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Ricardo Neder, coordenador do Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina.
Rede de Tecnologia Social - Quais os objetivos principais do Observatório? Ricardo Neder - O Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina, sediado no Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB (CDS), tem três objetivos centrais. O primeiro é de ensino e está relacionado às questões sobre estudos sociais em ciência e tecnologia. O segundo envolve pesquisa, no sentido de identificar os bloqueios para a criação de ambientes de adequação socio-técnica no Brasil e na América Latina, sobretudo nos assentamentos de reforma agrária. O terceiro objetivo é elaborar uma concepção de prática de extensão que seja fortemente interacionista entre os saberes tradicionais e o conhecimento científico. RTS - Quais ações estão sendo implementadas? Neder - Temos já duas disciplinas sendo oferecidas na pós-graduação do CDS: uma sobre fundamentos filosóficos e sociológicos da TS e a outra sobre biopolítica e sustentabilidade, que tenta trazer os movimentos sociais contemporâneos para este debate sobre a questão tecnológica. Temos também um sub-projeto de pesquisa sobre a Tecnologia Social para o desenvolvimento agrário brasileiro, em parceria com o MDA, onde desenvolvemos a criação de uma rede de pesquisadores extensionistas e produtores experimentadores empenhados em discutir os novos paradigmas da agroecologia. RTS - Por que a agroecologia? Neder - A agroecologia já pode ser tomada a partir de um novo paradigma tecnológico a partir da agricultura familiar brasileira e latino-americana. Ela, em si, é uma Tecnologia social porque atende os três requisitos básicos de toda TS. É fortemente interativa, ocorre em ambientes econômicos gestionários e auto-gestionários, de forma horizontal, e exige troca de conhecimento cientifico com saberes tradicionais e populares. Universidades, instituições de pesquisa e movimentos sociais contemporâneos já têm percebido esse potencial. RTS - Qual o nível de intercâmbio sobre o tema na América Latina hoje? Neder - Temos tido um diálogo forte com a Universidade de Quilmes (Argentina). Há também uma forte base social para o resgate de saberes populares na Bolívia, que tem uma escola de graduação específica para a agroecologia a que estamos nos aproximando. Há também outra escola importante de agroecologia na Colômbia e por aí vai. Eu diria que dadas as afinidades da agroecologia com sistemas altamente biodiversos, certamente poderemos fazer uma troca no eixo sul-sul muito significativa, que pode incluir também países da África, a Índia e a China. RTS - O que temos a aprender com estas experiências? Neder - Temos a aprender sobretudo no eixo das experiências de educação popular. Por outro lado, temos a ensinar sobre experiências de gestão horizontal, nas quais o Brasil é pioneiro pelo avanço das diversas formas de economia solidária, uma forma clara de cimentar as praticas de inovação com a questão da democratização tecnológica. RTS - A reaplicação em escala das Tecnologias Sociais é um desafio estratégico? Neder - Essa noção de escala tem uma armadilha interna que precisamos desarmar. Quando geralmente se fala em escala, se pensa em produtividade. Quando se pensa em produtividade, se pensa imediatamente em tecnologias poupadoras de mão de obra que barateiam a unidade produzida. Esta é a base fordista do mercado de consumo. No caso das TSs, precisamos raciocinar como a tecnologia pode ser pensada como parte de outros dois eixos fundamentais, que são o interacionismo pedagógico e as formas econômicas auto-gestionáveis. Se a tecnologia for acoplar essa duas pernas, forma-se um tripé. E é a produtividade deste tripé que temos de avaliar, antes de proceder à escala. RTS - Qual o papel da universidade nesta direção? Neder - A universidade precisa gerar um novo modelo de extensão universitária, com foco na vivência junto às comunidades. Até porque a tecnologia só se converte em parte do dia-a-dia das pessoas se o estudante e o pesquisador forem para campo com outro olhar. E que olhar é esse? É aquele de quem não quer simplesmente reproduzir a tecnologia que aprendeu na universidade como solução para aquelas pessoas. A universidade estimula hoje estudantes e pesquisadores a gerar conhecimentos que tenham resolução comercial, e isso é um problema. Então uma parte da comunidade científica, hoje, vive nesse canto dos cisnes de que a função da universidade é gerar patentes, que por sua vez gerariam progresso e desenvolvimento. Sabemos que não é bem assim.
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