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Valquíria Lima, coordenadora executiva da Articulação do Semiárido (ASA)

 
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25/03/2010 - Organização integrante do Comitê Coordenador da RTS, a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) acaba de completar dez anos. Em entrevista ao Portal da RTS, a coordenadora da ASA em Minas Gerais, Valquíria Lima, fala sobre as novas perspectivas da convivência com o Semiárido, bem como as principais conquistas de um dos maiores fóruns de organizações da sociedade civil do Brasil. Atualmente, mais de mil entidades dos mais diversos segmentos, como igrejas católicas e evangélicas, ONGs de desenvolvimento e ambientalistas, associações de trabalhadores rurais e urbanos, associações comunitárias, sindicatos e federações de trabalhadores rurais fazem parte da ASA.

A entrevista foi concedida diretamente do VI Encontro Nacional da Articulação no Semi-Árido (EnconASA), que está sendo realizado em Juazeiro (BA). Com o tema ASA – 10 Anos Construindo Futuro e Cidadania no Semiárido, o encontro inclui uma série de atividades como visitas a experiências; uma Feira de Sabores e Saberes; painéis; grupos de discussões, plenárias, assembléias; momentos culturais e oficinas temáticas relacionadas à terra, água, segurança e soberania alimentar, economia popular solidária, educação contextualizada, auto-organização e direito das mulheres.

Rede de Tecnologia Social - A ASA está completando dez anos. Qual o saldo até aqui?

Valquíria Lima - Uma das grandes contribuições que a Articulação no Semiárido Brasileiro tem dado é pautar a convivência com o Semiárido na pauta política brasileira. Essa capacidade tem influenciado as políticas públicas. Hoje já não se fala mais em combate à seca, inclusive dentro dos governos em todas as suas instâncias. Isso é mérito desta articulação entre os agricultores e agricultoras e as nossas organizações. Todo trabalho que está sendo feito pela ASA em termos de democratização da água no Semiárido também é extremamente significativo. O que queremos agora é que todas as famílias do Semiárido tenham capacidade de armazenar água de chuva para o consumo humano e para a produção de alimentos.

RTS - Qual o papel do conhecimento dos próprios agricultores e agricultoras do Semiárido para atingir esse objetivo?

Valquíria - É fundamental. É baseado nessa experimentação e nesse saber local, que vem da adaptação das comunidades ao próprio clima do Semiárido, que a ASA baseia todas as suas ações. É lógico que esse saber local passa por um processo de sistematização metodólogica e por possibilidades de melhorar essas tecnologias experimentadas localmente por meio de um novo diálogo com as organizações da sociedade civil e as universidades. Veja que isso já resultou em uma política pública de acesso a água para milhares de famílias, tanto para o consumo humano como para a produção de alimentos. Nós invertemos a lógica. A solução não sai mais pronta de dentro das universidades, dos gabinetes dos ministérios ou mesmo das organizações. São os agricultores e agricultoras os grandes idealizadores de tudo isso.

RTS - É a primeira vez que se pretende resolver o desenvolvimento do Semi-Árido a partir de experiências populares?

Valquíria - Pelo menos numa escala territorial desta natureza, certamente sim. Já chegamos a mais de 340 mil cisternas de captação de água de chuva construídas e mais de dez mil implementações de tecnologias de armazenamento de água para a produção de alimentos. São muitas pessoas mobilizadas e debatendo a convivência com o Semiárido a partir do local, dentro de um processo pautado, organizado, implementado e monitorado pela sociedade civil. 

RTS - Qual o desafio de coordenar a execução de programas desta envergadura no âmbito da sociedade civil?

Valquíria - Há dez anos, quando a gente ousou dizer que tinha condições de construir um milhão de cisternas no Semiárido através da sociedade civil, nos chamaram de loucos. É claro que não é fácil implementar uma ação dessas, que parte de uma proposta ampla de política pública de acesso à água. Conseguimos chegar aqui justamente porque a metodologia não se restringe apenas a garantir água. O que queremos é desenvolver as famílias, as comunidades locais, os municípios, os territórios e as regiões em torno de uma proposta integrada para o Semiárido brasileiro.

Temos inúmeros desafios para fazer essa execução, sobretudo porque não temos hoje um marco legal apropriado para que a sociedade civil possa fazer a execução dessas polítcas com recursos públicos de forma menos burocrática. E o apoio do Estado brasileiro é fundamental. Essa parceria que a ASA tem feito com o governo federal e alguns governos estaduais tem mostrado que essa união de esforços é possível. De todos os recursos que a gente gerencia, em torno de 80% chegam diretamente na ponta.

RTS - Como a questão fundiária se inscreve no desafio do desenvolvimento do Semiárido?

Valquíria - Este Econasa tem apontado exatamente isso. Precisamos avançar muito no debate da terra. A gente costuma dizer que nosso problema não é a seca, mas a cerca. Temos latifúndios enormes no Semiárido brasileiro e sem reforma agŕaria capaz de atender de fato as comunidades tradicionais e camponesas o desenvolvimento da região ficará extremamente limitado. É o momento fundamental de pautarmos a função fundiária no Semiárido, até porque não basta apenas as famílias terem água para beber e produzir sem terra onde platar os alimentos para sua segurança alimentar e também para comercialização.

RTS - A ASA reúne mais de mil organizações. Como fazer prosperar esta articulação em rede?

Valquíria - Acho que é focar uma ação extremamente concreta e com um significado muito forte na vida das famílias que é democratização da água no Semiárido. Essa bandeira nos unifica com mais força e foi ela a capaz de nos levar a sair apenas da reflexão e da discussão do modelo. Ousamos fazer implementação em larga escala. Isso deu unidade, representatividade e capacidade de mobilização não só para as organizações, mas também para as famílias do Semiárido.

RTS - Quais os desafios para o futuro?

Valquíria - Nosso grande desafio será sempre fortalecer a agricultura familiar e toda sua diversidade, inclusive trazendo com mais força a discussão sobre as mudanças climáticas. Há estudos que já mostram os efeitos do aquecimento global sobre o Semiárido. Áreas semiáridas tendem a ficar áridas e teremos mais dias sem chuva com chuvas intensas em períodos curtos – que já é o que está acontecendo. As enchentes, no ano passado, foram episódios muito fortes no Ceará, no Piauí, no Maranhão e outros estados da região que sempre viveram com a escassez da água. Precisamos saber como nos antecipar a isso, avançando na prevenção e na diminuição destes efeitos. Isso passa também por discutir uma nova matriz energética para a região. Temos dias longos e muito sol, que podem ser bem mais aproveitados. É o que queremos fazer.

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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