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Tecnologia Social: respeito ao saber local

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Investir menos em máquinas e galpões e apostar mais na dinâmica das tecnologias sociais foi o que defendeu o presidente da Fundação Banco do Brasil, Jacques Pena, no 1º Fórum Nacional da Rede de Tecnologia Social (RTS). Pena abordou o papel das tecnologias sociais - produtos, técnicas ou metodologias, reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade.

“Para gerar trabalho e renda, é indispensável criar, desenvolver e reaplicar tecnologias sociais. Há várias experiências bem-sucedidas. Os pequenos precisam de crédito e poupança local”, argumenta. Quando da sua criação, há 21 anos, a Fundação Banco do Brasil voltou-se para projetos de Ciência e Tecnologia (C&T) e de desenvolvimento comunitário. Agora, os focos da instituição são educação, trabalho e renda, numa ação fortemente articulada à tecnologia social.

Protagonismo

“A partir de 2003, nos voltamos para programas estruturados, que articulam e implementam a reaplicação do conhecimento”, explica Pena. É fácil explicar esse ajuste de rota: no Brasil, os 10% mais ricos têm renda média de R$ 9,2 mil, contra R$ 76 dos 50% mais pobres. Diante desse quadro de desigualdade social, o presidente da Fundação Banco do Brasil defende que as tecnologias sociais sejam efetivas e reaplicáveis em escala. “Mas precisam ser desenvolvidas com a comunidade, que não deve esperar que alguém faça por ela. Transformação social passa por protagonismo e sinergia de conhecimentos”, pondera.

Essa postura remete à valorização da auto-estima, da cidadania e da educação. Lembrando que a geração de trabalho e renda no Brasil esbarra nos baixos índices de escolaridade, Pena falou da importância do diagnóstico participativo para garantir o desenvolvimento sustentável. Reforçou, ainda, que as agências de desenvolvimento e redes sociais precisam se fortalecer institucionalmente, sem perder de vista que transferência de conhecimento e inovações tecnológicas têm de respeitar o saber local.

A organização do Fórum está sob a responsabilidade da Abong. O evento tem o patrocínio da Caixa, Fundação Banco do Brasil, Ministério do Desenvolvimento Social e Ministério da Integração Nacional. O Fórum também conta com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, Finep, Sebrae, Petrobras, IICA, Instituto Ethos, Articulação no Semi-Árido Brasileiro, Rede GTA e Forproex.

O desafio de aliar tecnologia a desenvolvimento

O progresso científico e tecnológico, por si só, não tem relação direta com desenvolvimento econômico e distribuição de renda, na opinião do pró-reitor de Extensão da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Aelson Almeida. Para ele, tecnologia social é uma alternativa capaz de contribuir para a inclusão social de milhões de brasileiros, ao contrário das tecnologias convencionais.

Almeida, que nos últimos quatro anos foi analista do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), falou sobre Tecnologias Sociais e Políticas Públicas no 1º Fórum Nacional da Rede de Tecnologia Social (RTS). “A RTS já pode ser considerada um movimento, pela quantidade e qualidade das instituições envolvidas. Tecnologia social é tema vital para as transformações sociais. O desafio é consolidá-la como políticas públicas”, analisou.

Conceito político

O pró-reitor de Extensão da UFRB sustenta que tecnologia social tem um forte teor político, por estar centrada nas pessoas e em grupos sociais excluídos. “Esse conceito vem para ajudar a mudar a realidade das populações marginalizadas. As comunidades precisam ter seu espaço para participar do desenvolvimento do país”, defende.

Para Aelson Almeida, já é possível comemorar muitas conquistas, como prêmios institucionais de tecnologias sociais e conferências sociais do terceiro setor, que levaram à criação da Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social (Secis), na estrutura do MCT. “Trata-se de um desafio novo, pois, do ponto de vista das tecnologias alternativas, o órgão tem perfil conservador, voltado para a Academia e intelectuais”.

Contribuição

Almeida observa que a RTS tem contribuído para a difusão das tecnologias sociais e para a integração das organizações e dos investimentos. Entretanto, faz ponderações: “Precisamos ser racionais. Não são suficientes esses avanços. Ainda não existem políticas públicas para tecnologias sociais no país”. O pró-reitor aponta que não há atividade coordenada do governo e nem ações contínuas. “Isso se traduz numa vulnerabilidade institucional desse movimento. Somos favoráveis, mas ainda não conseguimos que a tecnologia social faça parte de uma agenda de governo, que deveria ser coordenada a partir do MCT”.

Mas Aelson Almeida é otimista. Lembrou que finalmente a agricultura familiar passou a ser considerada uma categoria produtiva e, com isso, ganhou novo alento. “Que recurso do Estado está reservado para a disponibilização de tecnologias sociais à população excluída? Recurso tem. Precisamos de projetos e programas e o momento é oportuno, com o início de um novo governo. O caminho é criar espaço de participação democrática nas instâncias decisórias das políticas públicas de C&T, reconhecendo seu caráter transversal e evitando a sobreposição de iniciativas e conseqüente pulverização de investimentos”, aconselha.

Nova ferramenta nas redações

Os cinco grandes jornais brasileiros – Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense, O Globo e Jornal do Brasil – praticamente ignoram as tecnologias sociais: responderam por apenas 8,5% dos 751 textos analisados pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), em 2004, num recorte de 58 jornais do país. A pesquisa foi realizada em parceria com Fundação Banco do Brasil e Petrobras. Esse é um dos dados reveladores que constam do livro Mídia Impressa e Tecnologia Social: uma não cobertura que pode dar frutos, lançado na 5a Expo Brasil Desenvolvimento Local.

