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Ignacy Sachs, diretor do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (Paris).

Foto: Agência FAPESP
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Diretor do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris, o economista francopolonês Ignacy Sachs é também um dos pais do conceito de desenvolvimento sustentável. Em depoimento à RTS, Sachs realça os principais desafios da Rede para o futuro e destaca as oportunidades trazidas pelas Tecnologias Sociais no bojo da crise econômica mundial. “Não podemos nos dar ao luxo de só avançar através de tecnologias de alta produtividade e alto conteúdo científico que deixam à margem da estrada milhões de pessoas. Estamos sentados em cima de paradigmas falidos e, portanto, condenados a inventar novos paradigmas”, afirma.

A RTS

“A Rede de Tecnologia Social se firmou como uma parceira importante na elaboração e implementação de estratégias de desenvolvimento socialmente includentes e ambientalmente sustentáveis voltadas, sobretudo, para aqueles que estão na parte mais baixa da pirâmide social. Creio que novas e interessantes tarefas a esperam nesse momento singular da história que vivemos, e que se caracteriza por uma crise de Wall Street que se espalhou para as economias de todo o mundo. Não deixo a oportunidade para dizer que há um aspecto positivo nessa crise que é derrubar o paradigma neoliberal. Foi como o socialismo real, que também foi por água abaixo após a queda do muro de Berlim. Estamos sentados em cima de paradigmas falidos e, portanto, condenados a inventar novos paradigmas.”

O Papel do Estado

“Estamos mais uma vez confrontados com um desafio fundamental: responder à questão ‘qual Estado para qual desenvolvimento’? Precisamos de um Estado enxuto, porém proativo na economia, no social e consciente dos perigos que nos ameaçam caso não saibamos nos conduzir de uma maneira menos predatória com relação à natureza. Para avançar no sentido de propor soluções que aproveitem os recursos naturais existentes em cada lugar para produzir o que é necessário para satisfazer as necessidades básicas das populações locais, precisamos de um feixe de políticas públicas convergentes e que se complementem: acesso à terra, capacitação, assistência técnica permanente, créditos preferenciais e acesso organizado ao mercado - a começar pelos mercados institucionais - e acesso às tecnologias apropriadas.”

As Tecnologias

“Que tecnologias? Elas devem ser sempre, em todos os lugares e circunstâncias, intensivas em conhecimento. É do conhecimento que surge o progresso. Mas elas devem ser ao mesmo tempo intensivas em mãos de obra. Não podemos nos dar ao luxo de só avançar através de tecnologias de alta produtividade e alto conteúdo científico que deixam à margem da estrada milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, elas precisam ser poupadoras dos recursos potencialmente escassos, dos solos agricultáveis, da água e, evidentemente, dos recursos financeiros. Não temos de onde tirar os bilhões que seriam necessários para avançar apenas com tecnologias de alto conteúdo tecnológico criando ao mesmo tempo um número suficiente de oportunidades de trabalho decente.

Essa tecnologias têm que ter ainda alguns atributos. Não podem descer abaixo de um certo nível de produtividade para que se assegure remuneração digna, têm que ser fáceis em sua aplicação e na medida do possível ser compatíveis com a pequena escala de produção, porque nosso público alvo são os agricultores familiares e os micro-empreendimentos. Portanto, não podemos unicamente ficar pensando em soluções que passem pela grande escala. É importante que essas tecnologias não fiquem unicamente no que é comercial e gera mercado, mas atuem diretamente sobre o nível de vida das populações por meio de tecnologias domésticas. Como reduzir o número de horas que as mulheres gastam para buscar lenha e água? Como melhorar as condições de habitação? São questões que requerem insumos tecnológicos de enorme impacto social, embora não se traduzam pela criação de mercados para produtos.”

Desafios do século XXI

“Nesse começo de século XXI, estamos enfrentando dois grandes desafios. O primeiro é o desafio das mudanças climáticas. Se não conseguirmos reduzir drasticamente a emissão de gases geradores de efeito estufa, corremos o risco de criar mudanças climáticas deletérias e em boa parte irreversíveis. O segundo desafio do século é social. Estamos vivendo numa economia mundial que se caracteriza por um déficit crônico de oportunidades de trabalho decente. Quando eu falo trabalho decente, utilizo a definição da OIT: é decente o trabalho razoavelmente remunerado, nas condições de cada economia, realizado em condições que não atentem contra a saúde do trabalhador e dando lugar a relações de trabalho que não ferem a sua dignidade. Como fazer com que a luta estrutural contra a pobreza se combine com as medidas de caráter ambiental? Como fazer com que as soluções propostas sejam simultaneamente soluções para dois problemas? Este é o desafio de hoje e é nele que devemos inscrever a busca de novas tecnologias.”

Identificando as soluções que já existem

“Acho que esta área das Tecnologias Sociais é extremamente relevante. O que se faz necessário para se passar a uma velocidade maior para a geração, disseminação e aplicação destas novas tecnologias de alto impacto social, custo moderado e uso razoavelmente fácil? Acho que, antes de mais nada, devemos continuar na tarefa da identificação das tecnologias já existentes e cuja introdução em lugares onde não são conhecidas gera imediatamente um processo de inovação com impactos sociais importantes. Schumpeter fazia uma diferença fundamental entre o que é invenção e inovação. A inovação é uma combinação nova de fatores de produção num lugar dado, ou seja, se eu aplico uma tecnologia de produtividade superior a que estou usando, eu estou criando um caso de inovação tecnológica que se produz por efeitos econômicos, sociais e ambientais. A RTS tem aí um papel fundamental: identificar, registrar, descrever e disseminar esses conhecimentos.”

Difundindo as Tecnologias Sociais

“Seria interessante haver unidades permanentes de demonstração das tecnologias da RTS nas grandes cidades, para que o público possa as ver. É uma coisa falar em abstrato da energia eólica e outra ver uma eólica que funciona. O mesmo vale para o Pais (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável). Ninguém sabe o que é. É melhor ver na prática uma mandala com um galinheiro no meio e uma irrigação simples e comprovar que em meio hectare é possível produzir muita comida para a família e para o mercado a um custo moderado. Uma vez que certas tecnologias demonstram na prática o seu valor, vem a questão dos zeros. Ou seja, como passar de uma escala pequena para uma grande escala? Evidentemente, esse impacto é diferencial deve ser adaptados à condição de cada bioma.”

O papel da invenção

“Não devemos ficar unicamente na disseminação das tecnologias já existentes. Devemos ter a ambição de estimular a invenção de novas tecnologias que obedeçam a essa mesma equação. Daí a importância de intensificar colaborações entre a RTS, universidades e institutos de pesquisa. Precisamos de editais específicos para gerar propostas de novas tecnologias que obedecem aos critérios que nos interessam. É preciso parcerias mais sistemáticas com todos os programas que têm como objetivo a luta estrutural contra a pobreza através da inclusão social pelo trabalho.  Temos que estabelecer essas parcerias e ver como otimizamos os esforços para evitar duplicações e fazer da disseminação realmente o objetivo central. Precisamos propor soluções ousadas sem nos limitar aos percalços do caminho. Sempre haverá sucessos e fracassos. O prato é bem cheio e desejo à Rede de Tecnologia Social sorte nessa caminhada.”

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