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Silvana Parente, especialista em microfinanças

Foto: Diário do Nordeste
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08/10/2009 - Economista e consultora do Instituto de Assessoria para o Desenvolvimento Humano (IADH), Silvana Parente é também especialista em Desenvolvimento Local pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets) e em microfinanças pela Universidade de Harvard. Em entrevista ao Portal da RTS, ela expõe o papel das microfinaças para o financiamento de um novo modelo de desenvolvimento e alerta: “Falta ainda construir um sistema financeiro de base territorial, sob pena de todo o trabalho feito pelos programas de desenvolvimento local não avançar por falta de mecanismos de financiamento que sustentem essa economia nova que está sendo dinamizada”.

RTT - Qual a principal diferença entre o crédito convencional e o microcrédito?

Silvana - A diferença entre o crédito convencional e o microcrédito não está só no valor dos empréstimos, nem na base de clientes. A principal diferença está naquilo que chamamos de tecnologia microfinanceira, que é baseada nas finanças de proximidade. Nela, você vai emprestar olhando o cliente como parceiro e junto com ele construir o fluxo de caixa e a viabilidade do crédito. Ele está precisando do crédito para quê? Como ele vai vender? Quanto ele gasta, fatura? A partir deste fluxo de caixa, construído de forma conjunta, é que o agente de crédito irá pactuar com o microempreendedor aquele compromisso. Em geral, aliás, este acordo é quase sempre cumprido.

RTS - Qual tem sido o principal uso do microcrédito no Brasil?

Silvana - A maoria das instituições de microfinanças começa a trabalhar o capital do giro. Este é o primeiro gargalo. A partir de outros empréstimos, os microempreendedores também começam a sentir a necessidade de investir para crescer, comprar um equipamento novo, reformar o próprio ambiente de negócio. É o que chamamos de capital fixo, e que também é foco do microcrédito no Brasil.

RTS - Qual é hoje o panorama deste mercado?

Silvana - Se você olhar o número de microempreendedores individuais no Brasil, verá que há 10 milhões de pessoas que estão nessa nova economia. Não podemos esquecer também os quatro milhões de agriculores familiares espalhados pelo Brasil. Alguns têm acesso ao Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], que não é um programa de microfinanças. Aliás, ainda não temos um serviço financeiro permanente na área rural, até porque o Pronaf é monopólio dos bancos estatais. Por que não passar direto para as cooperativas de crédito? Elas operariam com muito mais eficiência, porque os  bancos estatais estão longe daquelas populações.

RTS - A senhora tem dito que o microcrédito tem mais potencial para crescer na área  rural. Por quê?

Silvana - Nos centros urbanos, o acesso ao sistema financeiro é mais  fácil. Em toda cidade você vê aqueles papeletes sendo distribuídos,  dizendo “pegue dinheiro, pegue dinheiro”. Aquilo não tem nenhuma relação de  qualificação nem interesse produtivo. É quase uma agiotagem. Entretanto, nos  municípios pequenos, do interior, a demanda financeira é muito reprimida, porque  não tem muita oferta de crédito. Nesse sentido, os pequenos municípios ainda têm  um grau muito baixo de bancarização, as redes de banco ainda não chegaram lá. Por  isso tem potencial muito grande.

RTS - Quais os desafios para o futuro?

Silvana - O desafio da política pública é ter instrumentos mais criativos e inovadores para estimular as instituições microfinanceiras de base territorial e de caráter solidário, que incluem as cooperativas de crédito e os bancos comunitários. Esse governo ainda está devendo isso. Houve crescimento do Pronaf, do crédito consignado e do crédito de consumo. O crédito produtivo com enfoque territorial, que é fundamental, ficou para trás. Precismos estruturar no Brasil uma rede de microfinanças que funcione através das cooperativas de crédito, das Oscips e até das agências de fomento estaduais.

RTS - Como chegar lá?

Silvana - Por um lado, o governo continua apostando em outros mecanismos de financiamento que não incorporam a tecnologia de microfinanças, como é o caso do próprio Pronaf.  Parte desse capital subsidiado poderia estar sendo gasto para estruturar uma rede de finanças solidárias, capacitando pessoas e investindo em sistemas de gestão. Não vamos esperar que o terceiro setor vá bancar sozinho o risco e o custo operacional de uma rede de microfinaças solidárias. É preciso ainda a mão do governo, principalmente na estruturação desta rede. Não falta o capital para emprestar. O que falta é um marco regulatório e os instrumentos de intermediação financeira para a construção dessa rede.

RTS - Qual é, em geral, o ponto de equilíbrio das instituições microfinanceiras?

Silvana - Como qualquer empreendimento, ela pode começar pequena e ir crescendo gradativamente. Isso é inclusive desejável, porque reduz o risco. Mas ela tem de ter sempre, desde o início, um plano de negócio. Não é qualquer ONG que vai fazer microcrédito porque é bem intencionada ou já desenvolveu outras Tecnologias Sociais. Ela tem que ter sua própria equipe, se profissionalizar para isso. Geralmente as IMFs devem ter uma estratégia de crescimento para alcançar seu ponto de equilíbrio no terceiro ano. Em geral, elas chegam lá com capital que varia de R$ 500 mil a R$ 1 milhão. O ideal é que a estrutura de custo, no primeiro ano, seja compartilhada com o território, seja por meio de uma entidade pública que bancará os salários dos agentes de crédito ou por um sindicato que emprestará a sala, por exemplo.

RTS - Como essas instituições reagiram à crise financeira mundial?

Silvana - Enquanto nos Estados Unidos a crise entrou pelo sistema financeiro, no Brasil ela entrou pela queda de demanda formal e pelos segmentos que tinham uma base de exportação. O que acontece é que as instituições microfinanceiras que captam dinheiro de ONGs fora do país podem ter tido seus fluxos de capital interrompidos. De todo modo, elas estão longe de ser maioria. No caso do Banco do Nordeste e das cooperativas de crédito que têm capital próprio e local, as oportunidades podem até ter aumentado a base de clientes diante do aumento do desemprego. Isso acontece porque as IMFs apostam no crédito produtivo e não na especulação, que originou a própria crise.

RTS - Qual é, então, o papel do microcrédito para o financiamento de outro modelo de desenvolvimento?

Silvana - Tenho feito uma análise muito crítica aos programas de desenvolvimento territorial. Eles têm avançado muito, como mostram os Territórios da Cidadania. Mas falta ainda construir um sistema financeiro de base territorial, sob pena de todo o trabalho feito pelos programas de desenvolvimento local não avançar por falta de mecanismos de financiamento que sustentem essa economia nova que está sendo dinamizada.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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