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Juarez de Paula, gerente de Agronegócios e Territórios Específicos do Sebrae Nacional
28/03/2008 - Gerente de Agronegócios e Territórios Específicos do Sebrae Nacional, Juarez de Paula participa da Rede de Tecnologia Social desde sua fundação. Em entrevista ao Portal da RTS, ele apresenta as expectativas do Sebrae com o lançamento de edital destinado à difusão de Tecnologias Sociais, comenta os desafios de reaplicação em escala de TSs e debate os critérios para a definição de territórios prioritários para investimentos na área.
RTS - O Sebrae lançou um edital destinado à difusão de Tecnologias Sociais. Como será o processo? Juarez - O edital, em primeiro lugar, tem como finalidade apoiar projetos de difusão de Tecnologia Social com foco em agronegócios. Esta foi uma escolha que fizemos por duas razões: a primeira é que nosso foco são atividades produtivas e a segunda é que a maioria das Tecnologias Sociais (TSs) mais experimentadas, com finalidade de geração de ocupação e renda, estão voltadas para a população rural. Entendemos esta como uma primeira chamada, experimental, que servirá para testar o interesse das organizações da sociedade civil em apresentar projetos dessa natureza, até porque nosso objetivo é ampliar o escopo desta chamada de projetos no futuro. RTS - Que tipos de projeto o Sebrae espera ver apresentados? Juarez - Escolhemos quatro linhas de projetos. Nos projetos de uso de biocombustíveis, nossa expectativa é receber, por exemplo, propostas na linha do aproveitamento do óleo vegetal já utilizado em frituras para a geração de energia elétrica e de produção de biodiesel para o auto-consumo. Temos também o uso de biodigestores para geração de biogás a partir de dejetos animais e o reaproveitamento de resíduos como manipueira (resíduo das casas de farinha), bagaço de cana e outras palhas na geração de energia. São projetos que podem ser experimentados na escala da própria propriedade rural, reduzindo custos e aumentando a produtividade. Outra linha são sistemas de produção com aproveitamento de resíduos. Você pode pensar, por exemplo, na utilização destes resíduos para compostos orgânicos, biofertilizantes e ração animal. Temos muita produção de matéria orgânica não aproveitada que pode ser reutilizada por diversos usos. No campo das oleaginosas, por exemplo, você pode esmagar o caroço, aproveitar o óleo e reutilizar depois o resíduo para a produção animal. Uma terceira modalidade são os chamados sistemas de cultivo agroecológicos. Nessa linha esperamos receber projetos com soluções na área de agroecologia. Entre eles estão o próprio Pais, que é um projeto com o qual o Sebrae está envolvido desde o início. É uma oportunidade para que outros Estados possam também fazer a reaplicação do sistema, tendo em vista que no primeiro projeto mantivemos uma certa priorização na região Nordeste, em função do interesse dos nossos parceiros. Por último, temos o aproveitamento sustentável de produtos de floresta. Foi, na verdade, uma tentativa de abrir um foco para a Amazônia. A idéia é incentivar um extrativismo sustentável que leve em conta as necessidades das espécies nativas se reproduzirem. Como extrair determinado fruto ou semente respeitando seu ciclo de reprodução? Um dos focos que nos interessa mais é a utilização destes frutos e sementes para a extração de óleos e essências que possam servir de base para a indústria de fármacos e cosméticos. É um setor que agrega muito valor ao produto e no qual não são necessárias grandes quantidades, o que favorece a sustentabilidade da floresta. RTS - O edital exige parcerias entre as ONGs e Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), proponentes dos projetos, com organizações de produtores locais. Por quê? Juarez - A proposta é trazer quem detém uma determinada tecnologia para perto de quem está efetivamente na produção rural, até porque o que queremos é apoiar a aplicação da tecnologia na produção e não apenas o desenvolvimento da pesquisa. O que interessa ao Sebrae é o fomento à pequena produção è pequena atividade econômica. Queremos com isso a tecnologia como instrumento para a produção e não apenas em seu sentido de desenvolvimento da ciência pura. Não que isto não seja importante, mas existem outros órgãos com esta finalidade. RTS - Como tem avaliado a incorporação do conceito de Tecnologia Social à estrutura executiva do Sebrae? Juarez - Considero esta uma das maiores missões da RTS: trazer o tema da Tecnologia Social para a agenda das instituições. No caso do Sebrae, acho que isso tem sido muito significativo. Até poucos anos atrás, falava-se pouco nisso no Sebrae. Interessante é