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André Soares, diretor do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ipec)

 
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30/04/2009 - Palestrante da Conferência Internacional Ethos 2009, que se realizará de 15 a 18 de junho de 2009, em São Paulo, André Soares será um dos debatedores do painel temático “Inovações Tecnológicas Como Base de uma Economia Sustentável”, no qual será discutida a construção de uma economia com técnicas e padrões de produção não subordinados apenas à lógica do mercado e da rentabilidade financeira.

André Luís Soares é diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Ecocentro Ipec (Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado), organização fundada por ele e por sua esposa, a pedagoga australiana Lucy Legan, em Pirenópolis, Goiás. Criado em 1998, o Ipec é hoje uma referência em sustentabilidade no Brasil.

Ainda jovem, Soares percorreu 50 países, sem nenhum dinheiro no bolso, fazendo todo tipo de trabalho. Nessa peregrinação, conheceu Lucy, que o levou para a Austrália. Ali, descobriu a permacultura e se inspirou para voltar ao Brasil e difundi-la como uma forma viável e eficiente de melhorar as condições de vida no seu país. De início, o casal viveu em uma favela em Brasília (DF), divulgando soluções para problemas de alimentação, energia, saneamento e habitação por 16 Estados. O Ipec nasceu do sonho de terem um local-modelo de todas as tecnologias ecossociais que conheceram, experimentaram e desenvolveram.

Veja a seguir a entrevista que ele concedeu ao Notícias da Semana, do Instituto Ethos.

Instituto Ethos: Temos tecnologias para abastecer a todos e reduzir nossos impactos sobre o meio ambiente?

André Soares - Sim. Essa noção de falta de tecnologia serve apenas ao pensamento consumista. O problema não é a falta de tecnologia, mas a percepção. Como estamos tentando resolver as coisas de forma centralizada e em grande escala, acaba sempre em nada ou em muito poucos resultados.

IE: A legislação brasileira atual ajuda no desenvolvimento e na utilização de tecnologias mais eficientes do ponto de vista ambiental?

AS: A legislação não ajuda, mas também não atrapalha demais. O que falta é um sistema de garantia de cumprimento da legislação ambiental, melhores sistemas de fiscalização e um sistema judiciário mais ágil. Naturalmente, isso não é apenas uma responsabilidade do governo, pois o setor privado deveria apresentar uma postura mais ética na questão da produção. São raras as empresas que colocam a sustentabilidade no seu core business. Ela ainda é periférica ao discurso de mercado. Há avanços muito lentos.

IE: Tem havido investimentos, privados e públicos, suficientes nessa área?

AS: Não. Particularmente no que se refere à formação de pessoas para desenvolver soluções, não tem havido investimentos sérios. Continuamos respondendo a pressões estratégicas da globalização e não às necessidades reais do país.

IE: Como o Ipec se financiou para poder experimentar melhores tecnologias?

AS: De várias formas, principalmente oferecendo produtos e serviços sustentáveis. Nós oferecemos capacitação de qualidade e ajustamos nossas necessidades orçamentárias à realidade econômica. É uma forma diferente de ver a questão econômica: pequeno é bom.

IE: Que tecnologias se mostraram mais viáveis, na experiência do Ipec?

AS: Nestes dez anos, desde a criação do Instituto, nós pudemos desenvolver e adaptar muitas tecnologias. Algumas tiveram um impacto até inesperado, como o superadobe, técnica de construção natural com terra, que já está sendo aplicada em todo o país. Muitas técnicas tradicionais de construção (adobe, taipa etc) foram resgatadas e modernizadas para uso atual. Também evoluímos em muitas estratégias de saneamento ambiental, um problema que o Brasil não precisava ter.

Finalmente, colocamos muitas dessas tecnologias juntas para mostrar que em apenas um hectare de terra é possível viver muito bem econômica e ambientalmente. O Sítio Sustentável [http://www.ecocentro.org/artigo.do?acao=pesquisarArtigo&artigo.id=23423] que desenvolvemos, por exemplo, é uma tecnologia de tecnologias.

IE: Essas tecnologias podem ser replicadas? Em que lugares?

AS: Já tivemos a oportunidade de replicar nossas tecnologias em todas as regiões do Brasil e também no Haiti. Mais recentemente, temos sido chamados para fazer isso em outros países de língua portuguesa. Ajudamos algumas empresas européias a receber prêmios internacionais de sustentabilidade e continuamos multiplicando nosso trabalho.

IE: Resumidamente, como transformar ambientes urbanos para que utilizem melhores tecnologias?

AS: É apenas uma questão de escolha. O automóvel, por exemplo, ainda reina na cidade como o habitante mais poderoso. Muita coisa pode ser feita pontualmente, como hortas e florestas urbanas, terraços produtivos e novas organizações locais de troca. No entanto, a questão fundamental para a cidade é o transporte, e neste ponto, automóveis solares não resolverão, pois a cidade tem de continuar crescendo horizontalmente para acomodar tantos veículos. Só a parada do crescimento horizontal vai salvar a cidade de exterminar suas próprias fontes de recursos e essa parada tem de ser geral. Ou fazemos isso por vontade própria ou a natureza o fará.

IE: Na sua visão, que impactos sociais essas tecnologias provocam?

AS: As tecnologias que desenvolvemos e multiplicamos têm o efeito fundamental de empoderamento. Eu posso fazer minha casa, produzir meu alimento, cuidar da minha água, produzir energia, assumir responsabilidade pelo meu lixo e resolver a questão localmente. Eu posso me organizar com meus vizinhos para uma vida de mais qualidade, restaurando o ambiente que nossos antepassados ajudaram a destruir, e viver em harmonia com a paisagem e com os outros. Tecnologia Social é poder.

IE: O que está contendo a sua disseminação?

AS: Ainda estamos numa realidade em que o poder econômico é conduzido pelo medo de perder o controle. Essa obsessão pelo controle no grupo de diretores, nos comitês financeiros e em todos os níveis de gerência impede o pensamento livre, a criatividade e, fundamentalmente, a própria felicidade. São as mesmas pessoas que controlam e sentem medo e tomam antidepressivos para conviver com essa tragédia social. É esse medo que está impedindo maiores investimentos e mudanças reais. Agora já se fala até em um novo setor para diferenciar as empresas éticas das demais. Como é possível isso?


Entrevista a Neuza Árbocz (Envolverde) / Edição de Benjamin S. Gonçalves

Fonte: Informativo do Instituto Ethos - Nº 471

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