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Clipping - Portal Terra - Projeto multiplica por sete a renda no semi-árido


Projeto H2Sol leva tecnologia e avanço à comunidade isolada em Alagoas

Foto: Arquivo/Eco Engenho
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Projeto H2Sol, em São José da Tapera/AL

Um projeto realizado no sertão de Alagoas, o H2SOL, de comum acordo com os habitantes locais, mostra como é possível criar condições para o desenvolvimento sustentado de comunidades isoladas do semi-árido sem, necessariamente, imensos aportes de capital, como é o caso do projeto do governo federal de transposição do Rio São Francisco. Trabalho realizado pelo Instituto Eco-Engenho em Baixas, no Município São José da Tapera, a 220 quilômetros de Maceió, certamente vai retirar a cidade do topo da lista dos agrupamentos com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

O que começou, em 2004, com a construção de um poço em uma comunidade constituída por 40 residências e cerca 240 pessoas, com renda familiar mensal de R$ 90, se transformou em um excelente negócio que está gerando renda familiar mensal de R$ 657 e em um movimento de grande transformação cultural. O resultado do negócio é uma marca: Pimenta da Tapera. Em quatro anos, foram investidos no H2SOL cerca de US$ 160 mil.

Baixas, a 220 quilômetros de Maceió, não tinha água, energia e lazer. Parecia ter sido condenada ao atraso. Hoje, graças à criatividade e à tecnologia, avança sem e apesar dos governos local e federal. Nem mesmo a renda mensal familiar dos moradores podia ser acrescida pela bolsa-escola, pois o estabelecimento de ensino mais próximo está localizado em outro município, em Pão de Açúcar.

A vida da população começou a mudar em 2004, quando o Instituto Eco-Engenho decidiu construir um poço no local. "Achamos água salobra. No contato com a comunidade, resolvemos colocar a questão de como desenvolver o agrupamento de pessoas com recursos ambientais próprios, meio que fazendo um contraponto ao projeto de transposição do São Francisco, que não vai ajudar as comunidades isoladas", explica José Roberto Fonseca, presidente do Instituto Eco-Engenho -  Tecnologia Aplicada ao Desenvolvimento Sustentado.

A primeira idéia, segundo Fonseca, foi utilizar energia solar fotovoltaica para bombear a água do poço. O primeiro obstáculo foi convencer instituições e entidades religiosas de que era um método de utilização simples a partir de uma tecnologia sofisticada disponível. "As instituições pensavam em saídas tradicionais, a partir de conhecimentos já adquiridos, que não implicavam qualquer potencial de avanço", diz.

Vencido o primeiro obstáculo, ficou claro para os dirigentes do Eco-Engenho, durante as conversas com a comunidade, que era preciso usar a água para produzir capital, gerar renda. "De novo, foi preciso enfrentar as teses e posições já arraigadas, de que é preciso acumular água e alimentos. Que os agrupamentos de pessoas no sertão fazem escambo... Nós queríamos promover a inclusão social e a fixação das pessoas no campo a partir da informação e da tecnologia. A água era importante para gerar renda. Com renda, os habitantes podiam até mesmo comprar água", afirma o presidente do instituto.

Sem apoio dos governos estadual e federal, a Eco-Engenho foi buscar recursos no exterior. Teve sucesso com a Fundação La Guardia e Usaid. "Com outras organizações brasileiras apresentamos um conjunto de projetos que ganhou a concorrência promovida pela Usaid. Então pudemos construir um dessalinizador termossolar." Apesar do nome, um sistema simples. São dois poços. Em um fica a água salobra, que evapora e volta a condensar ao tocar em um teto plástico colocado sobre o poço. Dali, a água destilada cai em um canal de coleta e é enviada a outro poço, para uso. Na Califórnia, Estados Unidos, esse é um procedimento comum. Existem lá várias "fazendas de água".

Com o resultado do processo, a comunidade passou a contar com 200 litros de água destilada por dia. "Antes, para tê-la, era preciso se deslocar até barreiros distantes ou usar carro-de-boi para buscar água em pequenos açudes", conta Fonseca.

Com a questão da água resolvida, o desafio era como e o que produzir para conseguir melhorar o ganho dos moradores - a renda das famílias era proveniente da produção de vassouras de palha. A sugestão foi a hidroponia, processo de cultivo sem contato com o solo, que usa canaletas por onde a água circula continuamente com nutrientes, como fertilizantes químicos, com pequena perda por conta da evaporação.

"As instituições religiosas contra-argumentaram. Sugeriram a criação de uma horta comunitária. Dissemos que, estando a 220 quilômetros de Maceió, não haveria como escoar a produção de forma adequada. As alfaces e outros produtos chegariam à capital sem condições de uso. Os habitantes já tinham produção de mandioca, feijão, milho e outros itens para sustento e isso não havia sido capaz de tirá-los da miséria. Queríamos cultivar algo que permitisse agregar valor."

De acordo com o presidente da Eco-Engenho, a decisão foi pelo plantio de pimentas. "O valor agregado pode ser multiplicado por cinco depois de colocadas em vidro com vinagre e sal. Além disso, tínhamos como estabilizar o produto, que pode ser conservado por um ano." Foi então preparado um plano de negócios com custos de investimento, produção, beneficiamento. As variedades escolhidas foram pimenta dedo de moça, malaguetão, pimenta de cheiro amarela e pimenta biquinho, que não arde e é a última sensação nos restaurantes de grandes cidades. O modelo de produção não é cooperativado, mas familiar.

