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Oded Grajew, empresário e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social

 
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Oded Grajew

Oded Grajew,
empresário e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

O Movimento Nossa São Paulo foi lançado, em maio de 2007, a partir da percepção de que a atividade política no Brasil, as instituições públicas e a democracia estão com a credibilidade abalada perante a população. Para dar um salto adiante, o Movimento trabalha para comprometer, desde já, sociedade e governos com uma agenda e um conjunto de metas a fim de oferecer melhor qualidade de vida para todos os habitantes da cidade. Já são mais de 500 organizações da sociedade civil articuladas em torno dessa nova institucionalidade, que é apartidária e inter-religiosa, não tem presidente nem diretoria e se constitui e expande na forma de rede. Em entrevista ao Portal da RTS, o empresário Oded Grajew, fundador da Abrinq, do Instituto Ethos e do Movimento Nossa São Paulo, fala sobre os desafios desta articulação e sobre como o movimento pode se espraiar para outras cidades em todo o Brasil.

Rede de Tecnologia Social - Acabamos de eleger milhares de prefeitos e vereadores. Como levar à sociedade o tamanho da sua responsabilidade quanto ao futuro destas administrações?

Oded Grajew -  Primeiramente, precisamos cobrar dos candidatos eleitos sua responsabilidade, acompanhando o Executivo e o Legislativo ao longo de toda a gestão. Todos eles são servidores públicos para servir ao público. A maioria deles certamente vai querer seguir a carreira política, então é importante avaliar a compatibilidade entre o que eles de fato fizeram e o que prometeram, para que nos próximos pleitos possamos acumular conhecimento sobre cada um deles e fazer um melhor voto.

Para isso, precisamos de novas ferramentas. Quando um acionista quer acompanhar uma empresa ou um médico quer acompanhar um paciente, ele precisa olhar os indicadores. O mesmo vale para a cidade. O Movimento Nossa São Paulo já apresenta um conjunto grande de indicadores. Também trabalhamos com pesquisas de percepção. Como a população sente a gestão pública? Afinal, quando a gente vai ao médico, ele não olha só os seus indicadores. Ele também pergunta como você está se sentindo. Outra coisa é acompanhar o orçamento público, porque é lá que se decidem as coisas e onde podemos avaliar com mais precisão se as prioridades escolhidas são aquelas que de fato satisfazem a população. E como no Brasil os orçamentos são apenas autorizativos e não mandatórios, é preciso acompanhar também a execução orçamentária.

RTS - E como a sociedade pode contribuir para a gestão?

Grajew -  A sociedade pode colaborar também com idéias e propostas para a melhoria da cidade. Isso vai desde ações contra o aquecimento global até a discussão sobre o salário de professores, por exemplo. Uma das coisas que fizemos de importante em São Paulo foi aprovar uma mudança na lei orgânica do município que obriga qualquer prefeito, de agora em diante, a apresentar, num prazo de 90 dias, um plano de metas quantitativas para todas as áreas da administração pública e todas as regiões da cidade. Esta é uma novidade fantástica, até porque a sociedade pode se manifestar sobre as metas em audiências públicas e acompanhar o andamento das ações ao longo de todo o ano. Isso obriga o gestor público a ter metas, objetivos e uma gestão mais transparente, ao mesmo tempo em que permite à sociedade acompanhar e influenciar estas ações.

RTS - Como multiplicar esta experiência para outras cidades?

Grajew -  Primeiramente, precisamos publicizar o que estamos fazendo. Montamos em São Paulo uma grande rede com quase 550 organizações que estão aqui, mas que também têm conexões em outras cidades do Brasil. Isso ajudou a difundir a idéia. Também lançamos este ano a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, que se conectam entre si, trocam informações e fazem encontros periódicos. A Rede acaba facilitando essa troca de experiências e estimulando outras cidades a fazer o mesmo. Rio de Janeiro e Belo Horizonte já avançaram e também ajudarão a difundir estas iniciativas. Tudo o que a gente faz está disponível para todos. Nossos indicadores, todos os processos que fizemos, o estatuto da secretaria executiva, tudo isso disponibilizamos com prazer.

RTS - O movimento reúne empresas, movimentos sociais e universidades. Como afinar a participação de tantos “desiguais”?

Grajew -  Primeiro, as lideranças que levam adiante o processo têm de ter respeitabilidade e credibilidade na sociedade. Também é importante definir claramente a missão e a visão do movimento. A participação de quem quer que seja é voluntária e nenhuma organização é obrigada a se submeter a nada do movimento. Ela luta por seus objetivos e faz seus trabalhos, mas passa a ter oportunidades de se conectar com outras para agregar força política e levar adiante o que está fazendo. Isso sem falar que todos têm liberdade total para colocar suas questões e propostas. Na verdade, o que fazemos é abrir portas para a sociedade se manifestar. O que precisamos entender é que há valores comuns que contam com o apoio de todos, como a cobrança por um ar mais limpo e maior transparência da gestão pública. É, em si, um processo de avanço da democracia participativa.

RTS - Como despartidarizar esta discussão?

Grajew -  Se um movimento como esse apóia determinado candidato ou partido, ele acaba no mesmo dia. Já cada pessoa ou instituição faz o que quiser. Se uma ONG X quiser apoiar algum candidato, ela está absolutamente livre para isso. O que não pode é o movimento fazer isso.

RTS - E quais  vícios partidários a sociedade pode ajudar a desconstruir?

Grajew -  Um deles é, independentemente da qualidade de determinado projeto, se posicionar com relação a ele a partir de um ótica situação x oposição. É muito comum alguém da oposição desqualificar e sequer avaliar um projeto se ele vem da situação - e vice-versa. Outro vício é o aparelhamento partidário da administração pública. A cada nova gestão, mudam milhares de pessoas, enquanto na Europa são meia dúzia de pessoas. Por fim, temos esta nossa enorme descontinuidade das políticas públicas. Se assume uma pessoa de outro partido, ela desqualifica, destrói e não dá continuidade a nada da antiga gestão, independentemente se eram bons ou maus os projetos.   

RTS - Qual o papel das empresas nesta direção? Afinal, são elas as grandes contribuintes de campanha.

Grajew -  As empresas têm uma grande influência sobre os políticos, até porque praticamente 100% do financiamento eleitoral vem da iniciativa privada. Esta influência pode ser ruim ou boa. Ruim se ela colocar, como acontece na maioria das vezes, o político a serviço de seus próprios interesses. Por outro lado, ela pode exercer essa influência exigindo do político honestidade, transparência, compromisso com as áreas sociais e o desenvolvimento sustentável. As empresas têm muitos recursos financeiros, econômicos e tecnológicos que precisam ser usados em benefício da comunidade.

RTS - E como garantir a democracia dentro destes movimentos?

Grajew -  As lideranças têm, primeiro, que garantir a credibilidade do movimento, o que significa não se partidarizar, garantir que os valores sejam preservados e não sucumbir diante de eventuais insucessos ou tentativas de sedução por parte do governo. E à medida que você se torna mais forte politicamente, aumentam também as tentativas de cooptação.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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