Portal RTS - Rede de Tecnologia Social



Informativo Eletrônico

E-mail*
Nome

                                             Twitter    YouTube    Aumentar o tamanho da fonte Voltar ao tamanho padrão de fonte Diminuir o tamanho da fonte
Ações do documento

Jacques Pena, presidente da Fundação Banco do Brasil

 
jacques.jpg
 

20/05/2010 - Em cinco anos, pelo menos seis mil famílias conquistaram segurança alimentar devido à Tecnologia Social de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais). É para discutir essa e outras dimensões da tecnologia que ocorreu o I Encontro Nacional do Pais, organizado em Brasília pela Fundação Banco do Brasil em parceria com o Sebrae. Em entrevista ao Portal da RTS, o presidente da Fundação Banco do Brasil, Jacques Pena, comenta os principais resultados do evento, bem como a necessidade de avançar na comercialização dos excedentes da produção assegurada pelo Pais.

Presente em mais de 250 municípios, a tecnologia possibilita o cultivo de alimentos sem a utilização de agrotóxicos, queimadas e desmatamentos. Desenvolvida para atender uma família de cinco pessoas, a produção é montada em um sistema de anéis destinados a culturas diferentes e complementares, enquanto o centro do círculo é utilizado para a criação de pequenos animais, como galinhas e patos. A irrigação é feita por gotejamento. Além de garantir segurança alimentar, a Tecnologia Social pode gerar de R$ 400 a R$ 800 com a comercialização dos excedentes.


Rede de Tecnologia Social - Qual o significado deste primeiro encontro nacional do Pais?

Jacques Pena - O encontro reflete uma necessidade de compartilhar as experiências do conjunto de projetos já implantados e em implantação do Pais. Já chegamos a mais de 250 municípios, com cerca de 7 a 8 mil unidades. Além do sistema padrão - com kit, capacitação e assistência técnica -, há também as demais iniciativas locais levadas adiante pelos produtores e parceiros locais e estaduais, que são muitas e precisam ser compartilhadas. Isso vai desde as experiências de comercialização até novidades técnicas de produção. Um produtor aprende a combater certa praga, outro desenvolve um novo sistema de compostagem e mais um descobre como conviver com as hortaliças em período chuvoso, por exemplo. Tudo isso produz muita experiência diferenciada Brasil afora, que precisa ser conhecida por todos.


RTS - Como avalia a adaptabilidade do Pais?

PENA - A adaptabilidade é muito alta, até porque a diferença está, sobretudo, na escolha das espécies que serão plantadas. E vale lembrar que o programa nunca decide pelo produtor o que ele vai plantar. Não é um pacote do sistema de produção, mas uma opção do produtor segundo as características do lugar onde ele vive. É claro que há também um aprendizado acumulado pelos parceiros, técnicos e produtores. Sabemos, por exemplo, que o período chuvoso não é o melhor para implantar o Pais, já que aumenta a possibilidade de doenças e assim a tendência de o produtor acreditar que aquilo pode não dar certo.


RTS - E qual o potencial de complementariedade do Pais junto a outras Tecnologias Sociais?

Pena - Em se tratando da agricultura familiar – e portanto de produção em pequena escala, - é possível associar ao Pais diversas tecnologias de economia de água. É o caso, por exemplo, da cisterna calçadão (tecnologia de captação de água de chuva para produção de alimentos), que pode melhorar e ampliar a produção em locais com pouca água. Outro exemplo é a fossa séptica biodigestora, que resolve a questão do saneamento rural ao mesmo tempo em que cria uma minifábrica de adubo, que pode ser utilizado no próprio sistema. Quando você utiliza alguns mil litros de efluente, que é o líquido resultante do tratamento do esgoto e dos dejetos humanos, você também está economizando água. E isso é o mais importante: que as Tecnologias Sociais se complementem, garantindo o melhor aproveitamento possível dos recursos existentes na própria propriedade.

RTS - A comercialização da produção é a atual prioridade nesta fase de implementação do Pais?

Pena - O problema da comercialização, felizmente, aparece quando as coisas dão certo e há um nível de produção contínua e com certa escala. A primeira tendência de qualquer produtor é a venda local. Muito recentemente eu estava visitando uma unidade do Pais e uma vizinha apareceu para comprar um modo de coentro, por exemplo. Acontece que agora temos também também novas possibilidades abertas pela merenda escolar e por programas do governo federal, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). São espaços onde precisamos avançar, sem esquecer que essa questão começa na logística. Hoje comercializam-se produtos do Pais transportados em caminhões climatizados, com a carroceria fechada, bem como em carrinhos de mão que às vezes vencem três, quatro quilômetros em estrada de terra. A diversidade é muito grande. 

RTS - E o que une as experiencias bem sucedidas?

Pena - A base fundamental é o associativismo e a organização da produção. Para você superar os problemas da comercialização, isso impõe um nível de exigência. O produtor, por exemplo, não pode comercializar apenas quando dá na telha dele. Ele precisa fazer isso de forma constante. Se todo sábado ele vai na mesma feira, então todo sábado o consumidor saberá que pode contar com a sua produção. Outra questão é a diversificação. É muito comum encontrar pessoas que se especializam em uma cultura apenas, o que aumenta sua dependência. Você pode, por exemplo, se associar a outros produtores para dar mais diversidade à comercialização também. E, em certa medida, é isso que faz a comercialização: ela vai induzindo um certo nível de profissionalização do produtor, porque ele passa a ter de responder a esse tipo de necessidade.

RTS - A Fundação Banco do Brasil e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) estão negociando parcerias para a comercialização dos produtos do Pais nos Territórios da Cidadania. Qual a base do acordo?

Pena - O MDA está limitado para algumas ações em função da natureza dos seus programas. Uma questão em que eles têm alguns limitadores é investir em bens individuais. Como a estrutura de produção do Pais é um benefício individual, o MDA nos colocou que, para eles, o ideal era investir em bens coletivos para a comercialização. Um caminhão, por exemplo, pode ser um bem coletivo para a comercialização de uma associação de produtores do Pais. O mesmo vale para um galpão, estruturas para feiras e uma série de itens de apoio à comercialização de caráter coletivo. O que estamos fazendo é encontrar pontos comuns. Um projeto no Terrítório de Águas Emendadas já está em análise, bem como outro no território do Velho Chico na Bahia. Estamos otimistas.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

 

Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática