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Estudo aponta as inovações necessárias para uma economia sustentável


Relatório “O estado do mundo”, produzido pelo Worldwatch Institute, destaca tendências e iniciativas para construção de novos modelos econômicos e de consumo

Foto: Idéia Socioambiental
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Relatório defende mudança radical na forma como a sociedade trata a relação entre a economia e os ecossistemas


16/07/2008 - Relatar os desafios que confrontam a humanidade e o meio ambiente como também os avanços que o mundo teve em responder a eles. Esse é a proposta da série de estudos “O estado do mundo” (do inglês, State of the world) realizada pelo WWI - Worldwatch Institute desde 1983. Em sua 25ª edição, lançada recentemente, o relatório aborda as inovações necessárias para uma economia sustentável que, se quiser prevalecer precisará conhecer tão bem o ser humano quanto às necessidades do planeta.

A proposta é inspirada na teoria de Lester Brown, um dos fundadores do WWI e do Earth Policy Institute. O economista defende a necessidade de uma radical mudança na forma como a sociedade trata a relação entre a economia e os ecossistemas. “Da mesma forma que o reconhecimento de que a Terra não era o centro do sistema solar abriu caminho para os avanços da astronomia, física e ciências afins, também o reconhecimento de que a economia não é o centro do nosso mundo criará as condições para sustentar o progresso econômico e melhorar a condição humana”, ressalta Brown no livro “Ecoeconomia – construindo uma economia para a Terra”.

Segundo Eduardo Athayde, diretor do WWI no Brasil, o objetivo do relatório “O estado do mundo” consiste em estimular as mudanças necessárias para uma economia sustentável, criando cenários para orientar a sociedade e apoiar o planejamento de governos, corporações, universidades e Ongs na construção de pilares de sustentabilidade.

“O raio de alcance dos relatórios do WWI tem aumentado sensivelmente. Antes eram muito usados pela academia e Ongs, depois passaram a freqüentar os gabinetes de governos influenciando políticas públicas. De uns cinco anos para cá têm sido muito usados por corporações. E hoje avidamente por fundos de investimentos que buscam cenários para investir”.

Quando há 25 anos iniciaram a produção da série de relatórios “State of the World”, os pesquisadores do Worldwatch Institute acreditavam que uma economia sustentável era possível, mas só podiam descrevê-la de forma abstrata. Hoje, já há indícios de mudanças e os pesquisadores têm condições de demonstrar como funcionará a nova economia.

“Terminamos esse projeto com a forte sensação de que algo grande, talvez até mesmo revolucionário, está prestes a nascer quando vemos líderes nos negócios, investidores, políticos e o público em geral criando a arquitetura das economias sustentáveis", afirma Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute na introdução do relatório “State of the world – 2008”.

A seguir, Idéia Socioambiental seleciona algumas das tendências identificadas pelos pesquisadores do Worldwatch Institute e apresenta iniciativas que estão contribuindo para criar uma economia sustentável.

Mudança comportamental

De acordo com o relatório, a construção de uma economia sustentável passa pela revisão e mudança de comportamentos, pois nenhuma capacidade tecnológica pode acompanhar as aspirações e o crescimento da população.

Para se ter uma idéia, se todos no planeta adotassem o estilo de vida norte-americano, a emissão anual de CO2 no mundo seria de 125 gigatons até a metade do século, quase cinco vezes o nível atual.

Mas por que as pessoas continuam a consumir? Por que não ganhar menos, gastar menos e ter mais tempo para os amigos e para a família? Esses são alguns dos questionamentos apresentados no relatório. Em resposta a eles, têm surgido em todo o mundo iniciativas baseadas no conceito de uma vida mais simples. Inspirado nos ensinamentos de Mahatma Gandhi, o movimento “Simplicidade Voluntária” é uma delas. Segundo Lester Brown, a revolução nos estilos de vida deve vir acompanhada pela revisão do sistema econômico. “Precisamos fazer mudanças pessoais envolvendo tudo, desde o uso maior da bicicleta e menor do automóvel, até a reciclagem dos nossos jornais diários. Porém, isso não seria suficiente. Temos que alterar o sistema. E, para fazê-lo, necessitamos de uma reforma fiscal, reduzindo impostos sobre a renda e aumentando impostos sobre atividades ambientalmente destrutivas, desse modo os preços refletirão a verdade ecológica”, defende.

Reestruturação da economia

Ainda segundo o documento da WWI, quando uma atividade cria o temor de sérios ou irreversíveis danos ao meio ambiente ou a saúde humana, medidas de precaução devem ser tomadas mesmo se a relação de causa-efeito não estiver completamente estabelecida cientificamente.

Pode-se, por exemplo, criar um mecanismo que minimize o dano ou compense as vítimas. Uma companhia que deseja introduzir um novo produto no mercado seria intimada a depositar uma soma apropriada, com base na melhor estimativa de futuros danos potenciais. O dinheiro circularia oferecendo suporte a outras atividades econômicas, exatamente como os fundos de depósito fazem, e seria devolvido (com juros) no momento em que empresa mostrasse que o dano não ocorreu ou foi menos severo do que o estimado.

Na esteira dessa tendência, muitos negócios também estão encontrando maneiras de “desmaterializar” a atividade econômica, reduzindo o seu tamanho físico. A locadora Netflix, por exemplo, começou a oferecer filmes online em 2007, diminuindo a necessidade de embalagem, lojas e deslocamentos para alugar um filme.

