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Sistema Pais, no Rio Grande do Norte - Com a força da mulher


No Rio Grande do Norte, agricultores familiares de cinco municípios comemoram os resultados obtidos com o Projeto PAIS, que tem encontrado em grupos femininos terreno fértil para sua aplicação no estado

Foto: Fred Veras
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"As Três Margaridas", no assentamento Alta Felicidade I, em Ipanguaçu-RN

27/02/2008 - Açu, Afonso Bezerra, Ipanguaçu, Carnaubais e Itajá. Esses cinco municípios, localizados na microrregião do Vale do Açu, foram os escolhidos para a implantação de 90 unidades do PAIS - Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, no Rio Grande do Norte. Menos de um ano após o início efetivo da instalação das hortas, as famílias já acumulam resultados, como uma alimentação mais nutritiva e também um maior rendimento financeiro com o seu trabalho no campo. Um esforço conjunto do Sebrae, Fundação Banco do Brasil e Ministério da Integração Nacional, além de parceiros locais e das próprias comunidades, que se traduz em melhor qualidade de vida e também cidadania para os agricultores participantes.

As comunidades estão localizadas principalmente em áreas de assentamento rural. Muitas delas em locais de difícil acesso e com muitas diiculdades em termos de infra-estrutura. No geral, uma população até então descrente em relação a políticas públicas e projetos de cunho social. “Um dos grandes desafios foi fazer essas pessoas perceberem que o PAIS não era apenas mais um projeto que passava ao largo de suas necessidades. Ao contrário, trata-se de proposta de transformação, que lhes permitirá, após concluída a implantação, levar adiante a sua vida de forma sustentável. Estamos falando de ensinar a pescar, e não de dar o peixe”, frisa Fernando Leitão, coordenador estadual do PAIS pelo Sebrae/RN.

A partir do momento em que passaram a trabalhar dentro do novo modelo, esses produtores do Rio Grande do Norte descobriram as vantagens da agricultura ecológica, fato que tem promovido uma verdadeira transformação cultural em seus hábitos alimentares e de produção. Um aspecto importante para esse sucesso foi o fato de que, desde o início, as prefeituras dos cinco municípios acreditaram no projeto e se engajaram no esforço da disseminação dessa tecnologia social. Além delas, a ONG Sertão Verde, que já atuava na região, também contribuiu no processo de implantação do PAIS junto a essas comunidades.

Margaridas

Foto: Revista Sebrae Agronegócios
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Maria Bethânia colhe o fruto de seu trabalho, no sertão potiguar

Dentre os agricultores participantes do projeto, dois grupos organizados por mulheres têm se destacado. Um é conhecido como “As Três Marias”, composto por três agricultoras do assentamento rural Tabuleiro Alto, no município de Afonso Bezerra. Uma das integrantes desse grupo, Maria Bethânia Rodrigues, 36 anos, diz que o projeto chegou em boa hora para elas. “Agora temos condições de trabalhar para nós mesmas, produzindo alimentos sem veneno para nos alimentar melhor e melhorar a renda da família”, afirma Bethânia.

Outro grupo que vem dando exemplo na utilização do PAIS é a associação de mulheres “As Três Margaridas Semeando o Sonho”, do assentamento Alto da Felicidade I, município de Ipanguaçu. O nome do grupo é uma homenagem a Margarida Maria Alves, sindicalista paraibana que fez história liderando a luta dos trabalhadores contra a exploração dos usineiros locais. Acabou sendo assassinada na frente do marido e dos filhos, em frente à sua casa, transformando-se em mártir da luta por melhores condições de vida para os agricultores do sertão nordestino.

Uma das fundadoras das “Três Margaridas” é Sônia Costa, divorciada, 38 anos. Ela afirma que o PAIS rapidamente transformou em realidade o sonho de poder manter a família com o que ganha na própria terra. “Tenho de sustentar minha família sozinha. Antes do PAIS era muito difícil, por isso desde o começo acreditamos no projeto. Agora tenho o PAIS instalado aqui no meu lote, e podemos dizer que realmente dá certo. Hoje eu me considero uma produtora de verdade”, relata.

De acordo com Sônia, no início foi difícil convencer outras pessoas da comunidade a participarem do projeto, mas agora que vêem os resultados obtidos por seu grupo, esses vizinhos têm manifestado interesse em também adotar esse modelo de produção. Vale destacar que, na região, alguns produtores estão, inclusive, implantando por conta própria a tecnologia do PAIS em suas propriedades. São pessoas que entram em contato com o Sebrae/RN não para solicitar sua inclusão no projeto, mas para buscar informações com o objetivo de individualmente montarem suas hortas seguindo os pressupostos dessa tecnologia social.

Para as “Três Margaridas”, essa procura demonstra o acerto da decisão que tomaram logo no início. Segundo Sônia, o seu lote era completamente seco, e a única possibilidade que tinha para plantar alguma coisa era nas escassas épocas de chuva. Agora, com o sistema de irrigação por gotejamento, ela pode plantar suas hortaliças em qualquer período do ano. Beterraba, cenoura, alface, repolho, quiabo, berinjela e abobrinha são apenas alguns dos itens que ela colhe em seu terreno. “Isso sem contar as margaridas e rosas, que embelezam nosso PAIS; os girassóis, que nutrem a terra, além das plantas medicinais. É uma beleza!” entusiasma-se.

Toda sexta-feira, Sônia vai para a cidade vender seus produtos. Com muita disposição, ela entrega as sacolinhas com as encomendas feitas pelos fregueses. Mas o crescente aumento das vendas já levou as “Margaridas” a outra decisão importante: estão empenhadas em organizar uma feira, para que a distribuição das hortaliças produzidas no PAIS aconteça de modo mais eficiente. Todo esse progresso já teve vários efeitos práticos em sua vida. Um deles é que sua renda mensal já chega a praticamente um salário mínimo, com tendência de ampliação a curto prazo. Com isso, houve uma redução do valor de sua Bolsa família. Mas quem pensa que ela ficou chateada com isso se engana. “A Bolsa abaixou, mas, em compensação, estou ganhando mais”, compara a agricultora.

Atualmente, o projeto PAIS no Rio Grande do Norte está em fase de organização das vendas dos produtos. Se antes os agricultores acreditavam que só eventualmente conseguiriam comercializar suas hortaliças, hoje perceberam que ingressaram dentro de um mercado altamente promissor, ao oferecer alimentos sem agrotóxicos e que ganham cada vez mais espaço junto aos consumidores. Portanto, vender não é problema. Agora, é continuar produzindo, e ter a consciência de que a agricultura familiar pode e deve ser pensada dentro de uma visão empresarial.


Fonte: Revista Sebrae Agronegócios - nº 7 - Dezembro de 2007

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