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A semente da PermaculturaA menos de 25km de Brasília, na chácara Asa Branca, os princípios da Permacultura ganham forma na criação de uma complexa área permacultural em quatro hectares de Cerrado denso. O projeto resulta da integração harmoniosa entre o homem e a paisagem por meio de Tecnologias Sociais nas áreas de água, energia, bioconstrução e cultivos orgânicos.
A menos de 25km de Brasília, na chácara Asa Branca, estes princípios estão ganhando forma na criação de uma complexa área permacultural em quatro hectares de Cerrado denso. Desenvolvida pelo engenheiro florestal e mestre em Desenvolvimento Sustentável pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, Cláudio Jacintho, a propriedade é referência para a difusão da Permacultura em Brasília, recebendo semanalmente estudantes e interessados para palestras e dinâmicas sobre o assunto. É lá também a sede do Instituto de Permacultura: Organização, Ecovilas e Meio Ambiente (Ipoema). Seguindo os princípios da Permacultura, o primeiro passo antes das obras realizadas na chácara, há cinco anos, foi o mapeamento dos processos naturais existentes na propriedade. O Cerrado exige seus cuidados, diz o permacultor. Só depois de identificadas as espécies, as variações topográficas e seus impactos no microclima, bem como o equilíbrio e a diversidade do ecossistema, foi que Cláudio deu início à construção do pequeno sobrado onde mora e planejou as atividades agroecológicas e florestais que desenvolve junto com a família. “O permacultor sabe ver onde o sol nasce e onde ele se põe antes de intervir no sistema. Como no Cerrado há muita exposição solar, isso faz toda a diferença”, conta. Definido o ponto ideal, Cláudio usou a terra da própria propriedade para levantar as paredes, tendo como pilares da casa uma gomeira e um carvoeiro, árvores típicas do Cerrado. A casa foi projetada para garantir o máximo conforto térmico, sem precisar de ar condicionado ou ventilador. O desenho arquitetônico também privilegia a luz solar, dispensando lâmpadas acesas durante o dia. Para o acabamento, foram usados ainda restos de obras e materiais reutilizados, como garrafas convertidas em potes e vidros de carro em janela. “Aqui o importante é aproveitar a luz natural, já que o Cerrado é um dos lugares mais luminosos do mundo. Como também é muito quente, o barro pode ser utilizado para erguer as paredes. É um excelente isolante térmico”, diz. Água de chuva A localização da casa, levando em conta a topografia, foi vital para a criação de um sistema de captação de água de chuva que escorre dos telhados e de um canal para captar da estrada mais próxima um milhão de litros de água durante a estação chuvosa. A água é armazenada em tanques e a filtragem também é resultado de um processo natural. A água da chuva passa por uma caixa de brita que retira a areia e a matéria orgânica. Depois vai para um reservatório, onde um filtro natural formado de brita, carvão vegetal em pó e plantas aquáticas torna a água própria para o consumo. Hoje, a capacidade de armazenamento é de 110 mil litros. Segundo Cláudio, a meta é chegar a 250 mil litros até o final do ano. “A água é fonte de vida. Não podemos desperdiçá-la. Apesar de termos duas estações muito bem definidas, o que chove no verão é suficiente para durar durante toda a seca”, explica.
O cultivo da terra, por sua vez, conta com duas hortas de 40 m2 e uma agrofloresta de 2.500 m2 de onde provém parte da alimentação da família (folhas, raízes e grãos). Na propriedade, latinhas de refrigerante reutilizadas já são usadas para identificar as mais de 60 espécies típicas do Cerrado catalogadas na chácara. As atividades também incluem o cultivo de cogumelo orgânico e a produção de mudas e de húmus. Zonas Todo o planejamento das atividades da chácara, diz Cláudio, é feito para alcançar a maior “eficiência energética” possível. Esta distribuição segue o princípio de separação por zonas estabelecido pela Permacultura, que coloca os elementos que necessitam de maior atenção humana mais próximos da casa. A Zona 0 é a casa, o centro do sistema. A Zona 1 compreende a área mais próxima, onde estão colocados os elementos que necessitam de cuidado diário: a horta, as ervas culinárias, alguns animais de pequeno porte e árvores frutíferas de uso freqüente. A Zona 2, um pouco mais distante da casa, envolve elementos que também necessitam de manejo freqüente, como frutíferas de médio porte e tanques pequenos de aqüicultura, por exemplo. A Zona 3, já mais distante, inclui culturas que ocupam mais espaço e não necessitam de manejo diário. A Zona 4 já é visitada raramente, e inclui a produção de madeiras e a produção de espécies silvestres comerciais. A Zona 5 é a última, mas vital para o sistema. É onde não há interferência, permitindo que exista o desenvolvimento natural da floresta. Sem esta Zona, explica Cláudio, não há a referência para a compreensão dos processos de equilíbrio natural que a Permacultura busca aplicar nas outras zonas. “Conhecendo os processos da natureza, sua biodiversidade e sua evolução natural, aplicaremos em nossos agroecossitemas os princípios evolutivos que regem a vida. Os mais importantes são a diversidade e a inter-relação”, diz Cláudio. Banheiro seco Levando em conta a importância central da água como fonte de vida, Cláudio também construiu em sua casa um banheiro seco. O banheiro seco, já utilizado por vários permacultores, consiste em um sanitário no qual o vaso não possui descarga de água. As fezes são cobertas com serragem, formando um material que pode ser compostado e utilizado na forma de adubo. O banheiro tem dois níveis. No térreo fica o chuveiro. No andar superior do banheiro seco ficam dois vasos sanitários, que terminam em câmaras de biodigestão. Cada uma é utilizada por um ano e meio, quando é fechada para se utilizar a outra. As fezes são então transformadas em adubo, utilizado por Cláudio na horta da chácara. O banheiro é aparentemente igual ao de qualquer sanitário convencional, com uma diferença: a parte oca do interior do vaso é construída de maneira que não se tenha contato visual com o dejeto. As câmaras de compostagem ficam abaixo do vaso sanitário. A ventilação, garantida por uma chaminé, faz com que não haja mal cheiro. O sanitário seco é uma tecnologia já utilizada em diversos países, que, segundo permacultores, transforma o que é visto como problema - os dejetos humanos - em adubo orgânico, recurso valioso para agricultura. É "seco" porque não utiliza água. E é "ecológico" por gerar adubo e não produzir esgoto, evitando a contaminação, no final do processo, da própria água. “É uma quebra de paradigma. Mais importante do que a economia de água é o que o banheiro seco significa”, defende Cláudio.
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