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Agrofloresta triplica renda de agricultores na Amazônia


Com 1.500 hectares de sistemas agroflorestais manejados por 368 famílias de agricultores e seringueiros, o projeto de Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (Reca) foi apresentado na I Mostra de Tecnologias Sociais de Porto Velho.

Foto: Reca
Agrofloresta-triplica-renda-de-agricultores-na-Amazonia.jpg
Assembléia réune agricultores e seringueiros associados ao Reca: aposta na união de saberes

04/11/2009
- Incentivados pela política de interiorização do desenvolvimento, capitaneada pelos governos militares a partir da década de 70, milhares de agricultores de todo o país migraram em busca de melhores condições de vida na fronteira da Amazônia. Um dos destinos foi o oeste de Rondônia, onde o Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra) distribuía lotes de cem hectares para quem decidisse enfrentar a travessia. A seringueira e professora Aldênia dos Santos Gama, que viu os seringais onde trabalhava serem devastados para abrir as frentes agrícolas, testemunhou de perto os dilemas de quem aportou na região.

O caminho, lembra, era quase sempre o mesmo. Centenas de agricultores abriam clareiras na floresta para tentar plantar arroz, feijão, cacau, café e outras culturas que já praticavam em seus estados de origem. Em pouco tempo, a fertilidade natural própria das terras da Amazônia estava exaurida, inviabilizando a produção. O calor típico da região e o forte regime de chuvas também tolhiam logo os cultivos nos moldes em que eram trazidos do sul do país. Tudo isso, somado a sucessivos surtos de malária e à falta de infra-estrutura para escoar a produção, fez muitos deles deixarem seus lotes de volta para casa.

“Foi tudo ruim. A borracha ficou difícil porque os seringais estavam sendo cortados para a abertura dos assentamentos. E o pessoal que vinha do sul, quando chegava, logo queria ir embora porque encontrava só os ‘picadões’”, diz Aldênia em alusão às estradas abertas a foices e facões que serviram como as primeiras estradas para o interior do território amazônico.

Entre os que se negaram a voltar estava um grupo que, em julho de 1984, se estabeleceu na cidade de Nova Califórnia, às margens da rodovia BR-364, na fronteira entre o Acre e Rondônia. Antigo seringal desapropriado pelo Incra, a área serviu de base para o projeto de Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (Reca), um dos mais amplos projetos de produção sustentável de base familiar já concebidos na Amazônia. Fundado em 1989 por migrantes com conhecimentos sobre a lavoura e seringueiros locais sabedores da floresta, o projeto é resultado desta união de saberes, que desaguou na implantação de culturas adaptadas à floresta a partir da formação de áreas de reflorestamento com cultivos econômicos amazônicos.

“Chegamos à conclusão de que esta alternativa seria a mais viável. Aí conseguimos atrair o financiamento da Cebemo [agência financiadora da Holanda]”, diz Hamilton Condack, agricultor associado ao Reca e responsável pela área de comercialização. Na prática, diz, a grande inovação foi utilizar o sistema agroflorestal (SAF) para cultivar espécies típicas da região - uma forma de uso da terra na qual se combinam espécies arbóreas lenhosas (frutíferas e madeireiras) com cultivos agrícolas e/ou animais que interagem econômica e ecologicamente. O SAF já responde por 95% da área de plantio e ocupa por lá cerca de 1.500 hectares, tendo como culturas-base espécies como o cupuaçu, a castanheira, a pupunheira e o mogno.

São três agroindústrias de beneficiamento de produtos em funcionamento. Cada estrutura possui 12 grupos, envolvendo a família dos agricultores, um líder e um coordenador para representar o Reca. A comercialização dos produtos é realizada localmente e por vendas diretas no atacado e varejo, auxiliadas por representações comerciais em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além das vendas no Brasil, o grupo também exporta o palmito da pupunheira para a França pelo sistema de comércio justo e solidário, movimentando cerca de R$ 3 milhões por ano.

A extração, o transporte, o beneficiamento e a comercialização também são realizados de forma coletiva. A remuneração dos associados é obtida pela venda de produtos e seu valor agregado, como a polpa, a semente de pupunha selecionada, a manteiga do cupuaçu, licores, doces e geléias. Segundo estudo realizado pela Universidade Federal do Acre, a renda de quem trabalha no Reca chega a ser três vezes maior da de quem ainda pratica os sistemas convencionais de produção.

Quem garante é o agricultor Arnauld Berkembrock, de 54 anos, que em outubro de 1989 venceu três dias de viagem em cima de um caminhão de mudança, junto com a mulher e as três filhas pequenas, então com 12, 8 e 4 anos. Ele vinha de Santa Catarina e logo viu as dificuldades de reproduzir na região os plantios que praticava por lá. No lote de 100 hectares que recebeu do Incra, florescem mesmo cupuaçu, pupunha, castanha, copaíba, andiroba e mogno. “As dificuldades que a gente passa têm que fazer a gente mudar. Precisei aprender a trabalhar mais na sombra e sair do sol quente, porque se não ninguém agüenta”, conta. Hoje, seu Arnauld consegue levantar cerca de R$ 1.200 por mês com a produção.

História

No início das atividades do projeto, em 1989, o Reca só possuía uma balança comum, uma seladora, um freezer e duas tesouras para despolpar as frutas. Dona Aldênia lembra bem das primeiras dificuldades. “Fui chamada para participar da primeira reunião. Andei a pé 12 km para a instituição da assembléia”, diz a sócio-fundadora da Associação. “O seringueiro é muito solidário, mas isolado. Os sulistas já sabiam se organizar mais. A gente sabia da floresta e eles de outras coisas. O que não dava é para beber com eles o chimarrão. Aquilo para nós é uma água quente e até hoje não me atrevo a beber isso não”, brinca.

Em 1993, o grupo conseguiu implantar uma fábrica de processamento de cupuaçu e passou a beneficiar não só a polpa, como também a semente para tirar o óleo e fazer chocolate (“cupulate”). Em 1995, começaram também a comercializar a semente de pupunha, bem mais simples de beneficiar. A partir de 1999 passaram ainda a vender sementes certificadas, fiscalizadas com acompanhamento técnico e com certificado de garantia. Isso sem falar na produção artesanal do palmito de pupunha, que hoje é exportada para a França em parceria com a Associação dos Produtores Alternativos (APAOuro Preto d’oeste/RO).

“Nossa aposta foi evitar a dependência de um só produto, que diante de uma crise produtiva ou de mercado pode limitar e inviabilizar o projeto como um todo”, conta Hamilton. Por isso, diz, a diversidade tem de ir além dos frutos comercializados. “Só para o palmito de pupunha temos três tamanhos de embalagem e cinco tipos de corte”, explica.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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