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Couro vegetal abre um novo ciclo da borracha na AmazôniaPrograma da Petrobras vai ampliar projeto Encauchados de Vegetais, que usa tecnologia social para garantir uma atividade sustentável para os povos da floresta
04/05/2011 - Há séculos que a sangria dos seringais da Amazônia alterna ciclos de abundância com derrocadas difíceis de esquecer, como a que deixou sem eira nem beira os soldados da borracha, na década de 1940. Não deixa de ser curioso, portanto, que justo ela, a memória, tenha um papel tão importante na retomada da atividade, que vem se consolidando com a produção do chamado couro vegetal. “Quem foi seringueiro um dia, nunca deixa de pensar na borracha. Sempre tem a esperança de voltar a exercer a atividade que tanto ama, por ser algo tradicional”, diz Francisco Samonek, professor da Universidade Federal do Acre. E se ele fala, a gente acredita, afinal, está envolvido com o assunto desde 1982, quando saiu de Curitiba, no Paraná, e chegou de mala e cuia à pequena Tarauacá, no Acre, para trabalhar com a borracha amazônica. Na época, comprou um seringal e montou uma cooperativa com os produtores locais para enfrentar a concorrência. A produção era vendida para indústrias de pneus, depois de passar pela usina de beneficiamento que o grupo havia instalado na região. Porém, apesar dos esforços, fatores externos impediram o avanço das atividades. “Com o desmonte do Estado pela política neoliberal implantada no início do governo Collor, a partir de 1990, as importações de borracha para abastecer as indústrias nacionais foram liberadas”, relembra o professor, citando a extinção da Superintendência da Borracha, órgão federal que apoiava a produção no Brasil, e da taxa que financiava as atividades do setor. “Sem uma política pública, os seringais nativos da Amazônia foram esvaziados. A produção da borracha ficou insustentável”. Ainda assim, Samonek não quis esperar sentado pelo milagre de mais um ciclo alvissareiro. Com uma experiência acumulada, foi atrás de alternativas para as mais de 100 mil famílias que permaneciam morando em áreas onde existiam grandes seringais. A saída, ele concluiu, era encontrar uma saída para agregar valor à base produtiva. Desenvolveu, então, junto com os indígenas e os seringueiros, uma tecnologia social conhecida como Encauchados de Vegetais da Amazônia, desenvolvida pelo Pólo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio) em 23 unidades de produção, envolvendo povos indígenas e comunidades extrativistas da Amazônia. Simples, barata e fácil de executar, a tecnologia não foi descoberta da noite para o dia. Na verdade, Samonek testou uma série de substâncias naturais até encontrar uma maneira diferente de transformar o látex nativo, colhido da seringueira, em borracha. O método tradicional causava danos à saúde, algo que o professor conseguiu eliminar ao criar um líquido vulcanizante, resultado da mistura do leite da seringueira com fibras vegetais, como a embaúba e o algodoeiro. Ele descobriu também, com a ajuda das comunidades tradicionais, um anticoagulante natural para conservar o látex. Para completar as etapas de produção, durante a pesquisa de mestrado em manejo de recursos naturais, na Universidade Federal do Acre, Samonek deu de cara com uma técnica de secagem do látex usada por índios colombianos, nos idos do século XVI, para fabricação de mantas e do saco encauchado, usado como bolsa de viagem. O processo permite a secagem do material pela evaporação em temperatura ambiente. Charada concluída, Samonek tinha em mãos uma forma sustentável de agregar valor ao látex que há séculos é colhido na Amazônia. Sem depender de indústrias e atravessadores, agora seringueiros, indígenas e ribeirinhos transformam o “leite” em encauchados, ou seja, em sacos impermeáveis feitos de látex, que, por sua vez, viram uma dezena de objetos feitos com o couro vegetal.
