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Jacques Pena, presidente da Fundação Banco do Brasil
Presente em mais de 250 municípios, a tecnologia possibilita o cultivo de alimentos sem a utilização de agrotóxicos, queimadas e desmatamentos. Desenvolvida para atender uma família de cinco pessoas, a produção é montada em um sistema de anéis destinados a culturas diferentes e complementares, enquanto o centro do círculo é utilizado para a criação de pequenos animais, como galinhas e patos. A irrigação é feita por gotejamento. Além de garantir segurança alimentar, a Tecnologia Social pode gerar de R$ 400 a R$ 800 com a comercialização dos excedentes.
Jacques Pena - O encontro reflete uma necessidade de compartilhar as experiências do conjunto de projetos já implantados e em implantação do Pais. Já chegamos a mais de 250 municípios, com cerca de 7 a 8 mil unidades. Além do sistema padrão - com kit, capacitação e assistência técnica -, há também as demais iniciativas locais levadas adiante pelos produtores e parceiros locais e estaduais, que são muitas e precisam ser compartilhadas. Isso vai desde as experiências de comercialização até novidades técnicas de produção. Um produtor aprende a combater certa praga, outro desenvolve um novo sistema de compostagem e mais um descobre como conviver com as hortaliças em período chuvoso, por exemplo. Tudo isso produz muita experiência diferenciada Brasil afora, que precisa ser conhecida por todos.
PENA - A adaptabilidade é muito alta, até porque a diferença está, sobretudo, na escolha das espécies que serão plantadas. E vale lembrar que o programa nunca decide pelo produtor o que ele vai plantar. Não é um pacote do sistema de produção, mas uma opção do produtor segundo as características do lugar onde ele vive. É claro que há também um aprendizado acumulado pelos parceiros, técnicos e produtores. Sabemos, por exemplo, que o período chuvoso não é o melhor para implantar o Pais, já que aumenta a possibilidade de doenças e assim a tendência de o produtor acreditar que aquilo pode não dar certo.
Pena - Em se tratando da agricultura familiar – e portanto de produção em pequena escala, - é possível associar ao Pais diversas tecnologias de economia de água. É o caso, por exemplo, da cisterna calçadão (tecnologia de captação de água de chuva para produção de alimentos), que pode melhorar e ampliar a produção em locais com pouca água. Outro exemplo é a fossa séptica biodigestora, que resolve a questão do saneamento rural ao mesmo tempo em que cria uma minifábrica de adubo, que pode ser utilizado no próprio sistema. Quando você utiliza alguns mil litros de efluente, que é o líquido resultante do tratamento do esgoto e dos dejetos humanos, você também está economizando água. E isso é o mais importante: que as Tecnologias Sociais se complementem, garantindo o melhor aproveitamento possível dos recursos existentes na própria propriedade. Pena - O problema da comercialização, felizmente, aparece quando as coisas dão certo e há um nível de produção contínua e com certa escala. A primeira tendência de qualquer produtor é a venda local. Muito recentemente eu estava visitando uma unidade do Pais e uma vizinha apareceu para comprar um modo de coentro, por exemplo. Acontece que agora temos também também novas possibilidades abertas pela merenda escolar e por programas do governo federal, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). São espaços onde precisamos avançar, sem esquecer que essa questão começa na logística. Hoje comercializam-se produtos do Pais transportados em caminhões climatizados, com a carroceria fechada, bem como em carrinhos de mão que às vezes vencem três, quatro quilômetros em estrada de terra. A diversidade é muito grande. RTS - E o que une as experiencias bem sucedidas? Pena - A base fundamental é o associativismo e a organização da produção. Para você superar os problemas da comercialização, isso impõe um nível de exigência. O produtor, por exemplo, não pode comercializar apenas quando dá na telha dele. Ele precisa fazer isso de forma constante. Se todo sábado ele vai na mesma feira, então todo sábado o consumidor saberá que pode contar com a sua produção. Outra questão é a diversificação. É muito comum encontrar pessoas que se especializam em uma cultura apenas, o que aumenta sua dependência. Você pode, por exemplo, se associar a outros produtores para dar mais diversidade à comercialização também. E, em certa medida, é isso que faz a comercialização: ela vai induzindo um certo nível de profissionalização do produtor, porque ele passa a ter de responder a esse tipo de necessidade. RTS - A Fundação Banco do Brasil e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) estão negociando parcerias para a comercialização dos produtos do Pais nos Territórios da Cidadania. Qual a base do acordo? Pena - O MDA está limitado para algumas ações em função da natureza dos seus programas. Uma questão em que eles têm alguns limitadores é investir em bens individuais. Como a estrutura de produção do Pais é um benefício individual, o MDA nos colocou que, para eles, o ideal era investir em bens coletivos para a comercialização. Um caminhão, por exemplo, pode ser um bem coletivo para a comercialização de uma associação de produtores do Pais. O mesmo vale para um galpão, estruturas para feiras e uma série de itens de apoio à comercialização de caráter coletivo. O que estamos fazendo é encontrar pontos comuns. Um projeto no Terrítório de Águas Emendadas já está em análise, bem como outro no território do Velho Chico na Bahia. Estamos otimistas.
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