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José Goldemberg, físico do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP)
Ex-reitor da USP, ex-ministro da Educação, secretário nacional do Meio Ambiente durante o governo de Fernando Collor e secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo no governo de Geraldo Alckmin, Goldemberg foi crítico das usinas nucleares já nos anos 1970 e um dos responsáveis pela criação do Proálcool. O entrevistado trouxe importantes contribuições para a maneira como o Brasil e o mundo veem a questão energética. Seu livro Energia para um Mundo Sustentável, feito em parceria com outros pesquisadores, ajudou a quebrar o paradigma vigente até as décadas de 1970 e 1980, de que energia era algo diretamente ligado ao produto interno bruto e que, quanto mais fosse usada, melhor seria. Em 2008, Goldenberg recebeu o Prêmio Planeta Azul, considerado o Nobel do Meio Ambiente. Confira a entrevista concedida por e-mail à jornalista Neuza Árbocz, para o Instituto Ethos. Instituto Ethos: A troca da matriz energética é essencial para conter a poluição e as mudanças climáticas que a Terra enfrenta. Há condições para que ela ocorra a curto prazo? José Goldemberg: Sim. Combustíveis fósseis representam hoje 80% do consumo energético mundial. Há condições para mudar a matriz, mas isso vai exigir um enorme esforço de todas as nações. IE: Quais são as tecnologias mais promissoras? JG: Em primeiro lugar está a eficiência energética, sobretudo nos países industrializados. Em segundo lugar, é preciso dar maior ênfase ao uso de energias renováveis. E, em terceiro lugar, é preciso desenvolver novas tecnologias, como automóveis movidos a eletricidade. IE: O que dificulta a adoção dessas novas tecnologias em larga escala? É somente o custo? JG: É basicamente o custo, sim, pois já existem muitas tecnologias plenamente desenvolvidas, como a que se baseia em energia eólica e a fotovoltaica. IE: Que países ou centros de pesquisas estão na frente no desenvolvimento e utilização de tecnologias limpas e viáveis do ponto de vista econômico, ecológico e social? JG: Depende da tecnologia. O Japão, por exemplo, está avançado em células fotovoltaicas, enquanto os Estados Unidos estão adiantados na pesquisa em hidrólise enzimática e o Brasil, na produção de etanol da cana-de-açúcar. IE: Hoje predominam sistemas centralizados de geração e fornecimento de energia. A produção em menor escala e localmente poderia ser uma solução? JG: Não necessariamente, mas o uso de energia solar aponta nessa direção. IE: É possível aproveitar melhor a energia gerada por movimentos mecânicos, como em academias de ginástica e danceterias, por exemplo? JG: A energia produzida nesse tipo de atividade é muito pequena quando comparada com o que se gasta em combustíveis para automóveis ou para gerar energia elétrica. IE: No que diz respeito à energia elétrica, em alguns países, os consumidores geram sua própria energia e revendem o excedente à rede geral. Isso é aplicável no Brasil? JG: Isso já é feito no Japão e é de fato uma grande idéia. O problema é o custo das células fotovoltaicas para cobrir o telhado das casas. IE: O que precisa ser feito para ampliar essa possibilidade em nosso país? JG: Precisamos apenas de recursos. IE: O governo brasileiro quer retomar investimentos na área nuclear. Isso faz sentido, considerando as possibilidades de geração de energia existentes e os riscos e custos ambientais e econômicos envolvidos na manipulação atômica*? JG: Não faz sentido retomar investimentos na área nuclear porque o Brasil tem opções melhores do ponto de vista econômico e ambiental. As principais são a energia hidroelétrica e a geração de energia elétrica com bagaço. IE: Que nível de impacto tem a extração de urânio sobre o solo e a água? JG: Este não é realmente o problema mais sério da energia nuclear. Sério mesmo é o lixo nuclear. IE: Por quanto tempo o lixo nuclear resultante da operação de uma usina mantém sua radiotividade? A sua disposição final é cem por cento segura? JG: A radioatividade é mantida por pelo menos 10 mil anos. Não existe segurança de cem por cento em nenhuma atividade humana e algumas dessas atividades, como a geração de energia nuclear, são menos seguras do que outras. IE: Quanto se desperdiça de energia no Brasil? JG: O Brasil não é muito pior do que outros países, sob o ponto de vista de desperdício, mas pelo menos 20% a 30% da energia é desperdiçada. *O enriquecimento de urânio brasileiro requer o seu envio ao Canadá e à Holanda, gerando não apenas altos custos e evasão de divisas monetárias como poluição em seu transporte de ida e volta. Fonte: Instituto Ethos – Notícias da Semana – N. 474 |
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