Mas aí entrava de novo um impeditivo para a produção em escala: era preciso mais água. "Construir novos poços com dessalinizadores poderia encarecer o processo. Então um velhinho lembrou que, numa serra próxima, a 1.200 metros de altitude, havia uma rocha com uma fenda de onde brotava água. Depois de alguns testes percebemos que era um grande reservatório subterrâneo. Fizemos drenagem e colocamos mangueiras para levar a água para caixas próximas das casas. Em uma semana, os dois reservatórios de 5 mil litros cada estavam cheios."

Mas ainda faltava a energia elétrica e um espaço para beneficiar a pimenta. A Fundação La Guardia doou um painel de 2,5 quilowatts de energia fotovoltaica. O passo seguinte foi construir um galpão multiuso, com recursos do Funcred, de Alagoas, chamado de Unidade de Beneficiamento Artesanal de Pimenta. No local também há TV e vídeo. "Com uma boa estratégia, água e energia solar, a comunidade pôde produzir, beneficiar os produtos, gerar renda e emprego e ainda ampliar as possibilidades de lazer."

Programa deve elevar IDH de Baixas

Foto: Arquivo/Eco Engenho
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Cultivo de pimentas

A produção de pimentas beneficia diretamente 11 das cerca de 40 famílias de Baixas, no município de São José da Tapera, a 220 quilômetros de Maceió. As demais ganham dinheiro ajudando na colheita e no beneficiamento do produto. O primeiro canteiro hidropônico foi construído com cem metros quadrados. A água com solução nutritiva para as pimenteiras circula por garrafas PET furadas e forradas com cinza de palha de arroz para fixar as plantas. Os construídos posteriomente têm 165 metros quadrados e são administrados não por uma, mas por duas famílias. "Nessa configuração, a renda gerada é suficiente para as duas", afirma o presidente do Instituto Eco-Engenho, José Roberto Fonseca.

Para ganhar escala de produção e regularidade, diz Fonseca, as cinco novas áreas de cultivo foram plantadas com espaços de tempo diferenciados - a produção de pimentas dura quatro meses e o intervalo entre as colheitas é de 60 dias. A produção estimada é 80 quilos de pimenta por mês, que resultam em cerca de 800 unidades (vidros com vinagre e pimenta) para comercialização.

A Fundação Cariplo informou ao Instituto Eco-Engenho que vai financiar neste ano a ampliação do projeto. "Nós calculamos o custo de cada sistema, que beneficia duas famílias, em R$ 10 a R$ 12 mil. Esse valor pode ser pago em dois anos com seis meses de carência", afirma Fonseca. No momento, a Fundação La Guardia analisa proposta de replicação do projeto em outras cidades do Nordeste.

Plano agora é ampliar ação do H2SOL

O projeto H2SOL/AMercSol, do Instituto Eco-Engenho, aprovado na Bolsa de Valores Sociais e Ambientais, em São Paulo, vai ganhar maior velocidade de implementação neste ano. Criado para facilitar a comercialização de pimentas produzidas e beneficiadas na comunidade de Baixas, no município de São José da Tapera, a 220 quilômetros de Maceió, em Alagoas, ele deve ganhar maior dimensão e se tornar, num futuro próximo, uma organização não-governamental (ONG). "Nosso grande marketing não é mais a pimenta, é a inclusão social", diz José Roberto Fonseca, presidente do Instituto Eco-Engenho - Tecnologia Aplicada ao Desenvolvimento Sustentado.

"Hoje temos mais de 20 pontos de venda da pimenta da tapera, resultado do projeto H2SOL. O produto, inicialmente distribuído em hotéis, restaurantes e pousadas, 'saiu' do controle. É possível encontrá-lo em padarias e até mesmo em lojas de autopeças", diz Fonseca. Pela comercialização, a organização fica com 15% do valor líquido do produto. "Agimos como um atravessador solidário. Nos interessa colocar o produto no mercado com o maior valor possível."

No futuro, com a replicação do programa H2SOL, Fonseca pensa na produção por outras comunidades de produtos diferenciados. "Um exemplo é a linhaça, que tem grande valor na área de fármacos, é de fácil plantio, processamento, permite agregar valor e pode ser estabilizada no local de processamento."

Após retirar 15% do valor líquido das pimentas comercializadas, os recursos restantes são repassados para a associação dos produtores, encarregada de comprar vinagre, vidro, sal. Ela cobra das famílias produtoras pela prestação de serviços. As famílias emitem nota como microempresas sociais.

De acordo com Fonseca, no momento, a Eco-Engenho procura patrocinadores para a publicação de manual com o projeto H2SOL. "O sistema pode ser replicado em outras comunidades e o plano de negócios que elaboramos embute até mesmo custos de possíveis financiamentos para sua realização."

O Instituto Eco-Engenho foi criado, em Alagoas, em 13 de julho de 2001, por um grupo de profissionais oriundos do Programa Luz do Sol, da Fundação Teôtonio Vilela.

O projeto da fundação se destinava fornecer energia solar fotovoltaica a famílias isoladas do sertão. "Nós conseguimos atender 2.700 domicílios", lembra Fonseca, engenheiro de pesca, que durante anos foi presidente de instituições como o Instituto de Meio Ambiente de Alagoas.

O Eco-Engenho é formado por um grupo eclético. "Temos arquitetos, biólogos, engenheiros, administradores, entre outros", conta Fonseca. Ele nasceu com o objetivo de ser uma ferramenta destinada a facilitar a comercialização das pimentas beneficiadas na comunidade de Baixas.

Por: Antonio Gaspar

Fonte: Portal Terra, em 23 de janeiro de 2008

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