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Luis Carrazza, coordenador da Central do Cerrado

Foto: Divulgação
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Luiz Carrazza

29/01/2009
- Coordenador da Central do Cerrado e representante do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Luís Carrazza já percorreu boa parte deste que é um dos biomas mais ameaçados do Brasil. Em entrevista ao Portal da RTS, Carrazza fala sobre as perspectivas das comunidades tradicionais à sombra dos mercados, aponta obstáculos a serem vencidos e cobra a criação de tecnologias voltadas às necessidades dos empreendimentos comunitários.

Rede de Tecnologia Social - Quais são as principais ameaças ao Cerrado?

Luíz Carrazza - O Cerrado tem um acúmulo histórico de degradação, tanto ambiental como social. Ela começou com a mineração e a exploração de ouro e evoluiu para a agricultura na ocupação do Centro-oeste para a produção de gado e grãos. Mais recentemente, temos visto chegar também, com bastante velocidade, a ameaça da cana e do eucalipto. Essas culturas são produzidas em larga escala, num modelo concentrador de renda que afeta diretamente as comunidades tradicionais, que acabam expulsas ou ficam ilhadas. O que está por trás de tudo isso é a opção política que o Brasil tomou, entendendo erroneamente o Cerrado como o grande celeiro do mundo e colocando crédito e programas de incentivo para um modelo de desenvolvimento que privilegia poucos. Isso não mudou. Vemos cada vez mais o aumento da pressão pela conservação da Amazônia e da Mata Atlântica, mas o Cerrado continua fora desse debate.

RTS - De onde tem partido as iniciativas que atestam a viabilidade de um novo modelo para o Cerrado?

Carrazza - Em primeiro lugar elas vêm da resistência das famílias que fazem a produção agroextrativista sustentável, combinando a coleta e o beneficiamento de frutas, plantas, folhas e outros produtos naturais que o Cerrado oferece com o modelo de produção familiar. Entendemos que a agricultura familiar e o modelo agroextrativista se viabilizam na diversificação. Então o extrativista, por definição, não é extrativista de um fruto só. Em uma época do ano, ele cata o pequi, noutros a cagaita, o jatobá, o baru. E ele faz isso conciliando as atividades de agricultura para subsistência em que ele geralmente trabalha ao longo de todo o ano, como o feijão, a mandioca, o arroz, o milho e a criação de galinhas e porcos. 

RTS - Em que medida os problemas logísticos interferem no fortalecimento desse modelo, tendo em vista que as distâncias necessárias para se praticar o agroextrativismo tendem a ser maiores no Cerrado?

Carrazza - Entramos aí na questão da viabilidade. Ela se dá, num primeiro momento, na produção para o auto-consumo com vistas à segurança alimentar. Se entrarmos na seara das plantas medicinais, entramos também na questão da segurança em saúde, até porque o Estado ainda é muito omisso com relação a isso para diversas comunidades. O que a gente precisa entender é que essas comunidades fazem o uso do Cerrado desde sempre, o que inclui o uso alimentar, têxtil, o artesanato, as cerâmicas, os pratos de barro, o cabo de vassoura e até da palha para cobrir a casa.

No que a gente chama de “mês de vida sustentável”, o primeiro pilar de uso é para o auto-abastecimento e nisso a logística nunca foi problema. A partir do momento em que estas comunidades são ampliadas pela chegada da dita civilização e pela necessidade de interação com o mercado, é que elas passam a ter que comercializar o excedente da sua produção para gerar renda e poder comprar o que elas não conseguem mais produzir ali. E não fazemos aqui apologia ao isolamento dessas comunidades para que fiquem numa situação de não-acesso aos bens tecnológicos e todos os outros que foram produzidos pela humanidade, mas o que a gente vê é que esse modelo é insustentável.

RTS - Como começa essa descaraterização?

Carrazza - O que acontece é que as comunidades fazem, primeiramente, o aproveitamento sustentável do Cerrado para uso familiar. Tendo um excedente maior é que elas começam a trocar com os vizinhos. Tendo um excedente ainda maior, passam a abastecer os mercados locais e regionais e a partir daí começam a galgar novos mercados. Aí entramos numa situação que é a que percebemos no PPP-Ecos, que já apoiou mais de 300 iniciativas comunitárias no bioma. Logo quando a gente começa a apoiar uma iniciativa comunitária que é de uso local, você tem uma situação naturalmente muito mais informal de circulação de mercadorias e nem sempre pautada pelo dinheiro. O problema é que a hora em que a comunidade começa a produzir alguma coisa que tem de sair desse âmbito local para onde as relações de confiança passam a não significar muita coisa, aparece a situação de você ter de cumprir a atender uma série de burocracias.

