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Suellen Mello, responsável pela Estação Digital da associação indígena Apitikatxi
O reconhecido conhecimento em informática não é suficiente. Características como um bom relacionamento com a comunidade, habilidade para mobilizar grupos, e iniciativa para buscar oportunidades são essenciais para os Educadores Sociais que atuam nas Estações Digitais. As estações são espaços comunitários de informática implantados pelo Programa Inclusão Digital, da Fundação Banco do Brasil. Desde 2004, já foram instaladas 282 estações em todo o País ? um investimento de R$ 10,4 milhões. A estação, composta de elementos como 10 computadores com web cam, impressora, quadro e mesas, possibilita o salto de milhares de pessoas para a inclusão e, assim, para a conquista de mais visibilidade no mercado de trabalho. Em 2010, estão previstas as inaugurações de 65 estações. No entanto, a estrutura física da Estação Digital só funciona como um trampolim a partir do trabalho do Educador Social, mais conhecido como "professor" nas comunidades onde atua. Além de ministrar aulas de iniciação à informática, o educador é responsável por toda a administração da estação, que inclui o relacionamento com atores sociais locais e a identificação e motivação de estagiários e voluntários, entre outras atividades. No caso do educador social ser voluntário, ele recebe uma bolsa de R$ 300 mensais, por 12 meses, para custeio de transporte e alimentação. A Fundação Banco do Brasil capacita dois educadores sociais por estação, em curso com carga horária de 40 horas, oferecido no período de uma semana. A capacitação reúne educadores de diversas estações em período de inauguração, que trocam experiências e recebem conteúdos como Prática de Projetos, Sustentabilidade, Liderança, Educação e Cidadania, Cultura Regional na Sociedade da Informação, Cidadania e Identidade Cultural, além de aulas de Informática, Internet e Listas de Discussão, Segurança da Informação e HTML, e Estrutura Física do Computador. A formação é feita em parceria com a ONG Programando o Futuro, que também oferece suporte a longo prazo a todos os educadores, por meio de uma Central de Atendimento. A educadora social Suellen Melo, 23 anos, capacitada na última turma de formação, terá um desafio a mais pela frente, devido à especificidade do seu público-alvo. Isso porque ela é a responsável pela Estação Digital da Apitikatxi (Associação dos Povos Indígenas Tiriyo, Kaxuyana e Tkikuyana), inaugurada no dia 4 de dezembro, em Macapá (AP). Ainda que a estação represente três etnias indígenas, que somam 1.300 indivíduos, os serviços oferecidos pela estação estão voltados, prioritariamente, a todos os sete mil indígenas das 10 etnias presentes na região - o que não exclui a comunidade em geral. Após ser capacitada e ter preparado o projeto pedagógico da estação, a educadora revela, em entrevista à Fundação Banco do Brasil, os desafios de estar à frente do espaço comunitário. Suellen está entre os cerca de 550 educadores sociais já formados pela FBB. Fundação Banco do Brasil - Como você recebeu a escolha de ser educadora social da Estação Digital Apitikatxi? Já trabalhou como professora antes? Suellen Mello - Eu nunca dei aula, por isso estou um pouco ansiosa. Mas é uma ansiedade que vem com as melhores expectativas. Já fiz curso de informática e faço o curso de Gestão de Recursos Humanos na Famap [Faculdade do Amapá], então já tenho uma predisposição para lidar com pessoas. A estação exigiu que eu fizesse um projeto e, na faculdade, sempre lidamos com projetos, aprendemos que temos que trabalhar com metas. Apesar de ter feito meu primeiro projeto na área pedagógica, o conhecimento externo me ajudou bastante. FBB - Você é funcionária da Apitikatxi, já trabalhou com indígenas? Suellen - Estou na associação desde 2008, e antes disso já havia trabalhado com outras etnias como a Wajãpi, que vive no Amapá. Na Apitikatxi, eu trabalhava como assistente administrativa em um convênio de saúde, pelo qual assistíamos indígenas que atuam como técnicos de enfermagem e agentes de saúde na região. Esse convênio se encerra nesse mês de fevereiro, mas com ele percebi que os indígenas são pessoas que tem muita