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Felipe Andueza, analista ambiental do Coletivo Lixo Eletrônico
Confira, abaixo, a íntegra da entrevista.
Felipe Andueza - É tudo o que você caracterizaria como resíduo sólido de algum componente eletro-eletrônico. São três linhas básicas: eletrodomésticos, eletrônicos e informática/comunicação. Isso vai desde lâmpadas fuorecentes, CDs e disquetes até games eletrônicos, telefones, aparelhos celulares e geladeiras. RTS - Quais os principais riscos associados? Andueza - A maior parte destes resíduos tem algum metal pesado e outras substâncias de alta toxidade. Os eletrônicos mais recentes, por exemplo, são pintados com uma camada de polímeros retardadores de chamas altamente tóxica. Ao mesmo tempo, são materiais que, em geral, podem voltar ao ciclo produtivo, seja na forma de peças que ainda estejam funcionando dentro de um equipamento, seja na forma de matérias primas como outro, prata, ferro e níquel, por exemplo. RTS - Quais as peculiaridades deste tipo de reciclagem em comparação aos demais resíduos sólidos? Andueza - Primeiramente, o lixo eletrônico exige uma triagem mais apurada. Isso envolve treinamento específico e uma mão de obra relativamente especializada. Envolve também equipamentos de segurança do trabalho e medidas de proteção específicas, considerando a toxidade destes materiais. Isso encarece o processo, que também demanda licença ambiental para operar. Hoje não há no Brasil, nem na América Latina, nenhuma empresa capaz de reciclar todos os componentes de todos os eletrônicos. Ao mesmo tempo, é uma indústria que vai ter que ser consolidada diante da progressão do descarte de eletro-eletrônicos nos próximos anos. RTS - Como reverter essa reciclagem em benefício social? Andueza - O processo reverso que envolve os eletrônicos traz boas oportunidades para se trabalhar a responsabilidade social. A primeira refere-se à triagem, que pode resultar na profissionalização de cooperativas, com materiais de alto valor agregado. A outra diz respeito ao reaproveitamento de peças e ao recondicionamento de computadores, que podem ser repassados para projetos sociais, telecentros, bibliotecas. Isso envolve ainda a formação de novos cursos profissionalizantes para novas frentes de trabalho. RTS - Há estímulo para isso? Andueza - Ainda não. Na verdade, o grande atrativo para as pessoas envolvidas hoje nessa discussão é o engajamento em nome de uma causa que consideram muito importante. RTS - Quais obstáculos devem ser removidos então? Andueza - O fato de não haver uma política nacional dificulta a integração entre a indústria produtora, a indústria recicladora, o governo e a sociedade civil. Outros países da América Latina, como Costa Rica, Chile e Colômbia, já estão muito à nossa frente nesse sentido. Enquanto o governo não reunir todos estes atores em torno de uma proposta de política pública que levante questões como a própria obrigatoriedade da reciclagem destes materiais e a responsabilização dos fabricantes, será difícil avançarmos nessas frentes. RTS - E a meta-reciclagem? Do que se trata exatamente? Andueza - A meta-reciclagem não envolve exatamente a reciclagem do equipamento e suas matérias primas. É mais o recondicionamento e a ressignificação destes equipamentos para outros usos além daqueles para os quais eles foram criados. Se algo não está trabalhando de determinado jeito, por quê não criar outro jeito para que ele funcione? A base é a criatividade e os efeitos que a prática possibilita para novas formas de apropriação tecnológica. RTS - Além da expansão do consumo, estudos do Greenpeace indicam que a vida útil dos computadores nos países industrializados já caiu de 7 anos, em 1997, para apenas 2 anos em 2005. Como vislumbrar este descarte no futuro? Andueza - O que acontece, na prática, é que o descarte dos eletro-eletrônicos ainda não é diretamente proporcional ao consumo. É da nossa cultura guardar ou repassar os equipamentos que não usamos mais. Quando ficarem realmente muito obsoletos – e isso será em breve -, aí sím devem chegar de forma mais forte em lixões e aterros. Isso sem falar que o ciclo de vida dos eletrônicos está mesmo diminuindo. Ou seja, o descarte está para aumentar absurdamente, com risco de ultrapassar o próprio nível de consumo. Não é difícil perceber isso. Hoje, por exemplo, a maioria das pessoas já tem dois ou três quilos de lixo eletrônico guardados em casa. RTS - O que o consumidor pode fazer? Andueza - Ele pode procurar e pressionar os fabricantes para que promovam o descarte correto de seus equipamentos. Em nosso blog também há uma lista de pontos de coleta e projetos que recebem esses resíduos. Obviamente muitas pessoas ainda ficam decepcionadas quando fazem essa consulta, porque o mais provável é que não haja um destes pontos perto de casa, nem mesmo em todas as capitais do país eles estão disponíveis. O consumidor precisa se manifestar, cobrar seus direitos. Para isso, a mobilização é imprescindível.
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