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Sônia Araripe, criadora da revista Plurale

 
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22/10/2010 - Há três anos, uma equipe de jornalistas se reuniu com o projeto de desenvolver um produto de mídia independente. O grupo, que saía da área de economia da grande imprensa, optou por uma estrada diferente na qual os caminhos exigiam uma reflexão transversal sobre a sustentabilidade. Neste mês de outubro, a revista Plurale completa o seu terceiro ano de circulação discutindo temas relacionados ao meio ambiente e cidadania. Com uma ampla rede de colunistas, correspondentes internacionais (Estados Unidos, Bélgica, Argentina e Japão) e diversos parceiros corporativos, a publicação confirma que o caminho escolhido foi acertado.

Em entrevista ao Nós da Comunicação, a editora e criadora da revista Sônia Araripe falou sobre a história da Plurale e das dificuldades que a mídia independente sofre no Brasil. A jornalista destacou a importância da criação de redes de relacionamento e a prática do conhecimento compartilhado. Além disso, lembrou a importância do apoio e respaldo do mercado, essencial no desenvolvimento de práticas sustentáveis. Em contrapartida, também apontou exemplos de campanhas de empresas que não condizem com o discurso.

Confira a entrevista:


Nós da Comunicação – No editorial da revista Plurale, você fala que “quando o projeto começava, planejávamos e sonhávamos com o futuro”. Como você compara a Plurale há três anos, ainda como um projeto, e a Plurale de hoje, já estabelecida com uma ampla rede?

Sônia Araripe – No início, o único ativo de nossa equipe (formada por profissionais como Carlos Franco, Isabel Capaverde, Nícia Ribas, Luciana Tancredo e Wilberto Lima Jr.) era o nosso nome e experiência profissional. E quando traçamos o planejamento começamos a pensar para qual área deveríamos ir. Havia uma tendência natural em migrar para a economia, porque essa era a nossa área. Mas percebemos uma overdose em produtos de economia e havia uma lacuna no lado da sustentabilidade. O espaço já tinha excelentes produtos estabelecidos no mercado, como a Envolverde, o Mercado Ético, o Carbono Brasil ou o Ideia Sustentável. Mesmo assim, acreditamos que também havia um espaço para a Plurale. Ao longo dos quase 20 anos de carreira da nossa equipe, o que mais gostávamos de fazer eram boas reportagens, contar boas histórias. O Brasil é um país em transformação, e a Plurale veio para ajudar a contar essa história. Apesar de dificuldades nesses três anos, felizmente encontramos grandes parceiros como Alusa, Coca-Cola, Embraer, Itaú, O Boticário, Ministério das Cidades, Petrobras, Pricewaterhousecoopers, Santander, TIM, Unimed-Rio e Vale. Essa rede confiou em nós e, então, foi possível caminhar.

Nós da Comunicação – A mídia independente no Brasil tem pouco espaço diante dos gigantes da comunicação, que criam uma concorrência muito forte e condições difíceis para plataformas independentes. Você concorda com isso? Como a Plurale ultrapassou essa dificuldade?

Sônia Araripe – Talvez a gente tenha tido sorte. Grandes redes já têm a sua vitrine, já são reconhecidas. Por outro lado, se você é independente, é preciso se integrar em alguma rede. Fizemos parceria com veículos da mídia como o próprio Nós da Comunicação e também alguns da mídia sustentável. Entre nós somos concorrentes, mas de alguma forma somos complementares. Cada um tem o seu foco, o seu nicho, mas tentamos romper essa barreira da grande mídia. Percebemos que nossa existência seria impossível sem construir essa rede. Isso é sustentabilidade e, se esse é o nosso tema, precisamos praticá-lo como um exercício diário. Hoje, ninguém é dono da informação, isso é um conceito antigo. Temos artigos de colunistas que viram conteúdo de aulas. Recebo e-mails de professores do Brasil inteiro e esse conteúdo passa a ser compartilhado na academia, nas empresas, nas ONGs. Isso é realmente praticar o compartilhamento do conhecimento. Se é para ser plural, para dividir, tem que ser para todos.