facilidade de aprendizado. A verdade é que a grande maioria tem muita vontade de aprender, de conhecer, mas tem vergonha. Eles são tímidos. FBB - Em relação aos serviços oferecidos pela Estação Digital, você acredita que os indígenas terão facilidade, ou você prevê um tratamento diferenciado? Suellen - Os indígenas que a associação representa, por exemplo, vivem no Parque do Tumucumaque, onde o único acesso possível é por via aérea. Assim já temos ideia de que eles não têm acesso a muita coisa, inclusive à educação adequada e energia elétrica. Isso faz com que, muitas vezes, eles sejam discriminados. Temos consciência desses elementos e sabemos que a estação deve oferecer uma orientação particular para os indígenas. Temos que ter muita atenção, cuidado, não correr com as aulas. Ter certeza de que todos estão acompanhando. FBB - Como vai ser a utilização da estação? Já estão previstos cursos de informática? Suellen - Começamos um curso no dia 8 de fevereiro, que deve durar dois meses. O curso vai acontecer às segundas, quartas e sextas-feiras, com três horas de aula. Deixamos o curso com faixa etária livre, e com as matrículas que fechamos, o mais novo tem 12 anos e a pessoa mais velha tem 46. Serão duas turmas de 10 alunos e queremos formar outras duas até junho. O nosso objetivo é aumentar o número de turmas, mas sem perder a qualidade. FBB - Todos os matriculados são indígenas? Suellen - Mais de 70% da turma é formada por indígenas. Desses, a maioria está estudando Supletivo em Macapá. Quase todos estão com atraso escolar e tem um conhecimento muito básico de informática. Mas como já estão na cidade, são familiarizados com o português, o que nos ajuda. Mesmo assim, acreditamos que se tivermos dificuldade de comunicação, contaremos com a ajuda dos próprios indígenas ou de funcionários da associação que falam a língua dos indígenas. FBB - Qual será o conteúdo do curso? Suellen - Eu fiz um Projeto Pedagógico e um Plano de Aula que abrange desde as ferramentas básicas às mais complexas, sempre com foco na utilização prática. Vou dar aulas de Introdução à Informática, Sistema Operacional Linux, Editor de Textos, Planilha Eletrônica, Editor de Apresentações, e Internet. FBB - Além do curso fechado, a estação vai oferecer outros serviços? Suellen - Nos preocupamos em deixar a estação totalmente livre na terça e quinta-feira para os alunos do curso treinarem, mas também para ficar disponível para toda a comunidade ou etnia indígena que a associação não representa. Queremos usar a estação para fazer projetos, oficinas e outras capacitações. Acreditamos que a procura pela estação vai aumentar depois do curso, quando os indígenas vão ficar sabendo do espaço pelos amigos. A estação vai funcionar em horário comercial, sempre com um educador social que vai deixar claro que é um espaço público e gratuito, e por isso deve ser bem cuidado. FBB - O curso de capacitação oferecido pela Fundação Banco do Brasil te ajudou a elaborar um planejamento para adminisitrar a estação? Suellen - O curso foi muito produtivo, foi uma semana de desenvolvimento profissional e pessoal. Todos são aprendizados que conseguirei utilizar no dia-a-dia. Outra coisa interessante foi conhecer outros educadores sociais, e a realidade com que cada um terá que lidar. Mas o que mais gostei foi o aprendizado em relação à elaboração do projeto pedagógico. É muito completo, aborda desde a instalação da estação digital até a formatação do curso. Sei que eu não conseguiria ter uma formação como essa sozinha. FBB - E o que você espera da estação, como acha que essa oportunidade vai refletir na vida dos indígenas? Suellen - Eu estou muito entusiasmada com essa experiência. Estou disposta a ajudar mesmo, com muita certeza de que vão aprender. Sei que não vou mudar o mundo dessa forma, mas acredito que estou fazendo um pouco para melhorá-lo. Tenho certeza que o curso vai oferecer uma melhor inserção no mercado de trabalho para os indígenas. Outros querem, na verdade, é levar o conhecimento que vão aprender para a sua comunidade de origem. De qualquer forma, a estação digital vai melhorar a vida dos indígenas. Outras informações Fonte: Fundação Banco do Brasil
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