“O livro pretende ser uma ferramenta para os/as jornalistas nas redações. Abre uma ampla discussão sobre o desenvolvimento que queremos para o Brasil”, observou Guilherme Canela, coordenador de Relações Acadêmicas da Andi. Lembrando que é papel da imprensa o controle social das políticas públicas, Canela deseja ver o tema tecnologias sociais inserido na cobertura diária dos veículos de comunicação.

Academia

A premiada jornalista, radialista e professora universitária, Mara Régia Di Perna, defendeu a utilização do livro nos cursos de Comunicação Social. “Não existe sensibilidade na Academia para temas sociais. Não podemos perder de vista que informação é serviço. Tem tanta sabedoria, tanto jeito de fazer. Temos de abrir espaço para outras vozes”, reforçou.

Coordenador de conteúdo e integração do jornal A Tarde, da Bahia, Ricardo Mendes observou que as tecnologias sociais estão intimamente relacionadas às questões centrais da cobertura da mídia nacional, mas não estão articuladas de uma forma sistêmica e, na opinião dele, o livro Mídia Impressa e Tecnologia Social: uma não cobertura que pode dar frutos pode ser uma ferramenta útil nesse sentido, ao dar a dimensão da urgência de políticas públicas para a solução dos problemas que afligem a sociedade brasileira.

“A reflexão em torno do que vem a ser tecnologia social tem de estar presente nas redações, para que a informação qualificada chegue a um maior número de pessoas”, pontuou Mendes, que criticou o predomínio das fontes oficiais no noticiário. Para o jornalista, os veículos de comunicação precisam construir estratégias de inserção de outras vozes e, nesse sentido, o livro que Andi, Fundação Banco do Brasil e Petrobras acabam de lançar será de grande ajuda.

Expo Brasil

Experiências de países lusófonos inauguram Fórum de Língua Portuguesa

O Fórum do Desenvolvimento Local em Língua Portuguesa foi uma das principais atrações da tarde do segundo dia da Expo Brasil. Numa sala lotada, os participantes puderem conhecer experiências de três países lusófonos: Portugal, Moçambique e Cabo Verde. O organizador da Expo Brasil, Caio Silveira, e o articulador do projeto Cooperar em Português, Francisco Botelho, ajudaram a mediar o encontro.

Caio Silveira iniciou a comunicação falando sobre os avanços do projeto Cooperar em Português, uma iniciativa financiada pelo programa Leader+ da Comunidade Européia, que tem como parceiros brasileiros a Rede Dlis e a Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits). Ele ressaltou a importância da consolidação, desde o ano passado, da plataforma virtual do projeto, que pode ser acessada no endereço www.cooperaremportugues.org .

Francisco Botelho, de Portugal, chamou a atenção para a importância de espaços como o da Expo Brasil para que esse tipo de troca, entre países de língua portuguesa, ocorram de forma sistemática e permanente. "Venho há quatro anos à Expo e virei sempre que puder porque é aqui que recarrego as minhas baterias. Encontro com outras pessoas que passam as mesmas dificuldades do trabalho diário de promoção do desenvolvimento local", disse, convocando todos os presentes a continuar fazendo da Expo um ponto de encontro de países lusófonos e de colaboradores do projeto Cooperar em Português.

Celina Cossa, de Moçambique, repetiu o feito do ano passado e emocionou a platéia com o seu depoimento. A ex-camponesa e vereadora da cidade de Maputo contou a sua história, que se mistura à fundação de uma cooperativa, há 20 anos. Hoje, presidente da União Geral das Cooperativas de Maputo, ela conta com orgulho que dos 6 mil membros atualmente, 95% são mulheres.

"O desenvolvimento não pára", sentenciou Celina, justificando o fato de ainda não estar satisfeita com os avanços que a cooperativa – que produz caju, cria frangos, educa e garante a assistência médica, entre muitas outras atividades - proporcionou ao povo de Maputo. Para ela, sempre haverá muito por fazer.

A representante da Federação Minha Terra, Regina Lopes, contou um pouco da história da formação das Associação de Desenvolvimento Local (ADLs) portuguesas. "O envelhecimento da população, a pouca capacidade de iniciativa e a concentração da população nos centros urbanos compunham o contexto em que começaram a surgir as primeiras ADLs", explicou.

Ela chamou a atenção para a necessidade que a Europa tem de se abrir para novas formas de trabalho com o objetivo de viabilizar o desenvolvimento local. "A Europa é um espaço forma, fechado e hierarquizado. Algumas formas de trabalho haviam sido esquecidas", disse Regina. Ela também explicou alguns princípios do programa Leader de apoio ao desenvolvimento territorial, tais como a presença do trabalho em rede, da parceria local e da multisetorialidade.

José Maria Veiga, coordenador do Programa Nacional de Combate à Pobreza de Cabo Verde, explicou brevemente algumas peculiaridades de seu país, qu é composto por 9 ilhas. Segundo ele, o Programa tem comissões regionais de parceiros que ajudam a organizar as comunidades para que tenham a consciência clara de seus interesses. "Ajudam no desenvolvimento das capacidades locais e a descentralizar a execução das atividades", disse.

Um dos pontos do programa destacado por José Maria foi a política de habitação social. "A aquisição da moradia influencia muito a auto-estima das pessoas. Quando não se tem casa, a preocupação maior é com a moradia. Quando se tem onde morar, a geração de renda já começa em outro patamar", analisou. E concluiu: "Quando os pobres estão organizados, sabem o que querem e conseguem resolver seus problemas".

A segunda parte do Fórum de Língua Portuguesa se dará na sexta-feira, às 9h, com apresentação da experiência das ADLs portuguesas e do depoimento de Guiné-Bissau.

Por Luísa Gockel

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