que nossa diretoria não colocou a representação do Sebrae, dentro da RTS, vinculada à área de tecnologia, o que seria o mais natural, mas dentro de uma área de atendimento coletivo, o que aproximou o tema dos projetos que apoiamos em todo o país. Acho que essa foi uma escolha correta do nosso diretor técnico Luiz Carlos Barboza, que enxergou a oportunidade de aproximar o tema da Tecnologia Social com a produção e a gestão dos projetos. Fizemos já a introdução do tema em diversos eventos de capacitação do Sebrae e chegamos a publicar duas edições da revista Sebrae Agronegócios inteiramente dedicadas ao tema. Nosso desafio é mostrar às pessoas que aplicações práticas estas tecnologias podem ter no mundo dos negócios. RTS - A repactuação do Plano de Ação da RTS para 2008 destacou a reaplicação em escala de Tecnologias Sociais. Quais os principais desafios? Juarez – Para que tenhamos esta reaplicação em escala é preciso que tenhamos investidores que aportem também recursos em grande escala. Então antecede a isso o convencimento de novos parceiros, o que passa necessariamente pelo desafio da difusão do conceito de Tecnologia Social. Se você considerar que a RTS é uma instituição que está no início de um processo de consolidação e difusão deste conceito, com apenas três anos de existência, acho que é um tanto precipitado cobrar a reaplicação em escala de qualquer que seja a TS. O que precisamos é de um período para construir projetos demonstrativos que dêem maior visibilidade às tecnologias. RTS – Por quê? Juarez – A partir do momento em que ela se tornar uma referência, naturalmente surgirão parceiros interessados em ampliar seu uso. É um processo que exige tempo. Temos no Brasil o problema da cultura imediatista. Pensamos só no curto prazo e isso é comum em todas as atividades. É lógico que sempre poderemos fazer muito mais e é isso que temos de perseguir sempre. Não sou contra o debate que estabeleça metas ousadas que nos impulsionem para maiores resultados. O exercício do planejamento exige isso, mas sem nunca perder de vista o médio e longo prazo e essa capacidade de entender que as coisas estão acontecendo, que há avanços e que eles precisam ser comemorados. RTS – Como definir esta escala de reaplicação? Juarez – Considero dois elementos mais importantes. Um primeiro limite a ser considerado é o limite do mercado. Se quero difundir uma tecnologia de geração de renda, seja qual for, tenho que olhar também quanto o mercado comporta da produção daquele produto e se não corro o risco de gerar uma concorrência predatória, reduzir o preço do produto e inviabilizar aquilo como negócio. Outro aspecto é o ambiental. Toda atividade humana provoca impacto. Mesmo sendo uma TS que busca melhorar a qualidade de vida das pessoas, precisamos considerar os impactos do uso desta tecnologia e a capacidade da natureza em absorvê-los. Há um exemplo muito simples destes riscos. Posso estimular a prospecção de poços no semi-árido para a captação de água, mas, pelas características físicas da região, teremos uma grande concentração de sais que pode trazer esta água salinizada. Se utilizo esta água em escala e indiscriminadamente na produção corro o risco de salinizar o terreno. Precisamos entender que, às vezes, uma solução pode virar um problema dependendo da escala. RTS – E no que se refere à definição de territórios prioritários? Juarez – Num momento em que queremos fortalecer a RTS, ampliar o conceito de TS e trazer novos investidores, acho que quanto mais abertura a gente der, melhor. Nesse momento os territórios prioritários podem aparecer como uma barreira de entrada e um elemento de restrição. Por outro lado, concordo com os critérios que vêm sendo adotados. Se precisamos priorizar este ou aquele território, que sejam aqueles com maior carência: as periferias, no caso urbano, e as regiões norte e nordeste no caso rural, que são áreas com menor dinamismo. O que eu acho discutível é o recorte. RTS – Como assim? Juarez – Se aproximarmos a lente, encontraremos bolsões de pobreza em qualquer território do país. O IDH mais alto do Brasil, por exemplo, é o do Distrito Federal, só que lá há muita miséria também. As médias estatísticas escondem essa realidade. Acho que essa territorialização pode, às vezes, impedir a adesão de instituições que estão interessadas em participar, mas que podem eventualmente não compor estes territórios priorizados. Por que não concentrar os investimentos em áreas de pobreza de um modo geral? Isso significaria ampliar a capacidade de reaplicação e a adesão de novos parceiros em todo o país. Por Vinícius Carvalho – Jornalista do Portal da RTS |
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