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Reservatórios cheios animam agricultores no Semi-Árido


As experiências retratadas foram visitadas por um grupo de representantes das entidades parceiras dos programas da ASA

Foto: Arquivo ASA
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Jovem Valdeni mostra tanque de pedra

14/05/2008 -
As fortes chuvas ocorridas nos últimos meses têm trazido alegria e esperança para o povo do Semi-Árido brasileiro, apesar de terem causado problemas em algumas cidades da região. As chuvas intensas, que no sertão recebem o nome de trovoadas, foram suficientes para encher os reservatórios e deixar o sertanejo com água por um bom tempo. Além disso, as chuvas também transformaram a vegetação do Semi-Árido num oásis verde. A caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, está florida e a diversidade de borboletas, pássaros e sapos, que afloram nessa epóca do ano, revelam que a natureza está em festa! 

Em Sítio Barbado, no município de Venturosa, distante 249 km² do Recife, capital pernambucana, um tanque de pedra da comunidade já conseguiu acumular, com as chuvas deste ano, 300 mil litros de água, quantidade suficiente para as famílias ficarem abastecidas por um ano. Segundo a jovem Valdeni Maria Bezerra, de 21 anos, a água é usada para lavar roupa, cozinhar, dar de beber aos animais e aguar pequenas plantações. A casa onde Valdeni mora não tem cisterna. No entanto, dois dos seus cinco irmãos conquistaram esse reservatório a partir do P1MC e compartilham a água de beber com os demais integrantes da família. Segundo Valdeni, em alguns casos, ela também retira do tanque a água para o consumo humano, já que os animais não têm acesso ao local e a água é bem cuidada.  

Para facilitar o acesso à água, a comunidade Sítio Barbado desenvolveu um sistema simples de bombeamento. A água é puxada do tanque até a casa das famílias por uma mangueira, cuja ponta possui um coador de pano que filtra a sujeira. Além disso, a mangueira evita que as famílias entrem em contato diretamente com a água do reservatório.  

O tanque de pedra, também chamado de caldeirão, existe há 20 anos e foi construído pelos próprios moradores. Ele beneficia 10 famílias. Em 1999, a comunidade conseguiu ampliar o reservatório com o apoio da Secretaria Municipal de Agricultura, que doou o cimento. De acordo com Josimar Henrique de Almeida, da Comissão Municipal do P1MC e presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, a perspectiva da comunidade é ampliar a capacidade do tanque e construir uma horta comunitária. “Com a ampliação, no mínimo, dá para armazenar 700 mil lutros d’água”, disse.  

E o sonho da comunidade poderá, em breve, ser realizado a partir da chegada do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2),  da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA). Além de Venturosa, serão atendidos os municípios de Itaíba, Águas Belas, Tupanatinga, Buíque, Arcoverde, Pesqueira, Alagoinha, Pedra e Caetés. O Programa será executado na região pela Diocese de Pesqueira e sua chegada será celebrada com um evento no final deste mês. 

Enquanto isso, no município de Jataúba, a 120 km² de Caruaru, no agreste de Pernambuco, os agricultores da comunidade Sítio Sobrado comemoram a garantia do direito à água, a partir dos reservatórios construídos pela ASA. O agricultor e presidente da Associação dos Pequenos Agropecuaristas do Sítio Sobrado, José Quitério da Silva, 43 anos, pai de dois filhos, é um deles. Ele foi beneficiado com uma cisterna calçadão, construída na fase demonstrativa do P1+2. “Veio [a cisterna calçadão] num momento oportuno. A gente está muito feliz. São quatro famílias com as cisternas de 52 mil litros. Acabou nosso problema por água. Cabe, agora, a gente zelar, cuidar bem”, afirmou Seu José.   

Segundo o coordenador do Programa de Convivência com o Semi-Árido da Cáritas Caruaru, organização parceria da ASA, Tayroni dos Santos Lima, a escolha da comunidade se deu pelas dificuldades que as famílias enfrentam para ter acesso à água. “Estava acontecendo uma migração enorme dos jovens para Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, por falta de alternativa. A gente está aqui numa serra [ a 1.020 m de altitude do mar] e as pessoas podem pensar que deve chover mais. Não. A estrutura hídrica, aqui, é realmente precária”, disse. 

Além da cisterna calçadão, usada para produção de alimentos, Seu José e outras dezenas de famílias da região já conquistaram a cisterna do P1MC, usada exclusivamente para o consumo humano. Na sua propriedade, ele também planta milho e feijão, e tem uma pequena criação de caprinos, ovinos e aves. Com água, terra e condições para produzir, Seu José é um dos milhares de agricultores do Semi-Árido que mostra que é possível viver com dignidade na região, sem precisar migrar para outras cidades.  

“Eu tinha esse sonho, sempre acreditava que um dia poderia acontecer isso com a gente. Só que a gente tinha que se organizar, procurar conhecer alguma coisa. Aí, surgiu a primeira [cisterna, a do P1MC], depois veio a segunda [a cisterna calçadão, do P1+2] e, para nós, é ótimo”.  

Com água suficiente para plantar, Seu José se prepara agora para construir a horta onde pretende plantar pequenas hortaliças para o consumo da família. “Essa água vai ajudar bastante porque a gente vai plantar nossas verduras, que necessitam de pouca água e o resultado é imediato”, disse o agricultor. No futuro, ele também pretende ampliar a renda da família a partir da comercialização do excedente da plantação. “Se der, a gente também pode vender. Porque a gente visitou outras comunidades e o depoimento que a senhora nos disse foi que ela está vendendo”.  

Seu José nunca tinha ouvido falar na cisterna calçadão e foi através de um intercâmbio de experiência, em São José do Egito, no Sertão do Pajeú (PE), que ele conheceu a experiência e replicou em sua propriedade. A obra ficou pronta em 15 dias e foi construída com ajuda de um pedreiro e diversos serventes, que eram pessoas da própria família. “Teve dia que tinham oito pessoas trabalhando nessa cisterna, sem parar”, destacou.  

Além de armazenar água, o calçadão serve de espaço para secagem do feijão e de outros alimentos. Antes da cisterna, Seu José utilizava a própria terra para secar as sementes, porém o contato com o solo deixava o feijão amarelado e ele passava mais tempo para secar.   

O membro da Comissão Municipal do P1MC e diácono católico, Paulo de Sousa, ressalta que antes do trabalho da ASA não havia na comunidade uma perspectiva de organização. Com a chegada do P1MC, foi criada a associação comunitária e desde então as famílias vêm exercendo sua cidadania e conquistando seus direitos. “Também não podemos negar que o governo e algumas entidades privadas estão envolvidos com esse trabalho social aqui no Semi-Árido. Isso é muito bom”, ressaltou.  

As experiências acima retratadas foram visitadas por um grupo de representantes das entidades parceiras dos programas da ASA: Uma Terra e Duas Águas (P1+2) e Um milhão de Cisternas (P1MC): Igor Arsky e Leandro Borges, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Joaquim Pinheiro e Lílian Rahal, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Paulo França, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), Rogério Miziara e Claúdia Chaves, da Fundação Banco do Brasil, Larissa Barros e Michelle Lopes, da Rede de Tecnologias Sociais (RTS).  

Fonte: www.asabrasil.org.br

Por Gleiceani Nogueira - ASACom
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