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Rosa Alegria, vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC/SP
Foi assim que ela viajou para os Estados Unidos a fim de se dedicar a um campo ainda pouco conhecido: o de estudos do futuro. Trata-se de um curso interdisciplinar que busca entender, interpretar e preparar as pessoas para as mudanças que devem ocorrer no mundo. Rosa tornou-se mestre nessa área pela Universidade de Houston, no Texas, e hoje é vice-presidente do Núcleo de Estudos do Futuro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Engajada em diversas iniciativas que buscam transformações positivas para o mundo, como o Projeto Millennium, do Conselho Americano da Universidade das Nações Unidas, e o Movimento Mídia da Paz, Rosa é uma mulher de grande carisma, que transborda valores humanos. Para ela, o ser humano precisa ser mais criativo, sonhar mais e ser capaz de imaginar o futuro que ele quer para o mundo. “Fomos desacostumados a pensar como será a vida lá na frente. Hoje, a pessoa que fala em sonhos é considerada ingênua”, afirma. Rosa acredita que o movimento de Responsabilidade Social Empresarial (RSE) está estancado. Na sua opinião, somente quando as empresas começarem a valorizar seus funcionários como indivíduos é que haverá avanços na área. "Se as pessoas continuarem infelizes no trabalho, de nada adiantará o movimento de RSE." Esses ideais se refletem em seu trabalho, como consultora de RSE, instrutora do UniEthos e diretora de conteúdo do portal Mercado Ético. No primeiro pingue-pongue do Notícias da Semana de 2008, Rosa Alegria fala sobre a importância dos princípios femininos para a sustentabilidade, ética na mídia, espiritualidade e outros assuntos, ajudando-nos a iniciar o ano com muita inspiração. Instituto Ethos: Você é uma futurista, certo? O que significa isso? Existem atualmente quatro escolas no mundo que oferecem estudos do futuro: duas nos Estudos Unidos - a de Houston, no Texas, onde fiz o curso, e a do Havaí -, uma na Austrália, uma na França e uma na Finlândia. Às vezes as pessoas confundem as coisas e me pedem para fazer previsões para os próximos anos. Mas eu não adivinho as coisas, não possuo o dom de fazer previsões. Apenas tenho uma leitura da realidade com base em observações. No futurismo, a gente estuda diversas disciplinas, como pensamento sistêmico, projeção e métodos intuitivos. Há técnicas para desenvolver a intuição. Sempre me senti atraída por esse lado de mudanças e hoje sou uma futurista. Essa é a minha profissão. IE: Você participa de diversas iniciativas muito interessantes. Fale um pouco delas? O problema é que hoje em dia 98% dos domicílios brasileiros possuem televisão. Aliás, cerca de 90% da população mundial têm acesso a televisão, de uma forma ou de outra. Tudo aquilo que é mostrado na mídia serve para moldar nossa cultura. E essa cultura é decadente, pois somos expostos a simbologias carregadas de imagens pesadas e mensagens negativas. Será que o mundo é só isso que temos visto? Parece que a mídia nunca coloca seus holofotes sobre o mundo que está florescendo. Estamos nos transformando numa sociedade que perdeu a fé no próprio ser humano. E o mais doloroso é que nos tornamos pessoas desprovidas da capacidade de sonhar, de imaginar nosso futuro. IE: Em sua opinião, por que as pessoas que trabalham com responsabilidade social estão se sentindo frustradas? Albert Einstein falava que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Perdemos a capacidade de manipular as coisas. Estamos atrofiados. Hoje em dia, a pessoa que fala sobre seus sonhos é vista como ingênua e romântica. Se você falar em sonho para um empresário, é provável que ele pergunte se você veio de outro planeta. Ou seja, conceitos como sonhar, imaginar e desejar, que são absolutamente vitais para os seres humanos, não são celebrados nem considerados pelo nosso sistema. Na década de 1950, o sociólogo holandês Fred Polak, um dos criadores dos estudos do futuro, observou que depois da Segunda Guerra Mundial as pessoas passaram a viver com medo e com a sensação de que o mundo poderia acabar a qualquer hora. Ele então começou a estudar as civilizações e a comparar as sociedades que tinham medo. E chegou à conclusão de que o medo influencia a imagem que as pessoas fazem do futuro. E que, na história da humanidade, as culturas que sobreviveram foram as que tinham imagens positivas sobre o que estava por vir. Quando trabalho a visão de futuro com os empresários, procuro fazer com que eles encontrem ações possíveis de serem feitas lá adiante. Isso dá muito resultado. Essa é a minha grande paixão: fazer com que as pessoas enxerguem coisas que elas não conseguem ver no dia-a-dia. IE: E qual é a reação dessas pessoas? IE: E você acha que elas vão perceber que a espiritualidade é importante? Nunca houve um nível tão grande de estresse, alcoolismo e uso de drogas como hoje em dia. Há uma exaustão psíquica. E, a partir disso, os indivíduos começam a buscar vias para respirar. Eles querem respostas que as empresas não oferecem. Querem saber qual é o sentido de estarem dedicando tanto tempo e energia a um projeto. Passam a se questionar sobre o que querem da vida e sobre as razões de estarem sendo tão cobrados. Mesmo as empresas que adotam uma gestão responsável não dão a atenção devida à questão do indivíduo e continuam com aquele modelo de produzir mais com menos. Se isso não mudar, acredito que o movimento da RSE não vai chegar aonde deveria. Uma vez perguntei ao John Elkington, fundador da SustainAbility e criador do conceito de triple bottom line, se ele não havia pensado num quarto bottom line, que dissesse respeito ao indivíduo. Essa idéia é do professor Evandro Vieira Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). IE: Ou seja, é preciso trabalhar valores dentro das organizações? Acredito que as empresas quando entram para o movimento de RSE pensam, em primeiro lugar, que aquilo vai ser bom para o marketing delas. E isso não muda a situação. Além do crescimento financeiro e do lucro, é preciso contemplar a integração do ser humano e batalhar pela felicidade das pessoas. Nunca vi tanta gente infeliz como vejo agora. Você vai a uma ONG e as pessoas que trabalham lá estão descontentes. Você vai a uma empresa e também só encontra gente insatisfeita. IE: Ao mesmo tempo, é possível citar coisas boas acontecendo. Houve alguma experiência no movimento de RSE que você julga positiva, que a emocionou ou que a deixou feliz este ano? IE: Então você acredita que a mulher tem um papel importante nesse movimento? Quando veio a fase agrícola, que implicava exploração dos territórios, dominação dos espaços e controle da natureza, o homem passou a pautar a sociedade por valores como agressividade, exploração e uso da força. Ou seja, houve um desequilíbrio de valores. A sociedade deixou de ser guiada pela cultura do acolhimento e passou a ser pautada pelo sistema de domínio e uso da força. A realidade de hoje é resultado disso. Quando Charles Darwin disse que quem vence é o mais forte, ele se referia, na verdade, àquele que sobrevive às mudanças e às transformações do mundo. Mas lemos Darwin de outra forma. Quando falo da importância das mulheres, não estou querendo dizer que devamos assumir o poder ou coisa assim. A mulher é essencial para o desenvolvimento sustentável graças a seus valores. A mulher tem o princípio da vida. E já não restam dúvidas de que isso precisa ser resgatado. Ainda vai chegar o momento em que um CEO que chorar durante uma reunião da empresa não será ridicularizado. Por Giselle Paulino |
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