“Em 1994, já tínhamos dado o passo mais importante: a manipulação do látex por meio da sua pré-vulcanização artesanal. Com o domínio da tecnologia, hoje os extrativistas são capazes de produzir peças prontas para o mercado, de alto valor agregado, e não mais matéria prima bruta para atender grandes empresas, que pagam pouco”, diz. Enquanto o preço médio da borracha convencional sai por R$ 3,50 o quilo, cada quilo de borracha convertida em encauchado pode chegar a R$ 81. Certificada e premiada pela Fundação Banco do Brasil em 2007, a tecnologia social é constituída por mais de 10 processos produtivos, que unem conhecimentos tradicionais a processos industriais. As matérias-primas usadas, ou seja, o látex nativo, as fibras e os corantes vegetais, são colhidos por meio de um manejo comunitário, de baixo impacto, que ajuda na manutenção das áreas de floresta. A borracha produzida é usada na confecção de 20 tipos de produtos. É possível fazer lá mesmo, nas comunidades envolvidas no projeto, tapetes, toalhas de mesa, jogos americanos, bolsas e reproduções de folhas usadas como peças decorativas, entre outros itens. E é possível também fazer pinturas a mão em látex em tecidos e camisetas com grafismos indígenas. Além dos seringueiros do Acre, outras populações tradicionais fazem parte do projeto, como os indígenas e os ribeirinhos no Pará. Embora os dois últimos grupos, segundo Salmonek, tenham abandonado a atividade de extração do látex em 1990, não foi difícil conseguir a adesão à iniciativa tocada pelo Probio. Para isso, contou ponto o fato de o projeto buscar uma interação com a cultura local. “Os indígenas são muito hábeis e criativos. Qualquer projeto, para ser bem sucedido, precisa ter uma identidade indígena e ser construído junto com eles, respeitando o seu tempo, o seu modo de vida, seus costumes. Os encauchados proporcionaram condições de recuperar e manter traços culturais, como os grafismos e as pinturas, além de envolver toda a comunidade, homens, mulheres, jovens, idosos e pessoas portadoras de deficiência. A maioria das etnias hoje quer desenvolver o projeto”, detalha o professor, ressaltando que, atualmente, 45% dos participantes são formados por indígenas, proporção que, em breve, vai subir para 50%, por conta de uma nova fase do projeto, patrocinado pelo Programa Petrobras Desenvolvimento e Cidadania. Já no caso dos ribeirinhos do Pará, que vivem da coleta do açaí e do cacau e, por isso, passam grande parte do ano ociosos, o fato de a grande maioria das mulheres não ter fonte de renda ajudou na adesão à iniciativa. Atualmente, o projeto é executado em 23 unidades de produção, com 600 pessoas diretamente envolvidas, nos Estados do Acre, Pará, Rondônia e Amazonas. Deste total, 85 são agricultores familiares, 270 indígenas, 155 seringueiros, 90 ribeirinhos. E, embora não haja um levantamento da renda obtida, pelo fato de as próprias comunidades participantes terem o controle da atividade, Samonek diz que ela oscila entre R$ 50 a R$ 600 mensal por integrante. “Como eles são autônomos, cada um produz de acordo com a sua necessidade”, detalha. O projeto gerou oportunidades de trabalho e renda para os envolvidos e, com isso, produziu várias mudanças nas comunidades. “Indígenas que viviam apenas com a ajuda de programas sociais do governo federal, hoje tem uma alternativa de uma renda própria capaz de garantir acesso aos bens e serviços que a sociedade moderna oferece. O projeto é executado integralmente pelas comunidades. Eles se apropriam do conhecimento e assim são donos do próprio negócio. Produzem o que, quanto, como e quando querem. De acordo com as suas necessidades. Eles têm plena autonomia. Isto gera autoestima, garante empoderamento e permite o livre exercício de sua cidadania”, diz. Já para os seringueiros, ribeirinhos e agricultores familiares, que já possuíam algum tipo de renda, o projeto possibilitou a incorporação de toda a família no trabalho, especialmente da mulher.
A tecnologia social dos Encauchados é reaplicada com a supervisão da equipe técnica do Poloprobio, com parcerias locais e com a ajuda de multiplicadores das próprias comunidades, explica Samonek. “O Poloprobio recebe as demandas, elabora o projeto, viabiliza os recursos necessários para a sua implantação e promove o arranjo institucional para a execução do projeto. Implanta as unidades produtivas sem endividar as comunidades”, detalha, informando que, após um período mínimo de dois anos, durante o qual é feito um acompanhamento técnico, a comunidade é emancipada, mas, dependendo da necessidade de cada grupo, é possível prolongar a assistência. E o projeto vai se expandir graças ao patrocínio do Programa Petrobras Cidadania e Desenvolvimento. A organização, que já direcionava recursos para a assistência técnica de unidades localizadas em terras indígenas, vai também apoiar financeiramente a implantação de 24 novas unidades do projeto, a serem criadas nos municípios de Tarauacá e Brasiléia (AC), Autazes e São Gabriel da Cachoeira (AM) e Ilhas de Belém e dos municípios do Arquipélago do Marajó (PA). O patrocínio da Petrobras, que entra em vigor este mês e vai durar dois anos, vai beneficiar 1.225 indígenas, seringueiros, ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares de quatro Estados. No Pará, serão atendidos ribeirinhos, agricultores e quilombolas; no Acre, os povos indígenas Kaxinawa, Shanenawa e seringueiros; em Rondônia, o povo indígena Kaxarari e, no Amazonas, os povos indígenas Apurinã, Tukanos e Baniwa. Além disso, adiantou Samonek, o patrocínio vai garantir a manutenção da assistência técnica em todas as comunidades que participam do projeto. Mas a expansão não significa a inexistência de novos desafios. “Ainda há muito por fazer”, diz Samonek, citando a necessidade de certificar o látex como orgânico e, assim, conseguir atingir mercados mais sofisticados e exigentes. Outra meta é padronizar os produtos, algo importante para conseguir obter mais escala e não perder o mercado já conquistado. “Para isto precisamos obter fibras seletivas que gerem produtos mais estáveis. Estamos desenvolvendo mais matrizes para diversificar a linha de produtos. Estas pesquisas vêm sendo desenvolvidas por meio de um projeto financiado pela Financiadora de Estudos e Projeto - FINEP, em parceria com o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará”, diz ele, contando que outro projeto, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com a Universidade Federal do Acre, vem desenvolvendo os encauchados para uso na construção civil, por meio da construção de telhas, tijolos, argamassas e rebocos.
Por Karine Rodrigues, jornalista do Portal da RTS
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