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Cássio Martinho, Jornalista e consultor em gestão de redes

 
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16/09/2009 - Jornalista e consultor em gestão de redes para uma série de instituições governamentais e ONGs, Cássio Martinho é autor do livro “Redes – uma introdução às dinâmicas da conectividade e das auto-organizações”, uma das principais referências nacionais sobre o tema. Em entrevista ao Portal da RTS, Martinho comenta a experiência da RTS enquanto rede e as implicações da institucionalização deste tipo de articulação.

RTS - O que é uma rede e para o que ela serve?

Martinho - A rede é uma forma de organização baseada na colaboração entre agentes autônomos. Quando falo em forma de organização, não significa que ela tenha que ser necessariamente uma forma de instituição. Ela pode ser uma organização de caráter fluido, transitório e singular, como, por exemplo, uma dinâmica de colaboração que surja em determinado território e que articule pessoas de tipos diferentes em torno de um objetivo determinado. Alcançado este objetivo, a dinâmica de rede se desfaz.

O importante é ter em mente que a rede é uma forma de organização. Ela serve para aquilo que a gente quiser que ela sirva, mas existe um porém. Podemos entender a rede como um instrumento para alcançar determinado fim, mas também é preciso dizer claramente que rede não é só um instrumento. Ela é um fim em si mesma, na medida em que ela permite a organização de agentes autônomos que irão, cada um a seu modo, constituir formas de operar essa relações.

RTS - Como você definiria a RTS enquanto rede?

Martinho -  A RTS é um projeto de rede com características proto-institucionais, que têm objetivos e articula agentes autônomos. Nesse sentido, ela é tipicamente uma rede, mas uma rede que tem características institucionais. Ela tem formas próprias de gestão e governança e uma estrutura definida, com uma secretaria-executiva e grupos de trabalho já constituídos, por exemplo. Por outro lado, ela não é institucional de fato, pois não se institucionalizou com um CNPJ.

RTS - Pela experiência das redes já existentes, é desejável avançar para essa institucionalização?

Martinho -  Dependendo do objetivo a que se presta uma rede, essa institucionalização pode até ser positiva. Não sem alguns danos colaterais e diversos desafios a serem vencidos. A institucionalização, por exemplo, pode produzir o dano da cristalização e do engessamento. Na medida em que uma organização se torna uma entidade, ela tende a querer se perpetuar em si mesma. Nesse sentido, ela volta suas energias para sua própria organização e se prende a questões institucionais internas, colocando de lado a ação conforme o objetivo.

RTS - A RTS dispõe de uma enorme diversidade institucional, envolvendo organizações governamentais, universitárias, produtivas e do terceiro setor. Como isso afeta essas articulações?

Martinho -  A RTS foi constituída a partir de uma cultura institucional que seus parceiros trouxeram. Nesse sentido, ela é reflexo da cultura de seus parceiros instituidores. Eu poderia fazer uma defesa das dinâmicas de rede informais em contraposição às redes mais institucionalizadas, mas não é o caso. Mesmo as estruturas institucionais convivem com as dinâmicas de rede, e eu diria até que são essas dinâmicas de rede mais fluidas e informais que oxigenam as estruturas mais formais e hierárquicas, levando essas organizações mais para frente. O caminho do meio está justamente em incorporar essas dinâmicas emergentes, o que está longe de ser fácil.

RTS - Como esse desafio se rebate na prática, do ponto de vista metodológico?

Martinho - Um grande exercício de compreensão do fenômeno das redes ainda é necessário para derivar metodologias alternativas. Numa instituição, por exemplo, uma posição funcional é fixa. Numa dinâmica de rede não existe lugar fixo. Portanto, metodologias que incorporem dinâmicas de rede devem trabalhar para que não haja lugares fixos.

RTS - Como assim?

Martinho -  Vamos pegar o exemplo dos GTs de comunicação. Geralmente, quem faz a comunicação é preponderantemente o pessoal incluído nesses GTS. No caso, você não precisaria apenas e  necessariamente de uma gerência de comunicação, mas de processos de comunicação que possam ser desempenhados ad hoc em função da circunstância e do momento. A ação pode ser feita pelo gerente de comunicação,  mas pode ser feita também por não jornalistas que compõem essa rede.

No fundo, a idéia da posição fixa cederia lugar à perspectiva da função móvel na Rede. Isso pode produzir problemas? Pode. Pode produzir um sucesso estrondoso para a rede? Também pode. A questão é que a renovação institucional sempre implica riscos, erros e aprendizagem.

RTS - Os riscos são condições inalienáveis?

Martinho - Sim. A gente não gosta do erro, e erros em instituições burocráticas e hierárquicas muitas vezes acabam em punição. Numa rede, como os elementos que participam são autônomos em relação uns aos outros, essa relação é de outra natureza. Fica parecendo que as estruturas mais formais, organizadas e coordenadas hierarquicamente não erram. É como se o erro fosse uma prerrogativa dos processos mais fluidos, como se as estruturas formais, rígidas, sólidas e tradicionais não errassem. Isso é absolutamente impertinente. Errar é uma forma de aprender, sobretudo em relações de maior complexidade como é o caso das redes. 

RTS - A RTS lançará este ano um Espaço Aberto de Conhecimento, que permitirá a geração de sociogramas a partir das dinâmicas de interação entre seus participantes. Qual a melhor forma de avaliar e agir sobre estes resultados?

Martinho -  O foco está na interação. Se é verdade que o princípio da densidade vale e você identifica nós da rede que ainda não têm relação, então a ação deve ser produzir esta relação. Aqueles nós que mantêm forte relação entre si, eu deixaria para agir sobre eles em um segundo momento. Existe uma ideia de que você precisa fortalecer aqueles laços que são mais fortes para não deixar a rede cair. Eu não concordo com isso. Se os laços são fortes, eles têm capacidade de se manter e se reproduzir por eles mesmos. Os laços tênues e inexistentes é que demandam ação. 

RTS - Qual o limite da internet para essa articulação?

Martinho -  Acho que somos mais sensibilizados pelos corpos que pelos bits. É difícil em processos nacionais e internacionais de articulação contar com a presença das pessoas, mas se existe um limite para a internet é o fato de ela não ser um corpo. Isso tem implicações decisivas. Por mais que tenhamos convergência tecnológica, nada substituirá a presença.


Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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