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Marcílio Freitas, secretário de Ciência e Tecnologia do Amazonas

 
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Marcílio Freitas

21/01/2010
- O estado do Amazonas dará início, a partir de fevereiro, ao projeto Tecnologias Sociais, Fortalecimento Econômico e Comunicação Digital, que prevê recursos de R$ 4 milhões para a realização de subprojetos em três áreas: Agroecologia, Comunicação Digital e Novos Materiais Recicláveis. Em entrevista ao Portal da RTS, o secretário de Ciência e Tecnologia do Amazonas, Marcílio Freitas, comenta o papel das Tecnologias Sociais para o desenvolvimento da região e aponta caminhos para a aproximação entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais na Amazônia.

O projeto, avisa, encontra-se em fase de formalização jurídica e administrativa. A execução ficará por conta de organizações como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), enquanto a coordenação geral dos subprojetos ficará sob a responsabilidade da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Já os recursos são provenientes da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia.

Confira a íntegra da entrevista.

RTS - Qual o principal objetivo do projeto?

Marcílio Freitas - Esse projeto é desdobramento de uma articulação do conselho das secretarias de ciência e tecnologia dos estados brasileiros e das confederações de fundos de amparo à pesquisa do Brasil, junto com o Ministério da Ciência e Tecnologia e a Finep. Ele se insere num contexto de fortalecimento do desenvolvimento regional tendo como foco principal cadeias produtivas que envolvam os setores mais fragilizados da sociedade, ou seja, construindo cidadania e empregos a partir da inovação e do empreendedorismo. Este é o foco central.

RTS - Por que apostar em Tecnologias Sociais?

Freitas - Porque esta é a forma mais eficiente e inovadora de fazer com que os resultados da ciência e da tecnologia retornem ao cidadão brasileiro de uma forma mais institucionalizada, de modo a gerar mais cidadania, promoção social e qualidade de vida. Isso, de certa forma, justifica inclusive a existência da ciência e da tecnologia enquanto mecanismo de promoção socioeconômica desde a base comunitária até a escala planetária.

RTS - Quais as peculiaridades da região amazônica no que se refere à produção e disseminação de C&T?

Freitas - De 2003 a 2009, computamos um total de R$ 1,331 bilhão do governo estadual investido em programas de ciência e tecnologia no Amazonas. O resultado imediato foi transformar a Universidade do Estado do Amazonas, criada em 2001. À época, ela tinha um orçamento de R$ 16 milhões. Hoje, já é a quinta universidade pública do país, com 39 mil alunos.  Hoje ela também desenvolve um conjunto de programas articulados com as políticas públicas do estado do Amazonas, com as demandas comunitárias e com a complexidade sócio-ecológica e econômica da região. Em 2003, tinhamos 380 doutores. Hoje são mais de 1.250. Isso não é pouco, mas precisamos fazer muito mais. Temos uma história muito particular e complexa, que envolve uma das maiores unidades federativas do mundo, 72 povos indígenas diferentes, uma logística de transporte particular e um pólo industrial pujante dentro de um território com 96% de florestas primárias preservadas.

RTS - Quais as prioridades?

Freitas - Uma das nossas prioridades é articular a ciência e a tecnologia com a educação. Como fazer os processos educacionais, que estão na Constituição, chegarem às 6.280 comunidades isoladas do estado do Amazonas? Não é tão simples como fazer chegar na Avenida Paulista. Nossa universidade já tem programas com tecnologias mediadas à distância, por satélite, que hoje abarcam os 62 municípios do estado. São mais de mil pontos de internet no interior, o que a torna uma das maiores plataformas de ensino à distância do mundo.

É claro que isso envolve uma estratégia articulada com outras secretarias. Em 2003, apenas 4% dos professores do estado do Amazonas tinha licenciatura plena. Hoje são 93%. Isso incluiu um programa de formação de pedagogia intercultural para formar 2.600 professores indígenas em 52 municípios. Até porque precisamos formar professores indígenas para dar aulas aos próprios índios. Para isso, estamos lançando também um programa de formação científica para os povos indígenas, dando foco no ensino médio e fundamental à química, à física, à biologia e à gestão ambiental e científica e tecnológica. São 2.500 vagas.

