro. Para se ter uma idéia do alcance deste dilema, embora a irrigação só atinja 3,1 milhões de hectares no Brasil, o potencial irrigável no país é estimando em 29,5 milhões de ha. Mesmo assim, o setor já usa 70% da água no país, segundo estimativas do Plano Nacional de Recursos Hídricos. Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS |
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