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Tecnologias sociais são destaque na Orgânica 2008Entre as vantagens das TSs estão o fortalecimento de micro e pequenos produtores e o fornecimento de insumos naturais para a cadeia produtiva
27/03/2008 - Curitiba vai sediar, entre 30 de março e 1º de abril, a Orgânica 2008 (Feira do Complexo Agroindustrial Orgânico e Biotecnologias e Fórum Internacional de Agroindústria Orgânica), evento que pretende contribuir para a popularização do consumo de produtos orgânicos e gerar oportunidades de negócio no Brasil e no mercado internacional. Um dos destaques será o papel das Tecnologias Sociais para o fortalecimento de micro e pequenos produtores orgânicos e para a geração de um sistema de fornecimento de insumos naturais capaz de abastecer a cadeia produtiva. “Estamos apostando na produção diferenciada de uma massa de produtores e não de uma produção homogênea em massa. Isto implica avançar fortemente na difusão das Tecnologias Sociais”, diz o presidente da Orgânica 2008, Lutero Couto. O assunto será debatido na mesa redonda “Complexo Agroindustrial do Orgânico: contribuição da Tecnologia Social e economia solidária para geração de riqueza com inclusão social”, confirmada para a próxima segunda-feira (31/03), às 16h, no Expotrade Convention Center. Participarão do debate o gerente de Agronegócios e Territórios Específicos do Sebrae Nacional, Juarez de Paula; a diretora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Liana Carleial e a secretária executiva da Rede de Tecnologia Social (RTS), Larissa Barros. Desafios Segundo Lutero, o avanço no debate ainda esbarra na dificuldade de analisar a produção dada a heterogeneidade de subsetores agropecuários envolvidos, que vão desde a pecuária extensiva ao cultivo de hortaliças, passando pelo cultivo de cereais e frutas ou por processos de extrativismo ou coleta de mel, envolvendo manejos que não guardam semelhança de área e volume de produção entre si. Outro problema central, segundo ele, é que a difusão tecnológica e a assistência técnica ainda são limitadas no país. “Exportamos hoje cerca de R$ 100 milhões no setor, sobretudo com soja e açúcar. É menos de 1% do mercado mundial de orgânicos, enquanto a produção convencional responde por cerca de 20% a 25% do total mundial”, alerta. Enquanto isso, de acordo com a Agra Europe, empresa inglesa especializada em informações para a indústria alimentícia, o consumo de alimentos orgânicos tem crescido, nos últimos 10 anos, a taxas próximas de 25% ao ano na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, estimando 15% do consumo total de alimentos em 2005. Para enfrentar o gargalo, a Orgânica 2008 discutirá formas de acesso ao varejo no país, bem como a integração de toda cadeia produtiva orgânica entre cooperativas, agroindústrias e empresas nas diversas regiões do Brasil, gerando valor agregado e produtos de qualidade para o consumidor. Até o momento, são 17 mil inscrições, sendo que 2 mil compradores confirmaram participação no encontro. “O complexo agroindustrial orgânico envolve uma extensa cadeia produtiva, capaz de gerar renda a populações em áreas de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A justiça social proveniente dessa transformação faz surgir o consumidor consciente, que opta pelo orgânico por envolver sua atitude ecológica e social”, defende Juarez de Paula. Segundo ele, um dos grandes desafios postos para as Tecnologias Sociais no avanço do setor orgânico está na substituição de insumos agroquímicos por pesticidas naturais e biofertilizantes, de modo a atender toda cadeia produtiva. “A agroecologia ainda tem o desafio de mostrar que é capaz de produzir em grande escala sem o uso de agroquímicos, coisa que as tecnologias sociais podem garantir”, avalia. De acordo com Lutero, esta intervenção também é estratégica diante do perfil da produção de orgânicos, tendo em vista que 90% dos produtores são micro e pequenos. “A tecnologia ainda precisa se adequar a esta estrutura. A indústria de máquinas e implementos agrícolas, por exemplo, é toda voltada para a mega-produção”, reclama. Entre os exemplos desta distorção, Couto cita o mercado de tratores, que não apresenta ainda modelos de menor capacidade e de custos mais acessíveis capazes de atender as necessidades dos pequenos produtores. Financiamento Outra frente de ação, segundo Couto, está na revisão dos financiamentos agrícolas. Isso porque o financiamento para a produção sob manejo orgânico encontra dificuldade de se adaptar ao modelo de crédito agrícola brasileiro, baseado no financiamento da compra de insumos e de despesas de custeio típicas do pacote tecnológico dos anos 1970. Segundo estudo do próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), quando se dispensa a compra de insumos já tradicionais no mercado, diminui a movimentação do solo (uso de maquinário) e intensifica-se o uso de mão-de-obra, tornando o perfil de gasto significativamente diferente daquele a que estão acostumados os agentes financeiros e que constam das planilhas de cálculo homologadas pelas instituições que determinam o perfil de custeio da agricultura. Quando se trata de conversão de área de agricultura convencional para orgânica, as dificuldades são maiores: quase não há instrumentos creditícios que forneçam o capital de giro necessário à sobrevivência do produtor no período de conversão. Enquanto isso, 73% da área de produção orgânica na União Européia já recebeu, em 1998, alguma forma de subsídio direto e 88% das propriedades sob manejo orgânico foram apoiadas por programas agroambientais. “Precisamos urgentemente engendrar novos mecanismos de financiamento de mercado”, avalia Lutero. Segundo ele, esta mudança é fundamental tendo em vista a capacidade de expansão do setor diante da recente regulamentação da Lei nº 6.323, que estabelece critérios para o sistema de produção e certificação de produtos orgânicos. Preços Como os produtores e produtoras recebem prêmios sobre os preços de produtos convencionais, que oscilam em torno de 30%, pode-se dizer que os distribuidores praticam margens mais elevadas nos orgânicos do que nos convencionais. Isso pode refletir, segundo especialistas, tanto o poder de mercado dos distribuidores quanto um giro mais lento dos produtos orgânicos nas gôndolas, exigindo elevação de margens para manter a lucratividade por metro quadrado. Nos países europeus, onde esse mercado está mais desenvolvido que no Brasil, os diferenciais de preços são bastante inferiores. “O preço dos produtos parece ser um dos responsáveis pelo impedimento para que novas pessoas façam parte do grupo de consumidores”, analisa o sócio-fundador da Rio de Una Alimentos, Marco Giotto. Seja qual for a explicação, gera-se um círculo vicioso de acordo com estudo do BNDES: o consumidor aponta o preço dos produtos e a falta de informação como os maiores entraves ao crescimento do mercado no Brasil; o produtor reclama que o preço praticado na comercialização está gerando a elitização do seu consumo e a conseqüente exclusão dos consumidores de menor poder aquisitivo; e os comerciantes apontam a escassez de fornecimento como fator principal da estipulação de margens tão altas. “Certo é que não podemos falar só para guetos das classes A e B”, avalia Couto. Por Vinícius Carvalho – Jornalista do Portal da RTS |
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