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Diana Helene, analista da equipe de publicação da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unicamp
Em entrevista ao Portal da RTS, a analista da equipe de publicação da ITCP/Unicamp Diana Helene, uma das responsáveis pela edição do documento, explica a dinâmica de trabalho da incubadora, detalha sua metodologia e avisa: sem sistematização, será difícil trocar experiências e qualificar os debates sobre a incubação de empreendimentos solidários no Brasil. Rede de Tecnologia Social - Como é o trabalho da ITCP/Unicamp? Diana - A incubadora da Unicamp trabalha na formação de cooperativas e empreendimentos solidários com base em princípios como a auto-gestão e a organização horizontal. Também queremos que nosso trabalho seja assim. Afinal, se propagamos um novo modelo de organização do trabalho, nossa própria organização deve seguir esses princípios. Temos um coletivo, que tem a participação de todos os órgãos da incubadora para decidir coletivamente suas atividades e rumos. São cerca de 30 pessoas, a maior parte estudantes, e um Conselho Orientador com cerca de dez professores. RTS - Como é efetivamente a metodologia de incubação? Diana - Temos sete Grupos de Estudo e Pesquisa em Economia Solidária (Gepes), cada um com um tema: Produção e Tecnologia; Comunicação e Arte; Planejamento Econômico; Gênero; Processos Pedagógicos; Dinâmica das Relações Humanas e Saúde do Trabalhador. As equipes, que incubam diretamente os empreendimentos, são formadas necessariamente por pessoas de cada um destes Grupos de Estudo, de forma a garantir a interdisiplinaridade na incubação. O primeiro passo é o que chamamos de pré-incubação, em que fazemos um diagnóstico para mapear habilidades e vocações tanto dos trabalhadores como dos locais onde eles vivem. Daí resulta um planejamento coletivo com o grupo, que resultará no que chamamos de oficinas de Educação Popular. A função destas oficinas é aprofundar as questões mais sensíveis para os grupos. Isso pode ir desde a redação de regimentos e estatutos até o desenvolvimento de tecnologias propriamente ditas. RTS - Por que publicar a Empírica? Diana - O Conselho Orientador fez uma provocação a todos nós. Estávamos muito ligados à prática sem sistematizar efetivamente o conhecimento que estava sendo produzido. A revista também ajudará a colocar, num lugar só, informações úteis a todos nós de forma mais sistematizada e objetiva, bem como permitir que nossa experiência seja conhecida por outras incubadoras. Antes, quando éramos demandados, sempre tínhamos que ir atrás de alguém em busca de informação sobre determinada ação que talvez já tivesse sido feita pela própria incubadora. Agora fica mais fácil. RTS - A revista destaca que “o conhecimento produzido a partir (e com) os empreendimentos de Economia Solidária carrega elementos diferentes do conhecimento científico convencional que são necessários à transformação social”. Como assim? Diana - Quando trabalhamos com os grupos, temos sempre conquistas e obstáculos. Garantir que os empreendimentos se solidifiquem como nova maneira de geração de trabalho e renda não é fácil. O que é sempre importante é essa troca de conhecimento. Como produzir um conhecimento que não venha só da academia? É uma troca muito rica com os trabalhadores e também com outras áreas de estudo, já que o enfoque interdisciplinar não é tão comum na própria universidade. Os princípios fundamentais da incubadora são a auto-gestão, a economia solidária e a educação popular. Educação popular porque acreditamos que essa é uma forma de não só levar o conhecimento que a universidade está produzindo, mas também trocar e reconstruir esse conhecimento com os trabalhadores. RTS - Pode dar um exemplo prático? Diana - Criamos, no grupo de educação e arte, uma metodologia para construir logotipos em conjunto com os grupos. Na maioria das vezes, um designer vai para casa, faz uma proposta e retorna com algumas opções, que você pode aceitar ou não. O que buscamos foi construir também um processo educativo de mão dupla. Afinal, para que serve um logotipo? O que ele representa? Nas empresas capitalistas, este logotipo é tanto melhor quanto mais fácil for sua assimilação e reprodução. Quando você abre essa discussão para os grupos econômicos solidários, ouvimos outra coisa. Vimos isso muito claramente quando discutimos com uma cooperativa de separação de material reciclável de caçambas de entulho a criação de um logotipo para o empreendimento, e apresentamos os logos do McDonalds e do MST. O grupo rejeitou o logo do McDonalds porque notou que o logo do MST trazia diversos símbolos que remetiam à história da luta pela terra, à questão de gênero, ao trabalho no campo. Era o que eles também queriam: um logotipo que incluísse elementos de sua própria história: seus uniformes, equipamentos de proteção, homens e mulheres. Ou seja, até numa questão aparentemente menor, como no caso dos logotipos, fica clara a diferença de desejos e valores entre empresas capitalistas e empreedimentos solidários. Não se pode usar a cartilha do mercado para processos de incubação. É preciso construir junto. RTS - E como a avalia a troca de experiências como esta entre as incubadoras brasileiras? Diana - Ainda precisamos melhorar muito nisso. Primeiro porque é muito difícil sistematizar este conhecimento, até por ser um conhecimento novo e construído coletivamente. Segundo porque a natureza interdisciplinar da incubação envolve muita gente, e no mais das vezes os encontros reúnem apenas um ou dois representantes de cada incubadora – o que não dá a dimensão exata dessa riqueza. A publicação de documentos como a Empírica pode ajudar nisso. A sistematização é fundamental. Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS
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