Nós da Comunicação – A mídia tem um papel fundamental na questão da sustentabilidade, que é o de levar a informação às pessoas sobre o tema. Como você avalia a atuação da mídia no Brasil e no mundo em relação à qualidade de informação que é passada ao público sobre assuntos ambientais?

Sônia Araripe – Eu acho de excelente qualidade. No Brasil tem o programa Cidades e Soluções, apresentado pelo jornalista André Trigueiro, o Repórter ECO, o canal Futura, que também tem desenvolvido um trabalho muito interessante. Isso só para citar exemplos nacionais, pois esse fenômeno é global. Eu sou contra a criação de nichos específicos na mídia sustentável. O tema é transversal, deixou de ser de pequenas oportunidades. Meus filhos estudam sustentabilidade na escola. Mas é preciso que essas iniciativas tenham apoio e respaldo do mercado. Nós encontramos parceiros alinhados com o que nós acreditamos, mas é difícil e isso precisa avançar. O mercado precisa compreender a relevância desse debate da sustentabilidade fortalecido e sólido.

Nós da Comunicação – A sustentabilidade está cada vez mais presente no discurso empresarial. Qual a importância do exercício deste conceito dentro do mundo corporativo, também pensando nas relações humanas dentro das empresas?

Sônia Araripe – Isso é um debate muito atual e sem volta. Acabou a história de “vamos brincar de sustentabilidade, de ser verdes e amigos da criança”. Agora é a hora de praticar. Não adianta o discurso sustentável se as relações trabalhistas, com fornecedores, com a comunidade, com a mídia e outros interlocutores forem absolutamente desumanas. O mundo moderno não permite mais um tipo de relacionamento que não seja, no mínimo, cordial. Nós participamos do Ciclo Comunicar Inovação e o que ficou provado pelos especialistas e consultores presentes é a necessidade de avançar, inovar – e as tecnologias vieram para isso. Mas é preciso manter as bases mínimas de civilidade, não se pode falar desse tema sem você ser cordial, sem a empresa pensar no todo e realmente praticar. Não existe o discurso sem a prática.

Nós da Comunicação – Você poderia identificar exemplos de campanhas ou iniciativas que não combinam o discurso com a prática?

Sônia Araripe – Algumas campanhas recentes, infelizmente, são exemplos claros de greenwashing. Outro dia levei um susto ao assistir a novela "Passione", da rede Globo: era um merchandising falando do plástico verde, recentemente lançado pela Braskem, que é controlada pela Odebrecht. Mas a tal campanha foi realizada justo em uma fábrica que, de sustentável, não tem nada. Há desvio de dinheiro, lesam o Fisco, há casos de assédio moral, lançaram uma bicicleta que causou acidentes, fizeram uma parceria falsa com concorrentes etc. Enfim, pior exemplo não há. Recado certo em local errado. Lancei um post em nosso blog sobre isso: "Sustentável para quem, cara pálida?".

Outra campanha nos chamou a atenção. A multinacional Nestlé lançou também no horário da mesma novela, o mais caro da grade televisiva, a "Galera animal". Os criadores alardearam que era para falar de sustentabilidade para todos os públicos de uma forma clara e não só para crianças. Mas não dava sequer para entender o recado dos animais. O áudio era péssimo e os personagens eram um tigre de bengala branco, hipopótamos e até uma aranha falando com sotaque francês! Agora estão vendendo os bichos de pelúcia para as crianças. Mas se o objetivo era atingir as crianças talvez fosse melhor falar dos nossos brasileiríssimos ararinha azul, do macaco bugio, do tamanduá, do lobo guará... Ou pensar em outra ação realmente mais efetiva pela sustentabilidade. Se tiver uma palavra que é chave no sucesso da sustentabilidade, é esta: dialogar, ouvir os outros. Parece que, hoje em dia, todos sabem falar, mas poucos conseguem ouvir.


Por João Casotti

Fonte: Nós da Comunicação

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