Negócios da natureza

Segundo o relatório, a incorporação dos ecossistemas na economia também pode apresentar novas oportunidades de negócio. Janine Benyus, autora do livro Biomimicry, destaca que a natureza oferece um amplo leque de produtos e serviços, normalmente não considerados pelos fabricantes e empresas.

A disciplina da “biomimicry” propõe exatamente a criação de design e processos para resolver problemas humanos inspirados nos modos como funcionam os sistemas da natureza.

Muitas empresas líderes no mercado, como Interface Carpets, Hughes Aircraft, Arup Engineers, DuPont, General Electric, Herman Miller, Nike, Royal Dutch Shell, Patagonia, SC Johnson, utilizam os princípios da biomimicry em inovação. Apontada como um símbolo de empresa sustentável, a Interface, por exemplo, criou a Entropy, linha de carpetes reciclados inteiramente inspirados na cobertura natural das florestas. Assim como na natureza, nenhum produto dessa linha é igual a outro. Depois de 18 meses do lançamento, a linha já como um das mais vendidas.

Outro bom exemplo é o da EcoCover Limoited. A empresa neozelandesa utiliza o conceito de que na natureza não há perda e que o produto final alimenta outros processos.

Novos parâmetros

Para caracterizar a nova economia sustentável os pesquisadores têm recorrido a Andres Edwards. O autor de “Revolução Sustentável” relaciona sete parâmetros necessários a todas as estruturas na transição para o desenvolvimento sustentável. São eles: administração, respeito pelos limites, interdependência, reestruturação econômica, distribuição justa, perspectiva “intergeracional” (decisões tomadas com base nos impactos para as gerações atuais e futuras) e natureza como modelo e professor.

Com base nessas premissas, estabelece os objetivos macro e micro econômicos necessários ao desenvolvimento sustentável (confira box abaixo).

Essa mudança também requer que o progresso utilize como medida melhorias no bem-estar das pessoas ao invés de basear-se na expansão da escala e atividade do mercado econômico. Nesse cenário, sistemas tradicionais de medida, como o PIB (Produto Interno Bruto) tornam-se insuficientes.

Athayde, diretor da WWI no Brasil, defende que o patrimônio natural também deve ser contabilizado. “Ecossistemas como a Amazônia, Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica, únicos no Planeta, funcionam como lastros na economia. Seus princípios ativos, preservados e usados de forma sustentável, representam royalties, patrimônio imaterial que pode ser adicionado a produtos, gerando maior valor econômico”, ressalta.

Descarbonização da economia

O relatório ressalta que o desenvolvimento de uma economia com menos carbono, um dos desafios do século XXI, requer a reestruturação da indústria de energia global por meio de novas tecnologias, economia modificada e políticas inovadoras.

Para que as emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa sejam reduzidas à metade até 2050, os países industriais precisarão cortar suas emissões em 80%.

Alcançar essa meta depende de três elementos na estratégia climática: capturar e armazenar o carbono contido em combustíveis fósseis, reduzir o consumo de energia através de novas tecnologias e mudança do estilo de vida, e substituir a energia utilizada por energia livre de carbono.

A questão central - reforça o documento - é sobre qual combinação de estratégias poderá minimizar substancialmente o custo do investimento e ainda promover um sistema de energia saudável e segura no longo prazo.

A construção de edifícios sustentáveis é um bom exemplo. Com melhores instalações, iluminação mais eficiente e bem utilizada, eles são um símbolo da ecoeficiência. O grande desafio está em adotar a energia renovável e colocá-la em um sistema que foi projetado em torno de combustíveis fósseis. A transição de uma tecnologia para outra será gradual. Após uma fase inicial, espera-se um avanço rápido das vantagens econômicas das energias renováveis.

Nos últimos cinco anos, a fabricação de turbinas de vento tem crescido 17% por ano e adaptações para energia solar, 46%.

Para Athayde o mercado financeiro tem papel importante na promoção de energias mais limpas. “As forças da comunidade financeira internacional estão sendo convocadas para aliar-se a esse movimento global. No novo cenário, as ações serão unidades de capital geradoras ou saneadoras da crise climática. As bolsas de valores podem ajudar a aquecer mais ou a equilibrar o clima no planeta”, ressalta.

Características da economia sustentável

Objetivos macroeconômicos

-promover o progresso genuíno baseado em múltiplas dimensões do bem-estar humano.

-nutrir uma rápida transição para uma plataforma de energia renovável.

-Distribuição eqüitativa de recursos e oportunidades.

-proteção e restauração do capital natural

-Valorização da economia local.

Objetivos microeconômicos

-certificação de produtos, operações e cadeias de suplementos.

-desperdício zero

-ecoeficiência

-bem-estar no local de trabalho

-valorização do convívio em comunidade

Fonte: State of the world - 2008

Por dentro do WWI

Criado em 1974, o WWI- Worldwatch Institute é uma organização de pesquisa independente reconhecida pela publicação de pesquisas interdisciplinares e apolíticas que estabelecem cenários sobre as tendências globais. No Brasil é associado à UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica.

Outras Informações

Sitio: http:/www.worldwatch.org.br

Por Redação da Revista Idéia Socioambiental

Fonte: Envolverde/Idéia Socioambiental


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