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Agricultores experimentadores defendem construção coletiva do conhecimento1º Encontro Nacional de Agricultoras e Agricultores Experimentadores do Semiárido trouxe Tecnologias Sociais de base agroecológica nas áreas de manejo animal, agrofloresta, quintais e roçados, comercialização, sementes e segurança hídrica. Evento foi organizado pela ASA, instituição que também integra a RTS.
Esta semana, Manoel aproveitou mais uma oportunidade de levar novos conhecimentos para casa. Realizado pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), em Camaragibe (PE), entre os dias 21 e 23 de setembro, o 1º Encontro de Agricultoras e Agricultores Experimentadores do Semiárido reuniu mais de 90 pessoas de dez estados com vistas ao intercâmbio de experiências agroecológicas baseadas no princípio da convivência com o Semiárido. Foram debatidas, a partir da experiência dos próprios agricultores, tecnologias simples, baratas e de fácil reaplicação nas áreas de manejo animal, agrofloresta, quintais e roçados, comercialização, sementes e segurança hídrica. “Essas Tecnologias Sociais são resultado do conhecimento e da experiência dos agricultores e agricultoras. Por isso, é fundamental valorizar os saberes tradicionais e incentivar processos participativos e de construção coletiva do conhecimento na agricultura familiar”, explica o coordenador executivo da ASA, José Aldo dos Santos. Além de aumentar a auto-estima dos agricultores e a sistematização de novos conhecimentos, diz, os intercâmbios permitem também a formação de uma preciosa rede de disseminadores, capazes de compreender com clareza as dúvidas e necessidades de outros agricultores. Isso sem falar na criação de unidades demonstrativas nas suas próprias propriedades, atiçando o interesse dos vizinhos na adoção de práticas agroecológicas e na diversificação de seus sistemas produtivos. “Esses agricultores conhecem os tipos de solo da região, o comportamento das chuvas, as sementes mais apropriadas para cada situação. O Semiárido tem características muito diferenciadas de clima, solo e relevo e eles sabem disso melhor do que ninguém”, argumenta Aldo. Prova de que o aproveitamento em escala dos agricultores na reaplicação de Tecnologias Sociais pode dar certo, diz, está na multiplicação de tecnologias de captação de água de chuva para a produção de alimentos pelo Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2).
Com investimentos de R$ 15,5 milhões oriundos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), ligada ao Ministério da Integração Nacional (MI), os recursos estão sendo aplicados pela ASA na construção de 1.497 unidades de tecnologias desenvolvidas e experimentadas pelos próprios agricultores do Semiárido, sendo 1.146 cisternas calçadão, 143 barragens subterrâneas e 208 tanques de pedra, beneficiando 3.369 famílias. Na fase demonstrativa do P1+2, apoiada pela Fundação BB e Petrobras, foram realizados 144 intercâmbios entre agricultores. Para o projeto piloto, estão previstos 26 intercâmbios interestaduais e 52 intermunicipais. Velhas necessidades, novas soluções Para o agricultor experimentador Abelmanto Carneiro de Oliveira, de Riachão de Acuípe (BA), as necessidades são as “molas da invenção”. Sem eletricidade em casa – que só viria a chegar em 2007 -, Abel inventou um liquidificador manual, rotacionado por uma corda, para conseguir fazer polpa com as frutas da propriedade de 11 hectares onde vive com a mulher e os cinco filhos. Em 2006, criou outra tecnologia capaz de facilitar a vida de milhares de famílias do Semiárido: a bomba d'água “malhação”, engenhosa junção de tubos de PVC, borracha, canetas e garrafas PET capaz de encher o tanque de casa e irrigar as hortaliças sem o uso de energia elétrica. O custo dos materiais, diz, não chega a R$ 60. “Para encher o tambor de 200 litros gastava uma hora só no balde, nos 150 metros entre o poço e a casa. Com a bomba são dez minutos, o que me dá mais tempo para outras coisas na roça”, explica o inventor. Entre elas, diz, estão experimentos com outras Tecnologias Sociais, como um aquecedor solar de água feito com garrafas pet e um novo modelo de cerca que demanda menos estacas. “Uma cerca de 20 metros geralmente tem umas 19 estacas. Hoje eu preciso de apenas três. Como uso menos madeira, fica melhor pra mim e para a Caatinga”, comemora. A preocupação em facilitar o próprio trabalho também serve de motivação ao agricultor experimentador Luís Eleutério de Souza, de 59 anos. Dono de 25 hectares no município de Cumaru, Agreste Setentrional de Pernambuco, seu Luís fez sua própria Máquina de Fazer Tela e criou uma Enfardadeira artesanal para armazenar a ração dos animais. Ele também criou uma Carroça de Tração Animal Basculante, que facilita o trabalho de descarregar cargas de ração, palma e milho. Isso sem falar no seu Abridor de Sacos, que o ajuda a encher os sacos de sementes e legumes sem precisar da ajuda de uma outra pessoa para abri-los. “O tempo que eu gastei foi para fazer essas coisas, mas depois a vida naquilo fica mais fácil sempre. Quem sai ganhando sou eu e quem mais pode usar esse conhecimento”, diz o agricultor, que também virou referência na implementação de sistemas agroflorestais na Caatinga. “É gratificante a gente fazer esse trabalho defendendo a natureza, nossos filhos, a nossa humanidade”, afirma. Além da criatividade, a observação da própria natureza também é matéria prima