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Luiz Antonio Elias, secretário-executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT)
Rede de Tecnologia Social - Como avalia hoje a dimensão do eixo de ciência e tecnologia para o desenvolvimento social? Luíz Elias - Desde o início do governo Lula, essa agenda vem se consolidando. Criamos uma secretaria dentro do MCT cuja finalidade é justamente olhar a dimensão social como eixo estratégico das políticas do ministério. É um movimento crescente de lá para cá, com aporte de recursos para Centros Vocacionais Tecnológicos, Telecentros, Inclusão Digital e Acessibilidade, só para citar alguns exemplos. O fundamental, agora, é olhar a dimensão transversal dessa agenda, interagindo com os Ministérios da Saúde, Indústria e Comércio, Agricultura e tantos outros para pensar de forma articulada, por exemplo, ações como a inclusão digital rural. Afinal, como eu levo ao campo esta ferramenta que é importante para dar acesso à informação numa sociedade do conhecimento que cada vez mais se amplia? São temas novos, que trazem desafios novos também. RTS - Qual o papel das Tecnologias Sociais para o desenvolvimento brasileiro? Elias - Eu colocaria esta dimensão de outra forma. Qual o papel da ciência, da tecnologia e do processo inovativo, quer em produto ou processo, para a sociedade brasileira? Nesse sentido, temos alguns focos de atuação. O primeiro é olhar a dimensão do crescimento da ciência. Precisamos produzir mais conhecimento, dando infra-estrutura para laboratórios, melhorando a estrutura de ciência e aportando cada vez mais condições de fomento para mestres e doutores. E precisamos que esse conhecimento se reverta para a sociedade, fazendo a conexão entre esse aperfeiçoamento do sistema pela via da ciência com sua apropriação pela sociedade. Nessa ótica, não é preciso só trabalhar o conhecimento que se reverte em determinado processo industrial, mas que ele tenha condicionalidades também em todas as camadas da população. RTS - Como fazer isso? Elias - Um elemento é ter foco, estruturando os programas e olhando a dimensão do que temos de maior oportunidade no Brasil. O elemento agregador de tudo isso é justamente esse eixo que se chama desenvolvimento social. Nele, necessariamente precisamos nos articular com a Caixa, por exemplo, para a questão de saneamento, habitação e melhoria de sistemas urbanos de forma mais sustentável. Temos que nos articular também com os secretários estaduais e municipais de ciência e tecnologia para que possamos trabalhar juntos, bem como os prefeitos dos cantos mais longínquos do país quando vai ser instalado um telecentro, um CVT ou quando vamos dar alguma capacitação em processos de gestão. Então a agenda tecnológica voltada para o desenvolvimento social é o elemento construtor desta sociedade pela via da inclusão. Quando olho o território da cidadania, sua dimensão é dar um conjunto de ferramentas e possibilitar acesso a recursos e conhecimentos que possam desenvolver a região. Eu certamente tenho o eixo tecnológico como eixo central para isso. Por exemplo, levando a fibra ótica para o interior do país e melhorando a conexão por internet ou por outras vias. Ou levando discussões tecnológicas – que não sejam tecnologias de fronteira – e que podem ser apropriadas localmente melhorando muito o custo inerente àquela região ou cidade. RTS - A articulação em torno da RTS tem habilitado outros atores para debater ciência e tecnologia no Brasil, como é o caso de Ongs, cooperativas e sindicatos. Qual é o significado disso? Elias - Isso é muito importante. A agenda do conhecimento não é uma apropriação de uma camada da população apenas. Então é fundamental trazer esses atores, porque quem conhece a realidade das populações dos grandes rios da Amazônia são os próprios ribeirinhos. E quem vai nos dar a possibilidade de conexão desse conhecimento amplo que se desenvolve naquela região são eles. Quem conhece a parte do princípio ativo inerente à biodiversidade brasileira no seu fundamento básico, no interior da floresta, são as comunidades tradicionais. Elas precisam ser incluídas dentro do processo, inclusive para debater como vão se dar as formas de apropriação deste conhecimento respeitando seu direito à propriedade e à cidadania. Nessa Conferência eles estarão finalmente representados, e a RTS é um exemplo claro deste amadurecimento. RTS - A comunidade científica está pronta para partilhar esse debate? Elias - Acho que sim. Um exemplo, entre tantos outros, é o biodiesel. Avançou-se muito nas culturas para extração do óleo para geração de biodiesel. O governo garantiu a compra, induzindo tanto o avanço tecnológico na comunidade científica como induzindo a produção do óleo bruto pela agricultura familiar. Por outro lado isso precisa chegar na ponta, o que exige reforçar os programas da Embrapa que podem elevar a capacidade de tecnologia no campo ou nas regiões mais distantes. Claro que isso não significa apenas chegar com a tecnologia e apresentá-la à população local. É preciso dar capacitação e estruturação numa invasão integrada e sistêmica que exige a participação de todos os atores envolvidos. A apropriação desta agenda, aliás, se dá cada vez mais por essas localidades e pelas organizações sociais, que nos ajudam a construir essa interação. RTS - É possível traçar uma estratégia preferencial para aproximar o conhecimento científico dos saberes populares? Elias - Creio que a melhor estratégia é a própria dinâmica da sociedade. A partir do momento em que a sociedade se apropria desta agenda, a própria dialética que emerge deste processo leva a idas e vindas que garantem este aperfeiçoamento. Isso inclui críticas, conflitos e polêmicas, como em qualquer sociedade. E hoje elas já nos dão alguns elementos para essa discussão. Como o conhecimento tradicional vai ser manejado quando transformado, eventualmente, por uma grande cadeia produtiva? Ou como eu integro populações distantes mantendo a sua realidade local, mas ampliando suas possibilidades de vida? Por exemplo, discutimos muito hoje na área de habitação a utilização de técnicas que não necessariamente se restrinjam ao cimento, o ferro ou o tijolo. Falamos já do bambu e outras tecnologias que são desenvolvidas localmente. Como eu aproprio isso como comunidade científica – e vice versa – são questões absolutamente contemporâneas. RTS - Qual deve ser o papel da RTS para articular esse debate? Elias - A Conferência envolve quatro eixos. O primeiro se refere à base de ciência no Brasil, incluindo a melhoria da infra-estrutura de pesquisa científica. O segundo eixo é o da inovação na sociedade e nas empresas. O terceiro é o das áreas estratégicas, que inclui, por exemplo, como dimensionar a biodiversidade brasileira e aproveitá-la de maneira sustentável. E o quarto eixo é justamente o da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento social. Qual o papel da RTS neste quesito? Ser um aglutinador, integrando os diversos atores da sociedade, criticamente, para este debate.
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