RTS - Quais são as principais?

Carrazza - Peguemos o exemplo do pequi. Historicamente, o catador de pequi vendia o fruto na beira da estrada por cerca de R$ 3 a caixa. Com o processo de organização social, esses catadores organizados passaram a vender o pequi ao atravessador conjuntamente, mesmo que só a matéria prima, para tentar ganhar em escala e preço. Mais além começam a se delinear perspectivas de agregar valor, seja fazendo uma geléia, uma polpa ou uma conserva. Note que isso já requer uma área de processamento e a garantia de condições de coleta que não degradem a natureza – o que às vezes exige licenciamento ambiental. É nesse momento que a situação começa a se complexificar, porque passa a haver a necessidade de algum tipo de registro sanitário, a necessidade de um técnico para prestar assessoria e de maquinário específico que os extrativistas muitas vezes não têm como adquirir.

RTS - E a organização social consegue resistir a essas dificuldades?

Carrazza - A organização é outro problema. A partir do momento em que os agricultores se juntam, eles precisam constituir uma associação ou  uma cooperativa. Daí, precisam de orientação para dar entrada no cartório e cumprir essa burocracia de natureza jurídica. Se conseguem entrar na parte da agroindustrialização, entra também a questão dos registros sanitários. E a normatização sanitária no Brasil é um labirinto: uma parte é regulamentada pela Anvisa e outra pelo Ministério de Agricultura. As comunidades passam, aí, a ter dificuldades de saber a quem se reportar. Isso tem melhorado, mas os órgãos ainda têm uma abordagem muito mais focada na punição que na orientação. Outro aspecto que traz dificuldades é a infra-estrutura nas próprias comunidades. Além da falta de energia elétrica, há lugares em que não há pontes e a produção tem de ser tirada de barco.

RTS - As universidades não estão preparadas para prestar esse apoio?

Carrazza - Infelizmente as universidades não têm formado profissionais para trabalhar com esse tipo de público. Hoje a faculdade está basicamente a serviço das grandes empresas, que estão pautando tecnologicamente o que precisa ser feito. Vemos com muita frequência essas empresas financiando laboratórios e bancando as linhas de pesquisa de muitas universidades, privadas e públicas. A produção do conhecimento hoje está muito pautada pelo setor empresarial e pela grande indústria. É necessária uma revisão nesse processo urgentemente.

RTS - O mercado está pronto para receber esses produtos?

Carrazza - Há uma série de exigências que são do mercado. Isso vai desde o sabor e a textura do alimento até a embalagem e a apresentação do produto. Isso demanda um esforço muito grande e vemos que os agricultores, muitas vezes, estão sozinhos nessa jornada. A rotulação é um bom exemplo desse desafio. Ele tem que trazer a informação completa. Como um agroextrativista irá encontrar a composição nutricional do murici? Eles não encontram amparo nem em órgãos de assistência técnica públicos. São muitos os desafios, e pouco suporte para vencê-los. Hoje quem tenta fazer essa ponte são as organizações não-governamentais, que também têm uma série de carências para se manter, principalmente pela dificuldade de operar com recursos públicos. O terceiro setor está carente de um marco regulatório que viabilize seu funcionamento.

RTS - Que tipos de tecnologia poderiam estar sendo aplicadas para auxiliar os agroextrativistas?

Carrazza - Principalmente tecnologias voltadas para o desenvolvimento de ferramentas que sejam apropriadas para uma pequena escala de produção. Hoje a gente vê, por exemplo, máquinas que dependem de um trator enorme para funcionar e que poderiam, através de uma pequena adaptação, ser utilizadas usando tração animal. Isso atenderia de forma bastante apropriada esse públicos.

Alguns equipamentos manuais também poderiam ser desenvolvidos. Veja o caso da quebra do baru, cuja extração tem crescido em termos de mercado. O processo de quebra é manual. Ele pode continuar manual, para garantir maior volume de postos de trabalho, mas poderia ser um modelo menos rústico que o atual, geralmente a base de marretadas. Isso sem falar em instrumentos de gestão para a pequena escala, que são imprescindíveis.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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