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Comitê da RTS aprofunda discussão sobre conceito de renda


Também participaram representantes da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e do Soltec/UFRJ – Núcleo de Solidariedade Técnica. A próxima reunião será realizada dia 9 de setembro

Foto: RTS
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13/08/2008 – A relação entre geração de renda e Tecnologias Sociais foi o principal tema da reunião do Comitê Coordenador da RTS, realizada em Brasília, dia 12 de agosto. O grupo também trocou informações sobre o andamento do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) e ações ligadas à Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, conhecida como Sistema Pais. No período da tarde, os/as participantes da reunião foram à Cidade Ocidental/GO, onde conheceram duas experiências de reaplicação do Pais.

O sociólogo e coordenador do P1+2, Antônio Barbosa, foi designado para provocar o debate sobre renda. Sua reflexão baseou-se em questões iniciais, considerando os diversos contextos existentes no âmbito da RTS. Primeiramente, “é preciso pensar o que o conceito de renda representa para o conjunto das organizações que fazem parte da Rede”.

Também é necessário mensurar a renda de forma mais abrangente, não considerando apenas a renda monetária. No caso das Tecnologias Sociais, um conjunto de elementos deve ser observado: rendas não-monetárias, questões ambientais, peculiaridades de cada região, o valor do trabalho das famílias etc. O processo metodológico e a escolha dos indicadores, no ato de mensurar, são fundamentais.

O gerente do núcleo de gestão da avaliação da Fundação Banco do Brasil, Fernando da Nóbrega Júnior, complementou as reflexões, destacando que o instrumento para levantamento de dados ligados à renda deve ser simples, de fácil utilização: “Quando há muitas questões, as respostas nem sempre são consistentes. Numa certa altura, o entrevistado acaba dando qualquer informação para se ver livre daquela demanda”.

Na opinião do representante do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Flávio Cruvinel, a questão dos indicadores é problemática no Brasil e no mundo: “Ainda precisamos caminhar muito para medir, de forma estruturada, dados mais subjetivos que forneçam informações, por exemplo, sobre qualidade de vida. Ganhos com o trabalho podem significar perdas ligadas à saúde, educação etc.”.

Fernando também afirmou que, ao trabalhar com geração de renda, as instituições precisam considerar suas utopias e contradições: “Queremos trabalhar com base nos princípios da economia solidária ou contribuir com o sistema capitalista hegemônico? Mas se eu tenho desejos de consumo, por que o outro não pode querer um carro ou um eletrodoméstico? De forma pragmática, é preciso buscar soluções dentro desse contexto”.

Ainda sobre o que é renda, o analista da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Rodrigo Fonseca, perguntou ao grupo se essa é a capacidade de consumo da família, se significa possibilidade de acesso a serviços ou se geração de renda é algo ligado ao conceito de cidadania. “Precisamos lembrar que o trabalho é inerente à toda atividade humana. Portanto, o tempo de trabalho deve ser um dos indicadores quando se mensura renda. Além disso, os ganhos monetários, os ganhos não-monetários, elementos de cidadania e de sustentabilidade”, sugeriu.


Ao longo do debate, foram abordadas questões conceituais e referentes ao monitoramento de projetos. Além da geração de renda, o grupo discutiu a redução de custos. O gerente de agronegócios e territórios específicos do Sebrae Nacional, Juarez de Paula, sugeriu que a RTS se articule com profissionais da contabilidade a fim de buscar novas formas para medir riqueza. “Os atores têm dificuldade de contabilizar seus ativos, pois não dominam determinados conceitos”, refletiu. Juarez também propôs que a discussão sobre a relação entre geração de renda e Tecnologias Sociais tenha continuidade, no Portal da RTS, a partir de matérias e entrevistas sobre o tema.

Visita de Campo

Conhecer dois sítios, na Cidade Ocidental/GO, com reaplicação do Sistema Pais, permitiu, aos integrantes do Comitê Coordenador da RTS, perceber diferentes aspectos dessa Tecnologia Social: como se dá a continuidade da produção, hortaliças escolhidas pelos agricultores, o desafio da comercialização, a importância da assistência técnica, as articulações entre instituições e o empreendedorismo dos participantes.

A Produção Agroecológica Integrada Sustentável é montada em torno de um sistema de anéis, cada um destinado a uma determinada cultura, que complementa a que vem a seguir. O centro do sistema de agricultura familiar ecológica é utilizado para a criação de pequenos animais, como galinhas caipiras e patos. O esterco produzido pelas aves é utilizado para adubar a horta. O Sistema Pais possui baixo custo e tem, como premissa, o manejo orgânico da produção.

Ao todo, foram implantadas 30 unidades do Sistema Pais na Cidade Ocidental/GO, desde 2006. Na propriedade de seu  César e dona Tereza, a Tecnologia Social possibilita o cultivo de alface, repolho, brócolis, beterraba, cheiro verde, tomate, rúcula, espinafre, coentro, pimenta e pimentão. “A gente consome esses produtos e vende na feira. Mas ainda sobra”, explica dona Tereza.

A comercialização dos produtos ainda é um grande desafio. “Aqui, o caminho é participar da Feira do Produtor Local, que acontece toda quinta. Em outros espaços, há os grandes produtores e os pequenos ficam em desvantagem”, revela Lucas Mendes de Brito, técnico em irrigação e dirigente sindical dos trabalhadores rurais.

Atento às possibilidades de mercado, o produtor rural João Barros está conseguindo uma renda de R$ 200 semanais, com o Sistema Pais. Neste momento, o cultivo para comercialização está concentrado no morango e no tomate cereja. Em sua propriedade, a produção agroecológica chama atenção. “As pessoas ficam curiosas, vêm nos visitar. Eu digo que esse sistema melhorou muito a nossa forma de produção. Reduziu a quantidade de trabalho e até as pragas. Mas é preciso acreditar”.

Em sintonia, o técnico Lucas afirma que o sucesso do Sistema Pais depende do comprometimento do trabalhador: “Ele pode ser muito bem sucedido se fizer tudo corretamente. Estamos a 50 quilômetros de Brasília, que possui uma das maiores rendas do país e grande demanda por produtos de qualidade”.

Além de integrantes do Comitê Coordenador da RTS, participaram da reunião e da visita de campo representantes da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e do Soltec/UFRJ – Núcleo de Solidariedade Técnica. O próximo encontro do CC/RTS será realizado dia 9 de setembro.

Por Michelle Lopes – Assessoria de Comunicação da RTS

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