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Aquecimento solar para todos


Com o lema “um aquecedor solar para cada lar”, projeto gratuito propõe substituir parcialmente a energia elétrica consumida por 36 milhões de famílias brasileiras usuárias do chuveiro elétrico. Custos variam de R$ 250 a R$ 400 e instalação pode ser feita em casa com a ajuda de um manual baixado na internet.

Foto: Sociedade do Sol
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Chalés com ASBC no interior paulista


A meta é mesmo ambiciosa: substituir parcialmente a energia elétrica consumida por 36 milhões de famílias brasileiras usuárias do chuveiro elétrico, em casas e apartamentos. A aposta se dá em torno do Aquecedor Solar de Baixo Custo (ASBC), projeto gratuito de um aquecedor solar de água, de 200 a 1.000 litros, desenvolvido pela Ong Sociedade do Sol a partir de componentes hidráulicos de PVC encontrados em lojas de construção. Os custos de instalação variam de R$ 250 a R$ 400, - cerca de 10% do valor de similares encontrados no mercado – e pode ser inteiramente pago em até nove meses considerando uma economia média anual de R$ 388 na conta de luz para uma família de cinco pessoas.

A tecnologia, que já chegou a 13 mil lares brasileiros, está sendo desenvolvida desde 1999 pela ONG Sociedade do Sol, associada do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) do IPEN/USP-SP. Além de oferecer gratuitamente os manuais de construção pela internet, a organização ainda dá apoio sem cobrança quando o usuário tem dúvidas técnicas em sua montagem. “Decidimos apresentá-lo gratuitamente para disseminar ao máximo. A tecnologia, aliás, é sempre dinâmica. O manual já foi quase inteiramente reescrito com base em sugestões dos próprios usuários”, explica o coordenador do projeto, Augustin T. Woelz.

Funcionamento

A idéia básica do aquecedor solar é a de pré-aquecer a água para que sistemas térmicos assumam a função de calibradores da temperatura. Uma vez instalado, o ASBC começa a funcionar quando o sol incide sobre a superfície preta dos coletores. A energia absorvida transforma-se em calor e aquece a água, que diminui sua densidade e começa a se movimentar em direção à caixa d´água, dando início a um processo natural de circulação da água chamado de termo-sifão. Esse processo, avisa Augustin, é contínuo enquanto houver uma boa irradiação solar e reduz o consumo de energia pelo chuveiro em até 75%.

A água aquecida fica então armazenada num reservatório termicamente isolado que evita perda de calor para o ambiente. No ASBC, o sistema de apoio térmico é formado por um chuveiro elétrico ligado em série com um dimmer (controlador eletrônico de potência de um chuveiro elétrico), que permite o ajuste na elevação da temperatura da água do banho. “Com as peças, em menos de uma semana o aquecedor já está instalado e funcionando. O usuário padrão é o proprietário de uma casa popular, capacitado para serviços de construção ou reforma, mas a mão de obra para instalação também não é cara”, diz Augustin.

Um destes usuários é o pedreiro Jairo Rodrigues Alves, de 32 anos, que implementou o aquecedor na casa em que vivia com os pais na Vila Brandina, ocupação irregular que se espraiou pelo Parque Ecológico de Campinas (SP) a partir de 1985. “Pagávamos R$ 85 e a conta de luz caiu para uns R$ 50. Também tem mulher aqui que vive só, com três filhos, e quando paga água e luz quase não sobra pro mês. Para quem precisa juntar, é uma baita diferença”, diz Jairo.

Ele garante que não leva mais de “cinco horas de relógio” para instalar um aquecedor. Difícil, brinca, é ouvir as reclamações. “No início tinha gente que desconfiava. Hoje todo mundo quer, menos quem tem ‘gato’. Até tem gente que recebeu o aquecedor e veio aqui reclamando que a água estava esquentando demais”, diz.

Foto: Sociedade do Sol
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Protótipo do ASBC Integrado em estrutura metálica no laboratório Solar CIETEC/IPEN

A meta da ONG Plantando Paz na Terra, da qual Jairo foi monitor, é implantar agora mais 800 aquecedores para tornar a Vila Abrandina uma vila-solar. Nas 40 residências em que a tecnologia já foi instalada, a conta de luz caiu, em média, 35%. “Nosso objetivo é fazer uma linha de montagem envolvendo mais ou menos 15 jovens. E o Jairo certamente vai ser um dos monitores da turma nova”, conta a arquiteta e coordenadora do projeto, Marília Ferraz Ribeiro.

Monitores

Segundo conta da Sociedade do Sol, já estão em operação no país cerca de 13 mil ASBCs. A multiplicação é garantida por um grupo crescente de monitores voluntários que prestam consultorias para as comunidades de sua região na montagem dos coletores e instalação dos sistemas. Uma delas é a professora de matemática Neuza Bedoni Alves, de 54 anos. Desde 2001, quando um grupo de alunos conheceu o ASBC em uma excursão durante o auge do apagão energético, cerca de 200 alunos da quinta série do Colégio Santa Maria, na zona sul de São Paulo, montam o aquecedor todos os anos. “Eles (estudantes) pintam as placas, passam uma cola, ajudam o instalador a ligar alguns canos e se sentem fazendo. Já montamos uns 30 ASBCs desde então junto com as disciplinas de ciências e história”, conta.

O objetivo, garante, é levar os alunos a refletir sobre os benefícios ambientais do uso consciente da energia. Para se ter uma idéia, cada Kwh que deixa de ser consumido no chuveiro elétrico leva à redução de emissão de aproximadamente 0,6 Kg de gás carbônico em novas usinas termoelétricas acionadas por gás natural, segundo contas da Sociedade do Sol. Admitindo que pelo menos 75% da energia consumida no chuveiro pode ser substituída pela energia proveniente do sol, então 903 Kwh deixarão de ser consumidos anualmente da rede elétrica, em média, por uma família de cinco pessoas. Isto corresponde a uma redução de 541 Kg de CO2 / ano por família usuária de chuveiro elétrico. Se tomadas todas as famílias usuárias de chuveiros elétricos no Brasil, o potencial brasileiro de redução de emissões de CO2 pelo uso da energia solar em residências seria de aproximadamente 21.640.000 toneladas de CO2 por ano se admitíssemos que 100% da energia elétrica viesse de usinas termelétricas.

“A energia gasta nos chuveiros elétricos chega a 7% do total. Não podemos esquecer isso”, lembra Augustin. Para alcançar a ambiciosa meta de chegar a todos os lares brasileiros, o projeto do ASBC conta agora com o apoio da vitrine social da Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&A) da Bovespa, destinada a impulsionar projetos realizados por ONGs brasileiras. O projeto prevê a doação de Kits didáticos do ASBC a professores de ciências, em especial da região da Grande São Paulo, tendo como alvo levar à escola conhecimentos do bom uso da energia solar térmica. “Descobrimos que o melhor lugar para apresentar a tecnologia é a escola”, aposta Augustin.

Outras informações

ONG Sociedade do Sol - www.sociedadedosol.org.br
Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS
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