RTS - Como, afinal, tratar o debate entre a aproximação do conhecimento científico e os conhecimentos tradicionais?

Freitas - Primeiro, trata-se do resgate de uma dívida histórica do estado brasileiro, que pouco ou quase nada investiu na formação científica dos povos indígenas. Segundo, é entender que a ciência moderna não tem alcance holístico para resolver os grandes problemas da humanidade. Certamente, com a contribuição dos conhecimentos tradicionais, podemos acelerar a solução de um conjunto de problemas a partir do local até a escala planetária. Isso é fundamental, porque, de certa maneira, na construção da ciência moderna a natureza foi dissociada da cultura. O físico, por exemplo, tende a trabalhar a natureza abstraindo a existência do ser humano. Idem o químico, o engenheiro, o matemático e tantos outros. Hoje percebemos que a cultura está imbricada na natureza e vice-versa. Isso envolve muito mais que novas metodologias e estratégias de abordagem. Envolve sobretudo mudanças nas próprias concepções, matrizes e gêneses das diversas áreas de conhecimento. Nisso, quem tem a aprender com os povos tradicionais somos nós.

RTS - Como fazer as universidades caminharem nessa direção?

Freitas - No Brasil, a ciência foi construída de uma forma dissociada da cultura. Ela é refém dos grupos de pesquisa, sobretudo daquelas universidades de elite, de grife. O que se percebe hoje é que o desenvolvimento regional, tal qual ele vem sendo posto nos últimos anos, tem permitido que esses projetos de pesquisa se irradiem de dentro para fora a partir de sua articulação com as identidades e culturas locais. Ao contrário do que era feito anteriormente, quando se copiavam, evidentemente sem sucesso, os modelos da Europa e dos Estados Unidos.

As regiões, nesse sentido, têm papel decisivo para a construção das políticas públicas. A questão-chave, aqui, é como colocar a ciência e a tecnologia como mecanismo de desenvolvimento econômico de uma forma intercultural. Isso passa, em certa medida, pela apropriação da pauta científica. A pesquisa em áreas estratégicas para o desenvolvimento do país ainda é liderada por grupos internacionais, seja na biotecnologia, na aŕea de comunicação e informação, arqueologia, antropologia e na própria história e filosofia da ciência.

RTS - E qual deve ser o rebatimento desta transformação na estrutura da universidade?

Freitas - Veja você que só agora criamos um mestrado e doutorado em clima e ambiente, um curso de meteorologia e um núcleo de meteorologia. De certa forma, os jovens do Amazonas só agora conseguem ter acesso a esses programas. Evidentemente que é preciso avançar muito mais. O estado, por exemplo, tem 25 mil km de hidrovias e mais de 70 mil barcos. Como, neste contexto, não ter um curso de graduação de engenharia naval? Mais de 70 povos indígenas e nenhum doutorado em antropologia? Isso é resultado da cabeça de quem formula ciência e tecnologia no Brasil. Até onde possível, temos buscado fazer a nossa parte para mudar essa lógica.

RTS - Um dos focos do projeto será a agroecologia. Qual a relevância do tema para o desenvolvimento da Amazônia?

Freitas - A agroecologia se insere num programa com 12 cursos, todos eles voltados ao desenvolvimento sustentável do Amazonas. Dentro do programa de Tecnologias Sociais, a agroecologia é abarcada no sentido de desenvolver inovações tecnológicas relacionadas a arranjos produtivos em fruticultura, piscicultura e agricultura familiar, no sentido de criar elementos para uma política de segurança alimentar em comunidades com notórias fragilidades sociais.

Outra frente do projeto será também o reaproveitamento de materiais não degradáveis e o recolhimento de lixo de oito associações do estado. Por fim, o projeto vai promover a inclusão digital de cinco aldeias. São projetos novos e que terão nos telecentros o ponto de partida para o desenvolvimento de tecnologias educacionais, a formação técnica e a popularização da ciência.

 

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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