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Laís Fraga, analista da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unicamp
Laís Fraga - Esta é uma relação obrigatória e beneficia tanto a Tecnologia Social quanto a Economia Solidária. Primeiro porque a TS não pode ser um fim em si mesma, nem perder de vista um modelo alternativo de sociedade que é a Economia Solidária quem oferece. Isso inclui a perspectiva de um trabalho autogestionário, coletivo, baseado na solidariedade e na cooperação. Por outro lado, quando pensamos numa forma alternativa de organização do trabalho e de desenvolvimento da sociedade, a gente precisa de uma tecnologia alternativa capaz de viabilizar essa transformação. Nesse sentido, se a Economia Solidária se esquecer do enfoque tecnológico e para que ele serve, então estará sempre manca e distante da efetividade necessária para gerar transformação. RTS - E o que deve definir essa tecnologia? Laís - Essa tecnologia não pode ser fechada e tem de atender, sobretudo, às necessidades dos empreendimentos populares. Se a gente entende também que a tecnologia não é neutra, então ela tem que ser participativa para que contemple os valores e os interesses da Economia Solidária. A Tecnologia Social, essencialmente, fornece soluções a partir da participação das comunidades e dos empreendimentos. Tanto o processo de buscar essa solução, quanto a tecnologia final em si, tudo isso é Tecnologia Social. RTS - Como ela se diferencia da tecnologia convencional? Laís - A tecnologia convencional é feita pela e para a iniciativa privada. Isso significa que ela carrega alguns valores contrários aos da Economia Solidária. Temos, por exemplo, a alienação do trabalho, a partir da qual o trabalhador não sabe como é o processo produtivo nem qual é o resultado final de seu próprio trabalho. Frequentemente é também uma tecnologia hierarquizada, que pressupõe a figura de um patrão ou gerente que dirá o que o trabalhador tem que fazer, contrariando o próprio princípio da autogestão. E também é uma tecnologia que não tem como preocupação original a sustentabilidade ambiental. Isso sem falar que é uma tecnologia poupadora de mão de obra, enquanto o desafio atual é justamente gerar novos postos de trabalho. RTS - E qual o papel da universidade para fomentar as Tecnologias Sociais? Laís - A universidade tem como função social formar pessoas e produzir conhecimento. O que temos de fazer, então, é disputar esse espaço e chamar a universidade para trabalhar junto a um novo projeto de sociedade. Para isso, ela precisa formar pessoas capazes de mediar os processos de construção coletiva da tecnologia e produzir conhecimento a partir dos valores e princípios defendidos pela Economia Solidária. RTS - Como fazer isso? Laís - O que eu vejo acontecendo com maior efetividade são os projetos de extensão. É através dela que a universidade deveria se aproximar da sociedade. E embora minoria dentro do conjunto de projetos das universidades, a extensão já tem resultado em Tecnologia Social, principalmente a partir das incubadoras de empreendimentos populares e de trabalhos com a agricultura familiar e de arquitetura voltada a casas populares. A reciclagem também é outra frente em que a universidade tem começado a trabalhar, embora ainda seja muito pouco para o tamanho dos desafios que estão colocados. RTS - Pode dar um exemplo prático do potencial dessa aliança entre a universidade e os empreendimentos populares? Laís - Vamos ver um caso da própria reciclagem. Os empreendimentos têm hoje disponíveis para eles tecnologias que não são necessariamente adequadas. Eles podem, por exemplo, querer triar o material de uma outra maneira, que leve em consideração a saúde do trabalhador, as questões de gênero e e por aí vai. Em um trabalho que fizemos, a incubadora ajudou a cooperativa a fazer um diagnóstico da sua produção e aí identificar uma prioridade de um problema tecnológico a ser resolvido. O que foi decidido, em conjunto, foi a construção de uma mesa de triagem. A partir daí fizemos uma série de oficinas para levantar quais os critérios e parâmetros essa mesa deveria ter. O principal, apontado pelos trabalhadores, foi a flexibilidade, desde a altura, passando pela mobilidade e a acessibilidade e durabilidade do material, de modo que eles mesmos conseguissem construir e reparar a mesa. O trabalhador dizia como queria e os engenheiros e os arquitetos diziam quais eram as alternativas disponíveis e seu custo, definindo junto com os trabalhadores esses critérios técnicos. RTS - Qual a função desta interatividade? Laís - São duas as principais finalidades. A primeira é ajudar a universidade a construir uma tecnologia cada vez mais adequada a esses empreendimentos e às verdadeiras demandas da sociedade, ajudando o pesquisador a trabalhar com o saber popular e a repensar permanentemente sua própria formação. A segunda é levar o trabalhador a se apropriar da universidade, colocando-se também como gerador de conhecimento e de inovação. Nisso, a universidade não deve simplesmente detectar um problema, voltar-se para dentro de si mesma e ofertar uma solução de forma unilateral. A Tecnologia Social pressupõe este processo coletivo e participativo. RTS - As incubadoras são o espaço preferencial para este diálogo? Laís - Creio que precisam ser, mas que em sua maioria ainda não são. A gente ainda trabalha muito mais com a gestão e menos com as tecnologias propriamente ditas. Um dos principais obstáculos ainda é essa ideia de que a ciência é neutra. Precisamos entender que toda tecnologia pressupõe escolhas. Sempre há grupos disputando uma solução tecnológica ou outra – e sempre há uma que prevalece e é escolhida. A Economia Solidária precisa perceber que temos de lutar também nessa escolha tecnológica. É uma disputa que teremos de fazer.
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