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Lucy Legan, Diretora da área de educação e co-fundadora do Ecocentro Ipec
14/05/2008 - No coração do Brasil, na cidade de Pirenópolis/GO, está instalada uma das instituições mais respeitadas, na área de permacultura. Trata-se do Ecocentro Ipec (Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado). Surgiu em 1998 visando ser um modelo em sustentabilidade para o Cerrado brasileiro, apresentando inovações nas áreas de habitações sustentáveis, segurança alimentar, manejo ecológico da água, tratamento de resíduos e geração de energia renovável. Uma de suas Tecnologias Sociais mais conhecidas é o sanitário compostável Húmus Sapiens que, por não utilizar água, também é conhecido como “banheiro seco”. A proposta foi vencedora regional Centro-oeste do Prêmio Finep de Inovação Tecnológica – categoria “Inovação Social”, em dezembro de 2007. Lucy Legan, diretora da área de educação e co-fundadora do Ecocentro Ipec concedeu uma entrevista sobre as ações do Ipec. A seguir, os principais trechos. Michelle Lopes - Como anda a instalação de sanitários compostáveis, também conhecidos como “banheiros secos”, Brasil afora? Lucy Legan – Vale a pena lembrar quando tudo começou. O Ipec foi a primeira instituição a construir um sanitário compostável, no país, em 1999. Eu sou australiana e, lá, há muitos sanitários compostáveis. O governo implementou esse tipo de banheiro no parque nacional, por exemplo. No Brasil, a reação inicial das pessoas foi de estranhamento. Eles pensavam que iria cheirar mal, por ser um sanitário com utilização de serragem em vez de água. Finalmente, quando usavam o banheiro, ficam muito impressionadas. Depois de construirmos dois sanitários compostáveis, no Ipec, passamos a falar sobre os benefícios dessa tecnologia: a economia de água, a produção de adubo e o fato de ser uma alternativa para locais onde não há não tratamento do esgoto. Para a produção do adubo, basta deixar a serragem e os dejetos juntos, durante seis meses num local fechado, que é parte do próprio sanitário. Ao abrir, após esse período, inserimos minhocas para que aquele material se transforme no próprio húmus. Ao longo dessa trajetória, uma iniciativa muito importante para nós foi a instalação de sanitários compostáveis na segunda edição do Fórum Social Mundial, em 2002. Foi uma iniciativa independente, por parte de estudantes que passaram pelo Ipec. Nossa instituição não teve participação na construção. Atualmente, vários grupos fazem cursos no Ipec. E sabemos de pessoas que construíram sanitários secos de Norte a Sul do país, de Bagé, no Rio Grande do Sul, ao Rio Branco, Acre. ML - Então, a senhora trouxe a proposta do sanitário compostável quando veio da Austrália para o Brasil? Lucy – Sim. Ainda na Austrália, eu era uma típica urbana. Mas, há 17 anos, quando fiquei grávida, comecei a pensar que uma nova pessoa chegaria ao mundo e iniciei reflexões sobre uma série de assuntos. Por exemplo, a presença de agrotóxicos nos alimentos. Era preciso mudar. Passei, então, a estudar bastante sobre a permacultura. Meu marido, André, é brasileiro e, em 1998, viemos passar férias no país. Compramos um terreno, em Pirenópolis/GO, e começamos a trabalhar. Eu até escrevi uma carta à minha família, dizendo que voltaria em breve. Estamos aqui até hoje. Eu admiro muito os talentos do povo brasileiro. Atualmente, o Ecocentro Ipec é reconhecido como um dos melhores exemplos de permacultura do mundo. Isso ocorre principalmente graças à energia e criatividade dos jovens brasileiros. ML - É possível implementar o sanitário compostável em um ambiente urbano? Lucy – Claro, sobretudo em cidades como Brasília, onde há períodos de forte seca. O governo poderia colaborar, aprovando leis sobre o assunto, determinando que os edifícios em construção tivessem um design adequado para a existência de um banheiro sem utilização de água no sanitário. Em vez de produzir esgoto, as pessoas produziriam adubo. É algo que já está ocorrendo na área rural. Outra alternativa seria instalar uma descarga dupla, para xixi e fezes. Como o primeiro não exige tanta água, seria uma economia de litros e litros. Já existe esse tipo de orientação em alguns países. O governo também poderia implementar leis para engenheiros, a fim de que, em seus projetos, eles fizessem uma previsão de sistemas que aproveitem a água de chuva. ML - O sanitário compostável faz parte dessa proposta muito mais ampla, que é a permacultura. Como definir esse conceito? Lucy – A permacultura integra todos os aspectos da sobrevivência e da existência de comunidades humanas. Engloba economia associativa, sistemas de captação e tratamento de água, tecnologia solar e bioconstrução. É um sistema holístico de planejamento para a permanência humana no planeta Terra. Na área de habitação, por exemplo,há um design próprio para a construção ecológica. Se constrói uma casa, onde ela é parte do meio ambiente, não está contra o meio ambiente. É preciso dialogar, com jovens e crianças, sobre essa proposta, pois eles são o nosso futuro. O interessante é que, quando eles visitam o Ipec, não têm problema algum com o sanitário compostável.
ML - Como o Ecocentro Ipec trabalha com jovens e crianças? Lucy - Temos o Programa Habitats Sua Escola Sustentável. Percebemos que muitas escolas públicas, no Brasil, tinham apenas concreto. Nossa proposta é bem prática: quebramos o concreto, de fato, e criamos novos espaços, considerando as sugestões das crianças. São elas que decidem o design, por exemplo. As crianças também têm facilidade para fazer o jardim. E como dedicam parte de seu tempo a essa atividade, passam a valorizar, a cuidar. Se um pisa na grama, o outro chama atenção. Isso não ocorre quando os jardins são feitos sem a participação das crianças. Na verdade, elas nem chegam até lá. Ainda como uma ação do Programa, quatro escolas públicas, em Pirenópolis, estão implementando energia renovável, com cata-vento, painel solar, aquecedor solar e sistema para secar frutas. ML - E quanto às publicações, sobre essa temática? Lucy – Eu tenho livros publicados na área de educação. Um se chama “A Escola Sustentável – eco-alfabetizando pelo meio ambiente”. Há, ainda, a série “Soluções Sustentáveis”, composta por quatro livretos sobre construção natural, agricultura familiar e uso da água. Estamos concluindo um livro voltado para o público feminino. Pelo menos 65% dos objetos de nossa casa são escolhidos por mulheres. Nós somos as principais responsáveis pelo consumismo. Os homens fazem outro tipo de destruição, mas a destruição feminina acontece no shopping. É preciso dialogar sobre a questão da sustentabilidade com as mulheres. ML - Alguma consideração final? Lucy - Gostaria de lembrar que sustentabilidade não é uma proposta alternativa. Se, em casa, você recicla seu lixo, reduz o consumo de água ou utiliza energia solar, já tem práticas sustentáveis. As pessoas podem dar esses passos, no ambiente urbano. São pequenas ações. Mas, se feitas por todos, trazem grandes resultados. É preciso ter coragem para a mudança. Às vezes, a prática de uma única pessoa estimula um grupo, o coletivo. Por Michelle Lopes – Assessoria de Comunicação da RTS Os principais trechos dessa entrevista também foram publicados na Seção Incluir da Revista Primeiro Plano – Nº9 |
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