para a invenção, completa o agricultor experimentador Manoel Messias, morador do município de Porteirinhas, no norte de Minas. “Vi que quando usava a lanterna de noite, um monte de insetos vinha em cima da luz. Aí coloquei uma lâmpada bem na linha d'água da caixa de 30 mil litros em que produzo tilápia. Não é que os peixes também perceberam e passaram a comer os insetos?”, conta Messias, que diz não precisar mais comprar ração para os peixes. Feira de saberes Após o encontro, os agricultores e agricultoras experimentadores levaram suas Tecnologias Sociais para o edifício-sede da prefeitura de Recife, onde foi realizada a I Feira de Saberes e Sabores. Uma das experiências mais procuradas foi a Máquina de Fazer Tela desenvolvida pela Unidade Técnica Objetivando Práticas Inovadoras e Adaptadas (Utopia), baseada em Campina Grande (PB). Vendida por R$ 2 mil, a máquina permite fazer um metro de tela a um custo de R$ 3,25. No mercado, o preço médio do mesmo material, garantem os agricultores, não sai por menos do que R$ 15. “Com a máquina, o agricultor gasta basicamente para comprar o arame. Em coisa de 200 metros de tela feitos, a máquina já se paga”, explica Irenildo Bezerra, que calcula já ter vendido cem equipamentos do tipo para associações e cooperativas de agricultores. Outra novidade trazida pela Utopia é o biodigestor familiar. Construído a partir de canos de PVC, uma mangueira e uma caixa de 3 mil litros enterrada a 1,8 metros de profundidade, o sistema permite a geração de gás por meio da fermentação do esterco colhido na própria propriedade, abolindo a necessidade dos velhos botijões de gás. “O agricultor só precisa botar no sistema um balde de esterco com um balde de água por dia. O que sobra sai por gravidade do biodigestor e pode ser usado como adubo”, explica o carpinteiro e inventor da tecnologia, Irmão Urbano. Além da economia, explica, o sistema elimina o uso da lenha, evitando o corte de remanescentes da Caatinga. Olho no futuro O alcance destes conhecimentos para a sustentabilidade da agricultura familiar semiárida está longe de ser trivial, avisa a ASA. Existem hoje 4 milhões de estabelecimentos da agricultura familiar no Brasil, dos quais 2 milhões estão no Nordeste. Deste total, nada menos do que 1,4 milhão estão no Semiárido. Segundo relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o Semiárido será, ao lado da Amazônia, a região brasileira mais afetada pelas mudanças climáticas. No cenário pessimista, as temperaturas aumentariam de 2ºC a 4ºC e as chuvas cairiam entre 15% e 20% na região até o final do século XXI, com redução de até 70% no nível de água dos reservatórios subterrâneos. No cenário otimista, o aquecimento variaria de 1ºC a 3ºC, com redução de 10% a 15% no volume de chuvas. Os estudos revelam ainda que a região ficará vulnerável a chuvas torrenciais e concentradas em curto espaço de tempo, ao passo que haverá maior freqüência de dias secos consecutivos e de ondas de calor decorrentes do aumento na freqüência de veranicos, aumentando decisivamente o papel da captação de água de chuva e dos sistemas agroflorestais tanto para a produção de alimentos como para o combate à desertificação. “O processo de construção coletiva do conhecimento, a partir da sistematização, tem um valor enorme na estratégia da ASA de disseminar inovações e de construir um novo padrão de conhecimentos assentados numa ciência nova que é a agroecologia, capaz de valorizar e fortalecer a convivência com o Semiárido”, argumenta o coordenador executivo da ASA na Paraíba, Luciano Silveira. O desafio, avisa, é fortalecido pelo fato da agricultura familiar ser responsável por mais de 70% dos alimentos que vão parar na mesa do brasileiro, realçando o papel estratégico do segmento para a soberania alimentar do país. De olho neste futuro, a agricultora experimentadora Maria Joelma Pereira resolveu apostar nos sistemas agroflorestais graças a um intercâmbio promovido pela ASA. Após três anos de trabalho no sítio de sete hectares que toca com o marido em Cumaru (PE), a terra seca e compactada pelo peso do gado que pastava no local deu lugar a uma propriedade fértil e produtiva. Já são mais de 70 espécies de plantas com propriedades diferentes, incluindo adubadeiras como o feijão-guandu, a moringa, a leucena, o nim e o sombreiro. Para os animais, Joelma planta o sorgo e a palma. Entre as frutíferas, conta com mamão, laranja, banana, ciriguela, pinha, cajá, umbu e jatobá. Ainda no quesito segurança alimentar, são produzidos no sítio milho, feijão, jerimum, batata, macaxeira, fava e hortaliças como alface, tomate, couve e pimenta. A agricultora investe também na criação de animais de pequeno e médio porte, como abelha, galinha, peru, cabra e algumas cabeças de boi. “A sombra é boa para manter a umidade do solo e as folhas fazem um tapete natural de adubo sobre a terra. Outra coisa importante é diversificar sempre, para não correr o risco de perder tudo se uma praga atacar alguma planta”, ensina Joelma, antes de completar: “Eu costumo dizer sempre que a agricultura agroflorestal é a saída. Ou você preserva a sua terra, diversifica a sua plantação e preserva o meio ambiente como um todo, ou você vai acabar saindo da zona rural, porque não vai ter como se sustentar”. Cerca de 200 experiências agroecológicas de agricultores a Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS Outras Informações |
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